A Espiã do Rei III

Aqui estão os capítulos 22 a 25 de "A Espiã do Rei III", escritos no estilo solicitado:

por Vitor Monteiro

Aqui estão os capítulos 22 a 25 de "A Espiã do Rei III", escritos no estilo solicitado:

Capítulo 22 — A Sombra da Inquisição na Vila de São Sebastião

O sol da manhã, teimoso em seu brilho, mal conseguia dissipar a névoa densa que se agarrava aos telhados de barro da Vila de São Sebastião. Era uma névoa diferente daquela que trazia o orvalho fresco do mar; esta parecia carregada de um peso opressor, um prenúncio sombrio que se instalara nas almas dos habitantes nos últimos dias. Desde a chegada do novo juiz-corregedor, Dom Jerônimo de Alburquerque, a vila parecia ter mudado de cor, de um tom vibrante de prosperidade e alegria para um cinza sombrio de apreensão e desconfiança.

Isabela, disfarçada como sempre em sua modesta vestimenta de costureira, sentia essa mudança como se fosse um arrepio na espinha. Observava as pessoas nas ruas com um olhar atento, procurando disfarçar a inquietação que a consumia. A cada dia que passava, as denúncias se avolumavam, sussurradas em vielas escuras, cochichadas em missas apressadas, semeando o medo como erva daninha. Os nomes começavam a circular, carregados de acusações de heresia, de pactos profanos, de desvios da fé que a Igreja tanto zelosamente guardava. E, no centro de tudo, pairava a figura imponente e severa de Dom Jerônimo, com seus olhos frios como aço e um sorriso que nunca alcançava as profundezas de sua alma.

Naquela manhã, ela se dirigia à casa de Dona Clara, uma das mais influentes e, ironicamente, uma das primeiras a ser alvo dos rumores. A portuguesa, viúva de um rico comerciante de especiarias, era conhecida por sua inteligência aguçada, sua educação fora do comum para os padrões da vila e, talvez o mais perigoso, por suas opiniões francas e sem rodeios.

"Dona Clara", chamou Isabela, batendo suavemente na porta pesada de jacarandá.

A porta se abriu e Dona Clara surgiu, o rosto marcado por uma preocupação que ela tentava disfarçar com um sorriso forçado. Seus cabelos negros, outrora adornados com fitas coloridas, agora estavam presos em um coque rígido, quase severo.

"Minha querida Isabela. Entre, por favor. Que bom que veio. Senti sua falta."

O interior da casa era tão opulento quanto o exterior sugeria, mas agora parecia sufocado pela atmosfera pesada. Os retratos ancestrais nas paredes pareciam observar com olhos julgadores, e o aroma de incenso, outrora acolhedor, agora pairava no ar como uma nuvem de incerteza.

"Dona Clara, como tem passado?", perguntou Isabela, sentando-se em uma poltrona de veludo escarlate.

Dona Clara serviu um vinho doce em taças finas. Seus dedos tremiam ligeiramente. "Como tem passado? Tenho sobrevivido, Isabela. E você, minha filha? Tenho ouvido tantos boatos...", ela hesitou, olhando em volta como se as paredes tivessem ouvidos.

"Boatos vêm e vão, Dona Clara. O importante é mantermos a cabeça erguida e a fé firme." Isabela escolheu as palavras com cuidado, testando as águas.

"Fé firme… Sim. Mas o que eles entendem por fé, Isabela? O que esse homem, Dom Jerônimo, entende? Vejo a vila se voltar contra si mesma. Vizinho delatando vizinho. É o fim dos tempos, minha cara. Ou algo muito pior." A voz de Dona Clara embargou. "Ontem, ouvi dizer que o filho de Dona Eustácia, aquele jovem estudioso que se correspondia com professores em Coimbra, foi levado. Disseram que encontraram livros… livros com ideias perigosas."

Isabela sentiu um aperto no peito. Ela sabia que os "livros perigosos" eram apenas a desculpa. A verdadeira razão era outra, muito mais ligada aos interesses do próprio Dom Jerônimo e aos seus planos de consolidação de poder. "É uma pena, Dona Clara. Uma grande perda para a vila. O conhecimento deve ser cultivado, não reprimido."

"Exatamente! Mas para eles, o conhecimento que não seja o da Igreja é a heresia em estado puro. E este homem… este Dom Jerônimo… ele tem os olhos de um lobo. E a fome de um lobo. Seus olhos pousaram em mim, Isabela. Sinto isso. Minhas cartas, meus amigos em Portugal… tudo pode ser interpretado de forma maliciosa." Uma lágrima rolou pela face de Dona Clara. "Eles dizem que eu sou… que eu não tenho um bom temperamento com a Igreja. Que eu questiono as autoridades."

"E você questiona, Dona Clara", disse Isabela, suavemente. "Você questiona com inteligência e com razão. Não há mal nenhum nisso. As pessoas o temem porque o veem como diferente, e o diferente, nestes tempos, é visto como ameaça."

"Mas eles estão aterrorizados com a Inquisição. Já vi o que ela faz. Na minha terra, o medo era constante. Agora, parece que ela nos seguiu até aqui, para este recanto esquecido do mundo." Dona Clara tomou um gole de vinho, o gesto mais para se firmar do que para saborear a bebida. "O que posso fazer, Isabela? Eu não sou mais uma jovem. Minha saúde não é mais a mesma. Tenho medo de ser levada para aquelas masmorras úmidas, de ser interrogada por aqueles homens sem alma."

Isabela se aproximou e segurou a mão de Dona Clara. A pele da portuguesa era fria. "Você fará o que sempre fez, Dona Clara. Manterá sua dignidade. E se for preciso, eu a ajudarei. Ninguém aqui está sozinho, mesmo que pareça. Há pessoas que se importam com a verdade e com a justiça."

"E você, minha querida? Você se arrisca tanto, como costureira, ouvindo conversas alheias. O que tem ouvido sobre Dom Jerônimo?"

Isabela suspirou. A verdade era um fio perigoso de se puxar, mas Dona Clara precisava saber. "Tenho ouvido que ele não veio apenas para julgar. Ele busca algo. Um tesouro, dizem alguns. Outros falam de documentos que incriminariam figuras importantes na corte do Rei. E há quem diga que ele busca… uma pessoa."

"Uma pessoa? Que pessoa?", a curiosidade de Dona Clara superou o medo por um instante.

"Não se sabe ao certo. Mas as descrições que chegam a mim… são de alguém com habilidades incomuns. Alguém que se move nas sombras, que fala muitas línguas, que tem acesso a informações privilegiadas." Isabela olhou diretamente nos olhos de Dona Clara. "Alguém que, como nós, luta por algo maior."

O silêncio pairou entre elas, pesado com a implicação. Dona Clara apertou a mão de Isabela com força. "Você é essa pessoa, não é, minha querida?"

Isabela sorriu, um sorriso melancólico. "Eu sou apenas uma costureira, Dona Clara. Mas estou aqui para ajudar quem precisa."

"E se ele descobrir?", sussurrou Dona Clara.

"Ele não vai descobrir. E se tentar, encontrará resistência. Não da Inquisição, mas da verdade. E a verdade, Dona Clara, como o sol, sempre encontra uma fresta para brilhar."

Naquele momento, o som de cascos de cavalos ecoou na rua. Um grupo de homens armados, liderados por um homem de semblante sombrio, parou em frente à casa. A bandeira da Coroa, outrora um símbolo de proteção, agora parecia uma ameaça. Dona Clara empalideceu.

"São eles", sussurrou. "Eles vieram por mim."

Isabela se levantou, o coração disparado, mas a mente clara. "Não, Dona Clara. Eles não vieram por você. Não ainda. Fique calma. Diga que não está se sentindo bem e que não pode recebê-los."

A porta foi batida com força, um som violento que fez os cristais chacoalharem nas prateleiras.

"Dona Clara de Albuquerque! Abra em nome de Sua Majestade, o Rei!", gritou uma voz rouca.

Isabela segurou o braço de Dona Clara, transmitindo uma calma que ela mesma lutava para sentir. "Respire fundo. Eu estou aqui."

A porta se abriu com um estrondo. O homem à frente, um oficial de Dom Jerônimo, olhou para dentro com desconfiança. "Estamos aqui para cumprir uma ordem de busca e apreensão em nome do Juiz-Corregedor. Vossa Senhoria está sendo acusada de abrigar bens de hereges."

O olhar de Dona Clara era uma mistura de medo e orgulho. Ela se endireitou, o corpo tremendo, mas a voz firme. "Não abrigo hereges nem seus bens. Apenas livros que foram permitidos por vossa Igreja em tempos melhores. E se acham que vão me intimidar com essas ameaças vazias, estão muito enganados."

Isabela observava tudo, cada detalhe, cada expressão. Ela sabia que aquilo era apenas o começo. Dom Jerônimo estava testando as águas, pressionando os mais fortes para quebrar os mais fracos. Mas Dona Clara não era fraca. E Isabela, sob o disfarce de uma simples costureira, era a força silenciosa que lutava por um futuro onde a fé não fosse sinônimo de medo, e o conhecimento, de perseguição. A vila de São Sebastião, antes um porto seguro, tornara-se um campo de batalha, e a luta pela alma de seus habitantes estava apenas começando. O sol, teimoso em seu brilho, agora parecia mais uma luz que expunha as sombras, e Isabela sabia que precisava ser a luz que guiaria aqueles que se perdiam na escuridão da Inquisição.

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