A Espiã do Rei III
Capítulo 25 — A Fuga pelas Ruínas e a Sombra do Doutor Elias
por Vitor Monteiro
Capítulo 25 — A Fuga pelas Ruínas e a Sombra do Doutor Elias
O labirinto de túneis subterrâneos sob o Engenho Velho era úmido, escuro e exalava um cheiro pungente de terra e de tempo esquecido. Isabela rastejava, o fogo crepitando acima dela, um lembrete constante do perigo que a perseguia. O plano de Matias de distrair os homens de Dom Jerônimo com um incêndio na capela havia sido ousado, mas eficaz. Agora, ela precisava encontrar uma saída, e Matias, com os preciosos pergaminhos, já estaria a caminho do Barão.
A passagem era estreita, e em alguns pontos, ela precisava se arrastar de barriga, o corpo dolorido e a roupa rasgada. A lanterna a óleo que Matias havia lhe deixado tremulava, lançando sombras dançantes que pareciam dançar com os fantasmas do passado. Ela ouvia o eco distante de seus próprios batimentos cardíacos, um ritmo frenético que se misturava ao som abafado do fogo consumindo a capela.
"Onde você está, Elias?", sussurrou Isabela para si mesma, o nome do seu contato, o médico e informante que trabalhava nos bastidores da Inquisição, ecoando em sua mente. Ela esperava encontrá-lo em um ponto de encontro secreto nas proximidades do Engenho, um antigo poço desativado que ele usava para suas comunicações.
Após o que pareceram horas de rastejar por aqueles túneis esquecidos, Isabela avistou uma luz fraca no final de um túnel. Era o poço. Ela se arrastou com renovado vigor, o corpo dolorido, mas a mente focada. Ao emergir na luz fraca da madrugada, avistou a figura familiar do Doutor Elias, um homem de meia-idade, com um olhar astuto e uma postura discreta, vestindo as roupas simples de um boticário.
"Elias", chamou Isabela, sua voz rouca e cansada.
Ele se virou, um lampejo de surpresa em seus olhos, que logo se transformou em preocupação. "Isabela! Por todos os santos, o que aconteceu com você? Os homens de Dom Jerônimo… eles estão em todo lugar!"
"Eu… eu precisei fugir. O Engenho Velho. Encontramos os documentos."
O rosto de Elias escureceu. "Os documentos? Dom Jerônimo saberá que eles escaparam. Isso o tornará ainda mais perigoso."
"Matias já está a caminho do Barão com eles. Agora preciso sair daqui. Eles sabem que estou aqui."
"Dom Jerônimo não é um homem de brincadeiras, Isabela. Ele tem os seus homens infiltrados em todos os lugares. Ele me enviou uma mensagem hoje cedo. Ele suspeita de alguém que o está observando de perto. Alguém que tem acesso a informações que não deveria ter. Ele não disse seu nome, mas seu tom era ameaçador." Elias olhou para Isabela, a preocupação em seus olhos se intensificando. "Ele está cada vez mais perto de descobrir sua identidade, Isabela. Você precisa sair da vila. Precisamos tirá-la daqui imediatamente."
"Não posso sair agora, Elias. Há muito em jogo. Dona Clara… os outros. Se eu for embora, quem os defenderá?"
"Você não pode defender ninguém se for pega. A Inquisição não é para brincadeiras. Se Dom Jerônimo a encontrar, será o fim. Você é a nossa melhor arma, Isabela. E uma arma não pode se destruir em um ataque imprudente." Elias pegou a mão dela, a pele fria. "Eu tenho um contato em um navio mercante que zarpa amanhã cedo. Ele pode levá-la para longe, para um lugar seguro, até que possamos lidar com Dom Jerônimo."
Isabela hesitou. A ideia de deixar a vila, de deixar as pessoas que ela jurou proteger, era torturante. Mas Elias estava certo. Ela precisava ser inteligente.
"Onde é o ponto de encontro?", perguntou ela.
"Um pequeno cais abandonado, a algumas léguas da vila, na direção norte. Eu a levarei até lá. Mas precisamos ir agora. Antes que os homens de Dom Jerônimo cercem a área."
Enquanto Elias ajudava Isabela a se levantar, um som metálico e frio rompeu o silêncio da madrugada. Um grupo de homens armados, liderados por um homem de armadura reluzente, emergiu das sombras da mata. Era Dom Jerônimo, acompanhado por seus guardas de elite. O fogo no Engenho Velho ainda crepitava ao longe, um espetáculo sombrio que contrastava com a frieza implacável do juiz-corregedor.
"Onde pensa que vai, Doutor Elias?", a voz de Dom Jerônimo era cortante como uma navalha. Ele parecia impassível, apesar da fumaça e do caos que havia deixado para trás.
Elias se colocou na frente de Isabela, tentando protegê-la. "Apenas cumprindo meus deveres de curandeiro, Dom Jerônimo. A senhora… ela sofreu um pequeno acidente."
Dom Jerônimo riu, um som seco e desprovido de humor. Seus olhos, frios e penetrantes, fixaram-se em Isabela. "Um acidente, você diz? Ou uma fuga precipitada? Eu sabia que você não era apenas um boticário, Elias. E eu sei quem é essa mulher. A espiã do Rei. A pequena costureira que se acha mais esperta do que todos nós."
Isabela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele sabia. Ele a havia descoberto. O véu de disfarce que ela usara com tanto cuidado havia se desfeito.
"Você se engana, Dom Jerônimo", disse Isabela, erguendo a cabeça com dignidade, apesar do medo que a consumia. "Eu sou apenas uma mulher que busca a justiça."
"Justiça?", Dom Jerônimo deu um passo à frente, a armadura reluzindo à luz fraca. "A justiça é o que eu decreto. E a sua justiça, minha cara, será um julgamento rápido e uma morte lenta."
Ele fez um gesto com a mão, e seus homens avançaram. Elias tentou resistir, mas foi rapidamente subjugado. Isabela sabia que não tinha para onde correr. Estava encurralada.
No entanto, em um momento de desespero, ela lembrou-se de algo que Elias lhe havia contado sobre os túneis que levavam para fora da vila, passagens secretas usadas por contrabandistas e rebeldes.
"Elias, os túneis!", gritou Isabela, sua voz ecoando na mata.
Elias, mesmo imobilizado, entendeu. Ele olhou para Isabela com uma expressão de urgência. Dom Jerônimo, confuso com a menção aos túneis, hesitou por um instante.
Foi o tempo que Isabela precisava. Ela se jogou contra um dos homens de Dom Jerônimo, desestabilizando-o e criando uma pequena abertura. Em seguida, correu em direção a uma densa moita de arbustos que ela sabia que escondia a entrada de um dos túneis.
Os homens de Dom Jerônimo tentaram impedi-la, mas a vantagem de Isabela, conhecendo o terreno, era imensa. Ela se embrenhou nos arbustos, encontrando a entrada estreita e escura do túnel. O som dos seus perseguidores se aproximando era ensurdecedor.
Ela desapareceu na escuridão, deixando para trás Elias, que seria levado preso, e a promessa de um futuro incerto. O Engenho Velho, a sede da verdade, agora se tornara o palco de sua fuga desesperada. A sombra de Dom Jerônimo pairava sobre a vila, e a Inquisição, sob seu comando, parecia implacável. Mas Isabela não era de desistir. Ela era a espiã do Rei, e sua luta pela justiça estava longe de terminar. Ela havia escapado, mas sabia que essa era apenas uma batalha em uma guerra muito maior. A verdade estava em movimento, e a cada passo que ela dava em direção ao desconhecido, a esperança de um futuro livre da opressão se fortalecia. A noite era escura, mas a determinação de Isabela brilhava mais forte que qualquer estrela.