Meu Rival, Meu Amor II
Capítulo 2 — O Palco da Discórdia
por Letícia Moreira
Capítulo 2 — O Palco da Discórdia
A mansão histórica de Paraty pulsava com uma energia febril. Luxo, sofisticação e um toque de excentricidade se misturavam no ar, carregado pelo aroma de flores exóticas e champagne borbulhante. As luzes douradas banhavam os jardins impecavelmente cuidados, onde convidados elegantes circulavam, seus risos e conversas ecoando suavemente na noite. Era o evento beneficente da Fundação Montenegro, um espetáculo de filantropia que atraía a elite da sociedade brasileira, e Mariana Salles, a co-anfitriã relutante, se movia por entre os rostos conhecidos com um sorriso calculado e a alma em perpétuo estado de alerta.
Ela estava deslumbrante. O vestido azul-marinho, escolhido a dedo por Ricardo, caía em cascata sobre seu corpo, realçando suas curvas de maneira sutil e elegante. Seus cabelos, presos em um coque alto e sofisticado, revelavam a delicadeza de seu pescoço e o brilho de seus brincos de diamantes. Mas por baixo da aparente calma, Mariana sentia o nervosismo a corroer. Cada sombra, cada sussurro parecia esconder a presença dele.
E então, ele surgiu. Como sempre, no momento exato para roubar a cena. Ricardo Montenegro desceu a imponente escadaria da mansão, um espetáculo em si mesmo. O terno preto impecável acentuava sua figura alta e atlética, e um sorriso confiante brincava em seus lábios enquanto ele cumprimentava os convidados com uma desenvoltura que só ele possuía. Os olhos escuros, penetrantes como sempre, encontraram os de Mariana através da multidão, e por um breve instante, o tempo pareceu parar.
Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era como se o olhar dele pudesse despir sua alma, revelando todas as suas inseguranças e desejos ocultos. Ela desviou o olhar rapidamente, focando em um grupo de convidados próximos, tentando ignorar a sensação que sempre a dominava quando ele estava por perto: uma mistura perigosa de repulsa e atração.
“Mariana, minha querida!”, uma voz estridente a tirou de seus pensamentos. Dona Adelaide Montenegro, a matriarca da família, se aproximou, um sorriso forçado no rosto. A velha rival de sua mãe, e por extensão, sua própria rival. “Você está radiante esta noite. O vestido é… interessante.”
O elogio, se é que podia ser chamado assim, veio com um toque de sarcasmo que Mariana não deixou passar. “Obrigada, Dona Adelaide. Ricardo tem um bom gosto, devo admitir.” Ela retribuiu o sorriso, mantendo a voz fria e polida. A competição entre suas famílias era antiga, e cada palavra era uma jogada estratégica nesse tabuleiro de xadrez implacável.
Dona Adelaide arqueou uma sobrancelha. “Ah, sim, o Ricardo. Ele sempre sabe como escolher o que o agrada. Principalmente quando se trata de negócios… e de mulheres.” O olhar dela percorreu Mariana de cima a baixo, como se a estivesse avaliando, medindo seu valor em termos de utilidade para os planos de seu filho.
Antes que Mariana pudesse responder, Ricardo se aproximou, um braço envolvendo a cintura de Mariana com naturalidade, como se fossem um casal. O choque inicial foi rapidamente substituído por uma onda de pânico e indignação. Ela olhou para ele, os olhos cheios de questionamento, mas Ricardo apenas sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos.
“Mãe, que surpresa vê-la tão animada”, ele disse, a voz suave, mas com um tom de autoridade que silenciou a matriarca. Ele se virou para Mariana, o olhar intenso. “Mariana, você está se sentindo bem? Parece um pouco tensa.”
“Estou ótima, Ricardo”, ela respondeu, tentando se livrar do braço dele, mas ele a apertou um pouco mais. Era um gesto possessivo, uma demonstração pública de controle. “Apenas… apreciando a companhia.”
Dona Adelaide bufou, visivelmente contrariada. “Bem, continuem com a sua noite. Tenho outros convidados para cumprimentar.” Ela se afastou, deixando Mariana e Ricardo sozinhos em meio à multidão.
“O que você pensa que está fazendo?”, Mariana sussurrou, a voz cheia de raiva contida.
Ricardo inclinou a cabeça, o sorriso maroto voltando. “Apenas mantendo as aparências, minha querida. Não queríamos dar a impressão de que estamos em guerra, certo?”
“Mas isso é ridículo! Você não pode simplesmente…”
“Por que não?”, ele a interrompeu, o tom ficando mais sério. “Não é isso que todos esperam? Que a rivalidade entre as famílias Montenegro e Salles seja um espetáculo, uma farsa para a sociedade? E você, Mariana, sempre soube atuar tão bem.”
As palavras dele atingiram Mariana como um golpe. Ele estava certo. Ela estava ali, interpretando um papel, assim como ele. Mas a proximidade dele, o toque de sua mão em sua cintura, era real. E a eletricidade que pulsava entre eles era inegável.
“Não me diga que você está se importando com o que os outros pensam agora, Mariana”, ele provocou, o olhar fixo no dela. “Ou será que a presença de alguém mais em sua vida a faz temer que eu possa… roubar a cena?”
“Você nunca vai roubar nada de mim, Ricardo”, ela retrucou, a voz firme. “E você sabe disso.”
Ele riu, um som baixo e sedutor. “Será? Ou talvez você tenha medo de que eu roube mais do que a cena. Talvez você tenha medo de que eu roube o seu coração novamente.”
O impacto de suas palavras a deixou sem fôlego. Ele sabia. Ele sabia o quanto ela lutava para reprimir aquele sentimento, o quanto ela se odiava por ainda sentir algo por ele.
“Você está louco se pensa isso”, ela disse, a voz trêmula.
“Louco por você, Mariana. Sempre fui.” Ele se inclinou, os lábios a poucos centímetros dos dela. O perfume dele a envolveu, e por um momento, ela se esqueceu de tudo. O passado, o presente, a rivalidade. Existia apenas ele, o homem que a enlouquecia e a consumia.
“Ricardo… não”, ela sussurrou, fechando os olhos, esperando o beijo que ela sabia que viria. Mas o beijo não veio. Em vez disso, ela sentiu a mão dele se afastar de sua cintura.
Quando ela abriu os olhos, Ricardo estava sorrindo, um sorriso genuíno desta vez, quase terno. “Não se preocupe, Mariana. Ainda não é a hora.” Ele se virou para cumprimentar um grupo de investidores que se aproximava, deixando-a ali, no meio da multidão, com o coração disparado e a confusão ainda maior.
O resto da noite foi uma sucessão de conversas forçadas, sorrisos falsos e olhares furtivos na direção de Ricardo. Ele parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, charmoso, elegante, inatingível. Cada vez que seus olhares se cruzavam, uma corrente elétrica parecia percorrer o salão, e Mariana sentia um nó apertar em seu estômago.
Ao final da festa, exausta e com a mente fervilhando de emoções conflitantes, Mariana se dirigiu aos fundos da mansão, buscando um refúgio na tranquilidade do jardim. O som das ondas quebrando na praia era um bálsamo para sua alma agitada. Ela respirou fundo, tentando afastar o perfume dele, as palavras dele, a presença dele.
“Uma noite longa, não é?”
Ela se virou bruscamente, o coração saltando no peito. Ricardo estava ali, parado nas sombras, o olhar fixo nela.
“O que você quer, Ricardo?”, ela perguntou, a voz rouca.
Ele caminhou lentamente em sua direção, o luar iluminando seu rosto. “Só queria ver se você estava bem. Você parecia um pouco… sobrecarregada.”
“Estou bem. Apenas cansada.”
“Eu sei. É difícil manter essa máscara o tempo todo, não é?” Ele parou a poucos passos dela, o silêncio se estendendo entre eles. O som do mar parecia amplificar a tensão. “Mas você está se saindo muito bem, Mariana. Você é forte. Sempre foi.”
Houve um momento de silêncio em que eles apenas se olharam, um reconhecimento tácito da complexidade de sua relação.
“Por que você está fazendo isso, Ricardo?”, ela perguntou finalmente, a voz baixa. “Por que você insistiu para que eu fosse sua co-anfitriã? Por que você fica me provocando, me testando?”
Ele suspirou, um som pesado que ecoou na noite. “Talvez porque eu sinta falta disso. Da nossa… dinâmica. Da luta. E talvez porque eu queira saber se você ainda se lembra do que éramos antes de tudo desmoronar.”
“Não houve ‘antes’, Ricardo. Houve apenas a sua traição.” A amargura em sua voz era inconfundível.
Ele fechou os olhos por um instante, como se a dor daquelas palavras o atingisse em cheio. “As coisas não são tão simples quanto parecem, Mariana. E você sabe disso.”
Ele deu um passo à frente, o olhar fixo no dela, intenso e cheio de uma emoção que ela não conseguia decifrar. “Você é a única pessoa que me desafia. A única que me faz sentir… vivo. E eu não quero te perder novamente.”
As palavras dele ecoaram em sua mente, confundindo ainda mais seus sentimentos. Perder? Ele se importava em perdê-la? Ou era apenas mais uma estratégia para manipulá-la?
“Eu não sou um jogo, Ricardo”, ela disse, a voz embargada.
“Eu sei”, ele respondeu, um sorriso melancólico surgindo em seus lábios. “Mas você sempre foi o meu jogo favorito.”
Ele se aproximou, e desta vez, Mariana não recuou. Ele gentilmente levou a mão ao seu rosto, acariciando sua bochecha com o polegar. O toque dele era como fogo, queimando a pele, mas também acalmando a tempestade dentro dela.
“Boa noite, Mariana”, ele sussurrou, os olhos fixos nos dela. E então, ele se virou e desapareceu na escuridão, deixando-a sozinha, com o coração batendo descompassado e a certeza de que aquela noite havia sido apenas o início de algo muito mais complicado. O palco da discórdia havia sido montado, e os atores, relutantes e atormentados, estavam prestes a interpretar seus papéis.