A Espiã do Rei III
Capítulo 10 — A Maré da Traição no Cais do Desespero
por Vitor Monteiro
Capítulo 10 — A Maré da Traição no Cais do Desespero
O ar do porto de Salvador, ao amanhecer, era uma mistura densa de sal, peixe e o cheiro pungente da madeira molhada. As lamparinas a óleo lançavam um brilho fraco sobre o cais, revelando as silhuetas sombrias de navios ancorados e a atividade febril de homens carregando caixas e sacos. A notícia da possível partida iminente do navio do Capitão Matias havia se espalhado rapidamente pelos becos e tavernas, alimentando a tensão que pairava sobre a cidade. Isabella, com o coração apertado pela perda de Bartolomeu e a urgência da situação, retornara de sua perigosa jornada ao sertão com informações vitais.
Ela se dirigiu imediatamente à casa do Doutor Almeida, encontrando-o reunido com o Padre Inácio. A aparência cansada de Isabella e a gravidade em seus olhos não deixavam dúvidas sobre a gravidade de suas descobertas.
“Bartolomeu morreu,” Isabella anunciou, a voz embargada pela fadiga. “Ele se jogou no Ralo da Terra quando os homens de Baltasar o encontraram. Mas eu obtive informações cruciais antes disso. O carregamento de ouro e armas está pronto para embarcar no navio do Capitão Matias, que parte ao amanhecer.”
O Doutor Almeida suspirou, passando as mãos pelo rosto. “Baltasar… eu sabia que ele estaria envolvido. Ele é o braço direito de Dom Sebastião para essas operações sujas. E o Capitão Matias… um homem sem escrúpulos, conhecido por sua lealdade a quem paga mais.”
O Padre Inácio, com sua habitual compostura, analisava a situação. “O plano de Dom Sebastião é audacioso. Ele pretende financiar um levante com ouro roubado e armas compradas ilegalmente. Se ele conseguir, a Bahia mergulhará no caos.”
“Precisamos impedir essa partida,” Isabella declarou, a determinação em seus olhos. “Se o navio partir com as armas, o levante será inevitável.”
“Mas como, Isabella?” Almeida perguntou, a preocupação evidente em sua voz. “O porto estará em alerta. Qualquer tentativa de intervenção será vista como um ataque, e Dom Sebastião tem aliados influentes, tanto aqui quanto entre os oficiais da Marinha.”
“O Padre Inácio tem contatos no porto, não é?” Isabella se virou para o padre. “Talvez ele possa nos ajudar a criar uma distração, algo que desvie a atenção dos homens de Dom Sebastião o suficiente para que possamos agir.”
O padre assentiu lentamente. “Tenho alguns leais que ainda servem à Coroa, mesmo que em segredo. Podemos espalhar rumores sobre um navio pirata à espreita, ou sobre uma inspeção surpresa da Marinha em busca de contrabando. Algo que gere confusão e medo.”
“E enquanto isso,” Isabella continuou, “eu e o Doutor Almeida podemos tentar reunir provas mais concretas. Talvez possamos encontrar documentos que liguem Dom Sebastião diretamente à compra das armas, ou aos movimentos do Capitão Matias.”
“É arriscado,” Almeida ponderou. “Mas é o nosso único caminho. Precisamos agir agora, antes que seja tarde demais.”
Eles passaram o resto da noite planejando os detalhes, a tensão crescendo a cada minuto. Isabella sentia a adrenalina correr em suas veias, um misto de medo e excitação. Ela sabia que estava prestes a enfrentar o auge da conspiração de Dom Sebastião.
Ao amanhecer, o porto de Salvador já estava em plena atividade. O navio do Capitão Matias, um galeão robusto com velas negras, estava atracado no cais principal, rodeado por homens armados que pareciam vigilantes. Caixas de madeira eram carregadas apressadamente para dentro do navio, sob o olhar atento de Baltasar, que supervisionava tudo com seu habitual ar ameaçador.
O Padre Inácio, com a ajuda de seus contatos, havia espalhado os rumores que haviam planejado. A agitação no porto era palpável. Marinheiros conversavam em voz baixa, apontando para o horizonte, temendo a chegada de piratas. Alguns oficiais da Marinha, confusos com os boatos de uma inspeção surpresa, pareciam indecisos sobre quem obedecer.
Isabella e o Doutor Almeida, disfarçados de comerciantes, observavam a cena de um esconderijo estratégico, perto de um armazém abandonado. Eles esperavam o momento certo para agir.
“A confusão está se espalhando,” Almeida sussurrou, com um fio de esperança em sua voz. “Os homens de Dom Sebastião parecem mais focados em manter a ordem do que em acelerar o embarque.”
“É a nossa chance,” Isabella respondeu, a adrenalina pulsando em suas veias. “Baltasar está distraído. Precisamos criar uma oportunidade para acessar as caixas que estão sendo carregadas.”
Enquanto falavam, um grupo de homens ligados ao Padre Inácio, disfarçados de estivadores, iniciou uma pequena briga em um dos cais adjacentes, atraindo a atenção de parte dos homens de Baltasar. Era a distração que eles precisavam.
“Agora!” Isabella gritou, saindo de seu esconderijo.
Ela e o Doutor Almeida correram em direção ao navio de Matias. Baltasar, percebendo a movimentação, rosnou de raiva.
“Parem essas mulheres!” ele ordenou, apontando para Isabella e Almeida.
Isabella, com agilidade surpreendente, conseguiu subir na rampa do navio. Seus olhos percorreram as caixas que estavam prestes a ser embarcadas. Elas eram pesadas e pareciam conter algo volumoso. Ela abriu uma delas com um estilete que trazia consigo.
Um grito de horror escapou de seus lábios. Dentro da caixa, não havia ouro, mas sim um grande número de espingardas e cartuchos de pólvora. A prova que eles precisavam.
“Doutor! São armas!” Isabella gritou, sua voz ecoando no caos crescente.
Almeida, que havia conseguido subir na rampa atrás dela, também viu. “Meu Deus! Ele realmente está se armando!”
Baltasar, enfurecido, começou a subir a rampa, seguido por alguns de seus homens. Mas o Padre Inácio, prevendo a reação, havia mobilizado outros de seus homens para criar uma nova distração, desta vez mais direta. Eles começaram a gritar que um oficial da Marinha estava a caminho para inspecionar o navio.
O pânico se instalou entre os homens de Dom Sebastião. A ideia de serem pegos em flagrante pela Marinha era aterradora. Baltasar hesitou por um momento, dividido entre capturar Isabella e fugir.
Foi nesse instante que um pequeno grupo de soldados leais à Coroa, alertados por Almeida e pelo Padre Inácio, apareceu no cais, liderados por um oficial de semblante severo.
“Parado aí!” o oficial gritou. “Em nome da Coroa, ninguém se move!”
Baltasar percebeu que estava encurralado. A maré da traição estava se voltando contra ele. Com um olhar de puro ódio para Isabella, ele se virou e pulou da rampa do navio, desaparecendo na multidão agitada do porto.
Os soldados cercaram o navio, e as caixas de armas foram confiscadas. Isabella, com as mãos tremendo, mas com um sentimento de alívio avassalador, entregou o estilete para o oficial.
“Esta é a prova, senhor,” ela disse, sua voz firme. “Dom Sebastião está armando um levante contra a Coroa. Estas armas seriam usadas para derramar sangue inocente.”
O oficial examinou as armas e os cartuchos com um olhar sombrio. “A Coroa será informada. O Visconde de Alvares será levado à justiça.”
Enquanto o sol nascia completamente, banhando o porto com sua luz dourada, Isabella sentiu o peso da missão que havia cumprido. A trama de Dom Sebastião havia sido desmantelada, pelo menos em parte. O carregamento de armas fora interceptado, e a traição do Visconde exposta.
Mas ela sabia que a batalha estava longe de terminar. Dom Sebastião era um homem poderoso e astuto. Ele não desistiria facilmente. A maré da traição havia recuado, mas a tempestade ainda se formava no horizonte. E Isabella, a espiã do Rei, estaria lá para enfrentá-la, pronta para defender a honra e a lealdade, mesmo que isso significasse mergulhar nas profundezas mais sombrias da intriga e do perigo. A luta pela Bahia, e pela lealdade à Coroa, havia apenas começado.