A Espiã do Rei III

Capítulo 23 — O Encontro na Casa das Esculturas

por Vitor Monteiro

Capítulo 23 — O Encontro na Casa das Esculturas

A noite caiu sobre a Vila de São Sebastião com uma lentidão exasperante. As estrelas, tímidas em meio à umidade do ar, cintilavam com um brilho fraco, como se também sentissem o peso da opressão que pairava sobre a vila. Isabela, sob o véu escuro de sua noite, sentia a tensão pulsar em suas veias. A visita dos homens de Dom Jerônimo à casa de Dona Clara fora um aviso claro: a Inquisição estava se aproximando de todos, e o juiz-corregedor não descansaria até que seus objetivos fossem alcançados.

Seu encontro com o Barão de Alagoas estava marcado para aquela noite. Ele, com sua influência nos bastidores e sua rede de informantes, era uma peça crucial no quebra-cabeça de Isabela. Ele sabia dos planos de Dom Jerônimo, e mais importante, entendia as motivações por trás da crueldade do juiz-corregedor. Eles se encontrariam em um local inusitado e seguro: a Casa das Esculturas, uma antiga residência de um artista falecido, cujas obras, em sua maioria religiosas e com temas profanos disfarçados, eram mantidas em relativo abandono, servindo como um refúgio para aqueles que buscavam a discrição.

Isabela trocou suas roupas de costureira por um vestido de seda escura, elegante, mas discreto, que a permitia se mover com agilidade. Um leve véu cobria seus cabelos, e uma pequena adaga estava escondida em sua cintura. Ao chegar à entrada da vila, onde a floresta começava a se impor sobre a areia, ela encontrou a figura imponente do Barão, envolta em um manto escuro, observando a lua crescente.

"Barão", disse Isabela, sua voz baixa e firme.

Ele se virou, seus olhos escuros avaliando-a. Havia um cansaço em seu olhar, mas também uma determinação inabalável. "Isabela. Pontual como sempre. O anjo da guarda desta vila, disfarçada de sombra."

"A sombra é quem protege quando a luz se torna cega, Barão."

"E esta luz, minha cara, parece ter decidido cegar a todos. Dom Jerônimo está se tornando ousado demais. A vila está em polvorosa. As denúncias se acumulam como folhas secas no outono."

Eles caminharam em direção à Casa das Esculturas, o som de seus passos quase inaudível sobre a terra úmida. A casa, uma construção antiga e imponente, estava iluminada apenas por algumas lanternas que o Barão havia mandado acender. O interior era um labirinto de estátuas de mármore e pedra, representações de santos, anjos e figuras mitológicas, algumas cobertas por panos, outras expostas à umidade do tempo.

"O que você sabe sobre os planos de Dom Jerônimo?", perguntou Isabela, enquanto seus olhos percorriam as figuras sombrias e silenciosas.

O Barão suspirou, parando diante de uma escultura de São Jorge matando o dragão. "Ele está buscando algo. Algo que o Rei deseja ardentemente. Documentos que provariam a linhagem e a legitimidade de uma antiga ordem de cavaleiros que ele alega ter origens na própria fundação desta terra. Se ele encontrar esses documentos, o poder dele será… imensurável. Ele poderá reescrever a história a seu bel-prazer."

"E a Inquisição?", questionou Isabela, a preocupação evidente em sua voz. "Ele está usando a Inquisição como fachada para seus planos?"

"Exatamente. Ele sabe que a Igreja é o medo que move as massas. Ele usa o medo da heresia para silenciar qualquer um que possa questionar seus métodos. Dona Clara foi um teste. Ela é forte, mas ele quer quebrá-la para mostrar a todos o que acontece com quem o desafia."

"E os outros?", Isabela pensou nos desdobramentos, nas vidas que estavam sendo destruídas. "Os jovens estudantes, os intelectuais… Eles não são ameaças, são o futuro."

"O futuro é o que ele teme, Isabela. Ele prefere um passado que lhe dê poder. E ele tem um aliado inesperado, ou talvez não tão inesperado assim. O novo prior do convento, Frei Bartolomeu. Ele é um homem ambicioso, e Dom Jerônimo lhe prometeu um lugar de destaque na Igreja se ele cooperar."

Isabela sentiu um arrepio. Frei Bartolomeu, o homem que ela conhecera com uma aura de santidade, agora parecia um traidor. "E o que podemos fazer? Se ele tem o apoio do prior e a força da Inquisição ao seu lado, somos poucos."

"Não somos poucos, Isabela. Somos poucos que agem nas sombras, mas há muitos que sofrem em silêncio. Há comerciantes descontentes, famílias que perderam seus entes queridos, pessoas que se sentem oprimidas. Precisamos unir essas vozes. E você, minha cara, é a voz que pode uni-las. Seu trabalho como costureira lhe dá acesso a todos. Você ouve as reclamações, as angústias, as revoltas silenciosas."

"Eu ouço. Mas como transformar essas queixas em ação? Dom Jerônimo tem a força bruta, tem a lei ao seu lado, tem a fé como arma."

"Nós temos a verdade. E a verdade, como estas esculturas, pode parecer dormente, mas tem uma força própria. Você precisa continuar coletando informações. Precisamos saber onde ele busca esses documentos. Há rumores de que ele está vasculhando antigas igrejas e mosteiros em busca de relíquias e textos perdidos. E o lugar mais antigo e esquecido desta região é o Engenho Velho, com sua capela abandonada."

Isabela assentiu. O Engenho Velho, um lugar remoto e esquecido, cheio de mistérios e lendas. Era um lugar perfeito para esconder algo de valor. "Eu irei. Precisarei de um guia. E de recursos."

"Eu providenciarei. E você não irá sozinha. Enviarei com você um de meus homens de confiança. Um homem discreto e leal. Ele não fala muito, mas age com precisão. Seu nome é Matias."

"Matias. Entendido." Isabela olhou para uma escultura que representava a queda de Adão e Eva. A tentação, o pecado, a queda… Tudo parecia se encaixar na narrativa que Dom Jerônimo estava construindo. "Barão, há outra coisa que me preocupa. O Rei. Por que ele confia tanto em Dom Jerônimo para uma missão tão delicada? Ele sabe dos métodos do juiz-corregedor."

"O Rei é um homem pragmático, Isabela. Ele quer o que Dom Jerônimo promete: poder, legitimidade, controle. E ele acredita que a Inquisição, por mais brutal que seja, é o preço a pagar por isso. Ele não se importa com as vidas perdidas, desde que o império se fortaleça." O Barão parou, seus olhos fixos em um busto de mármore de um anjo com um olhar severo. "E Dom Jerônimo não é apenas um juiz. Ele é um homem que busca vingança. Há muito tempo, ele perdeu tudo para uma família que ele considerava inimiga. E essa família… ela tem laços antigos com esta terra."

Um nome veio à mente de Isabela, um nome que ela tentava esquecer, mas que sempre ressurgia como um fantasma: a família do Duque de Castelo Branco, o homem que ela acreditava ter sido manipulado para trair seu pai. "Você acha que Dom Jerônimo…?"

"Ele busca vingança contra aqueles que ele acredita que o prejudicaram. E se esses documentos provarem a linhagem que ele alega, ele terá o poder de destruir qualquer um que se oponha a ele, mesmo que seja o próprio Duque."

Isabela sentiu um frio na espinha. A vingança de Dom Jerônimo poderia se estender para além de seus objetivos políticos. Poderia ser pessoal. E se o Duque de Castelo Branco estivesse envolvido, as coisas ficariam ainda mais perigosas. Ela precisava agir rápido.

"Eu partirei amanhã. Preciso me preparar. E preciso informar a Dona Clara que ela não está sozinha."

"Faça isso. E seja cautelosa, Isabela. Dom Jerônimo é um homem astuto. Ele vê o que não se quer mostrar. E ele tem olhos em todos os cantos."

Enquanto Isabela se despedia do Barão e se dirigia de volta para a vila, as estátuas da Casa das Esculturas pareciam observá-la, figuras silenciosas de um drama que se desenrolava nas sombras. Ela era a espiã, a mensageira, a esperança de muitos. E agora, com a ameaça iminente do Engenho Velho e a vingança pessoal de Dom Jerônimo, a luta pela alma da Vila de São Sebastião se tornava mais intensa e perigosa do que nunca. A escuridão da noite escondia os perigos, mas também as alianças secretas, e Isabela sabia que precisava ser a luz que guiaria a verdade através das sombras.

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