Meu Rival, Meu Amor II
Meu Rival, Meu Amor II
por Letícia Moreira
Meu Rival, Meu Amor II
Capítulo 1 — O Despertar de um Enigma
A brisa marinha, carregada do perfume salgado e inebriante das algas e do jasmim que desabrochava em profusão nos muros antigos da mansão, acariciava o rosto de Mariana. Ela estava ali, sentada na varanda colonial, com um copo de café fresco e amargo nas mãos, observando o sol nascer sobre as águas calmas de Paraty. Um espetáculo que, em outros tempos, a enchia de paz e inspiração. Mas hoje, a paisagem que tanto amava parecia um reflexo distorcido de sua própria confusão interior.
Dois anos haviam se passado desde que ela e o controverso empresário Ricardo Montenegro haviam enterrado a animosidade que os consumira por anos. Dois anos de uma trégua tensa, pontuada por encontros fortuitos em eventos sociais, breves conversas que transbordavam uma eletricidade não dita, e olhares que se perdiam um no outro com uma intensidade que a assustava. A paixão que a consumiu na juventude, aquela que a fizera jurar ódio eterno ao homem que roubara a empresa de sua família e, segundo sua visão tortuosa da realidade, seu coração, ainda latejava em algum lugar profundo, adormecido, mas jamais extinto.
“Bom dia, minha flor.”
A voz grave e rouca, que ela conhecia como a palma de sua própria mão, a fez sobressaltar. Ricardo. Sempre aparecendo como um fantasma em seus momentos de maior vulnerabilidade. Ele estava ali, a poucos metros de distância, vestindo um linho branco impecável, os cabelos escuros levemente desalinhados pelo vento, um sorriso maroto brincando nos lábios. Ele parecia mais confiante, mais seguro de si do que nunca. E, para a sua frustração, mais bonito.
Mariana tentou disfarçar o arrepio que percorreu sua espinha. “Ricardo. O que faz aqui tão cedo?” Sua voz soou um pouco mais aguda do que pretendia.
Ele se aproximou, o som de seus passos suaves na madeira da varanda ecoando a batida acelerada do coração dela. “Não podia deixar de vir te dar bom dia. E para ter certeza de que você não está esquecendo nosso compromisso.”
O compromisso. Ah, sim, o compromisso. Um evento beneficente organizado pela fundação de Ricardo, para o qual ela havia relutantemente concordado em ser uma das anfitriãs. Uma maneira, ela imaginava, de mostrar ao mundo que as feridas do passado haviam cicatrizado, que a rivalidade entre suas famílias, a Montenegro e a Salles, era algo do passado. Uma mentira que ela estava determinada a vender.
“Não esqueci”, ela respondeu, forçando um sorriso. “Apenas estava… contemplando o nascer do sol. Algo que você, em sua eterna correria, provavelmente nem se lembra de como é.”
Ricardo riu, um som profundo que a fez apertar o copo com mais força. “Ah, Mariana, você sempre me subestima. Eu me lembro de tudo. Especialmente das coisas que realmente importam.” Ele se sentou em uma cadeira próxima, cruzando as pernas elegantemente. O sol da manhã iluminava seu perfil forte, realçando a linha de sua mandíbula e o brilho intenso de seus olhos escuros. Era um homem que inspirava fascínio e perigo em igual medida.
“E o que realmente importa para você, Ricardo?” ela perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. Havia uma pontada de mágoa na pergunta, um eco das memórias dolorosas que ela tentava, a cada dia, manter trancadas a sete chaves.
Ele a olhou diretamente, e por um instante, ela viu algo além do empresário implacável e do rival de outrora. Viu o homem que a havia amado, ou que ela acreditava ter amado. “Você”, ele respondeu, sem hesitar.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som das ondas e pelo canto dos pássaros. Mariana sentiu o rosto corar, uma reação que a enfureceu. Ela não era mais a garota ingênua que se deixava abalar por suas palavras. Ou era?
“Não me venha com seus discursos”, ela retrucou, tentando controlar a voz. “Você sabe que isso é apenas… uma formalidade. Uma forma de apresentarmos uma frente unida.”
Ricardo inclinou a cabeça, um leve sorriso brincando em seus lábios. “Será? Ou será que há algo mais que você está tentando reprimir, Mariana? Algo que está gritando dentro de você para ser liberado?”
Ele se levantou e caminhou até a beirada da varanda, observando o mar. Mariana o seguiu com o olhar, sentindo uma vertigem familiar. Aquele homem era um enigma, uma combinação perigosa de charme, inteligência e uma ambição voraz. E, por mais que tentasse negar, ele ainda exercia um poder sobre ela que a aterrorizava e a atraía na mesma medida.
“Você fala como se eu fosse alguma criatura selvagem incapaz de controlar suas emoções”, ela disse, a voz carregada de sarcasmo.
“E você fala como se você fosse uma estátua de gelo”, ele respondeu, voltando-se para ela. Seus olhos escuros a perscrutaram, buscando algo em sua alma que ela mesma se recusava a admitir. “Mas eu conheço a mulher por trás dessa fachada. Conheço o fogo que arde em você. E sei que ele nunca se apagou completamente.”
Um arrepio percorreu o corpo de Mariana. As palavras dele eram como chamas que lambiam as barreiras que ela havia erguido com tanto esforço. Ela se levantou, sentindo a necessidade urgente de se afastar dele, de escapar daquela atmosfera carregada que ele criava ao seu redor.
“Eu preciso ir. Tenho muita coisa para organizar para o evento.”
“Eu sei que você tem. E eu estarei lá para te ajudar em tudo que precisar. Como o bom anfitrião que sou.” Ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. O perfume de seu perfume, uma mistura sofisticada de sândalo e cítricos, a envolveu. “E talvez, apenas talvez, possamos aproveitar a oportunidade para… reaproximar as coisas. De uma forma mais… pessoal.”
Ele se aproximou ainda mais, seus olhos fixos nos dela. Mariana sentiu o calor subir por seu corpo, o coração batendo descompassado. O perigo era palpável, a tentação irresistível. Ela podia sentir a força dele, a energia que emanava dele, e sabia que estava à beira de cair em seu feitiço mais uma vez.
“Ricardo, isso é loucura”, ela sussurrou, a voz embargada.
“Talvez seja”, ele concordou, um sorriso lento e provocador surgindo em seus lábios. “Mas você sempre gostou de um pouco de loucura, não é, Mariana?”
Ele estendeu a mão, os dedos roçando levemente a pele de seu rosto. Um toque elétrico que a fez fechar os olhos por um instante. Quando ela os abriu, ele já estava um pouco mais distante, o olhar fixo no dela com uma promessa velada.
“Nos vemos hoje à noite, então. Na festa. E não se esqueça de usar aquele vestido azul. Ele realça a cor dos seus olhos de uma forma… perigosa.”
Com um último olhar penetrante, Ricardo se virou e caminhou para longe, desaparecendo entre os coqueiros que margeavam a propriedade. Mariana ficou ali, parada, o corpo tremendo, a mente em turbilhão. O sol agora brilhava forte, mas o frio em sua alma era mais intenso do que nunca. Ele havia voltado, e com ele, todas as emoções que ela pensava ter enterrado. A rivalidade, o ódio, a paixão. E a pergunta que ecoava em sua mente era: estaria ela pronta para enfrentar tudo isso novamente? Ou seria ele, mais uma vez, o único a ditar as regras do jogo?