A Espiã do Rei III
Capítulo 7 — O Canto da Sereia no Porto de Salvador
por Vitor Monteiro
Capítulo 7 — O Canto da Sereia no Porto de Salvador
O porto de Salvador, um caldeirão fervilhante de vida, exalava o cheiro pungente de sal, peixe e especiarias, um aroma inebriante que se misturava à umidade pesada do fim de tarde. Velhos marinheiros com rostos curtidos pelo sol e pelo sal contavam histórias de terras distantes em dialetos que misturavam português, africano e línguas que Isabella não conseguia identificar. Carregadores suados arrastavam sacos pesados de cacau e algodão, enquanto comerciantes com vestes finas discutiam negócios em voz baixa, seus olhos sempre atentos ao movimento. Era ali, em meio àquele turbilhão de gente e mercadorias, que Isabella esperava encontrar as pistas que a levariam ao coração da trama de Dom Sebastião.
Vestida com um traje discreto, que a fazia parecer uma jovem de boa família interessada nos movimentos da cidade, Isabella caminhava a passos lentos pela beira do cais. Seus olhos, treinados para observar detalhes que a maioria ignorava, varriam a multidão, buscando rostos familiares ou comportamentos suspeitos. A informação que o Padre Inácio lhe havia transmitido na noite anterior ainda ecoava em sua mente: Dom Sebastião utilizava o porto como um ponto de encontro, um local onde ele trocava informações e recrutava homens para seus planos secretos, disfarçados sob o manto de negócios legítimos.
Ela sabia que o Visconde de Alvares era um homem de aparências, um mestre em dissimular suas verdadeiras intenções. Ele frequentava os salões mais nobres da cidade, participava de festas e recebia autoridades com a pompa que se esperava de um nobre influente. Mas, nos bastidores, seus tentáculos se estendiam para os recantos mais obscuros de Salvador, onde a ambição e o descontentamento floresciam.
“Boa tarde, senhora,” um vendedor de frutas com um sorriso largo e dentes brancos como pérolas disse, oferecendo-lhe um cacho de uvas suculentas.
Isabella sorriu de volta, pegando algumas uvas. “Que belas frutas, meu bom homem. O comércio está bom hoje?”
“Graças a Deus, sim,” ele respondeu, seus olhos percorrendo o movimento dos navios. “Um dia bom para os negócios, com navios chegando e partindo. A vida segue, como sempre.”
Enquanto saboreava as uvas, Isabella notou um grupo de homens reunidos perto de um barracão de madeira, um pouco mais afastado do burburinho principal. Eles conversavam em voz baixa, seus gestos efusivos e suas expressões carregadas de uma intensidade que chamou sua atenção. Um deles, um homem corpulento com uma barba negra e um lenço vermelho amarrado no pescoço, parecia liderar a conversa, gesticulando com energia. Havia algo nele que lhe parecia familiar, um resquício de uma imagem que ela havia visto em um retrato na mansão do Visconde.
Ela discretamente se aproximou, fingindo observar os navios ancorados. O vento trazia fragmentos de suas conversas, palavras soltas que se encaixavam como peças de um quebra-cabeça.
“…o ouro nos sertões é vasto, mais do que jamais imaginamos…”
“…Dom Sebastião garante que teremos apoio, que a Coroa não poderá nos deter desta vez…”
“…os navios que chegam com suprimentos logo estarão carregados com a nossa riqueza…”
O coração de Isabella deu um salto. A menção ao ouro, aos sertões, ao apoio de Dom Sebastião e ao desvio de riquezas confirmava suas suspeitas. Aqueles homens eram parte da rede do Visconde, os que garantiam a logística e a segurança de seus planos. O homem de barba negra, em particular, parecia ser um capataz, alguém que gerenciava a mão de obra e o transporte.
Ela precisava de mais. Precisava de um nome, de um contato direto com a operação. Foi então que ela avistou um rosto que lhe gelou o sangue. Era Baltasar, um dos homens de confiança do Visconde, um mercenário conhecido por sua crueldade e lealdade cega a Dom Sebastião. Ele estava ali, perto do grupo, observando-os com um ar de autoridade.
Isabella se afastou rapidamente, o suor começando a se formar em sua testa, apesar da brisa suave. A presença de Baltasar significava que Alvares estava diretamente envolvido naquela operação no porto. Ela precisava informar o Doutor Almeida e o Padre Inácio, mas também precisava se manter próxima, tentar obter mais informações sem ser detectada.
Decidiu se dirigir à taverna mais próxima, um local rústico e barulhento chamado “O Gavião Negro”, que ficava a poucos passos do cais. Era um lugar frequentado por marinheiros, trabalhadores e outros indivíduos que não se importavam com a discrição. Perfeito para se misturar e observar.
Ao entrar, o cheiro forte de cachaça e suor a atingiu. As mesas de madeira estavam repletas de homens que bebiam, riam e jogavam cartas. Isabella encontrou um canto isolado, pediu uma taça de vinho e sentou-se, os olhos fixos na porta, monitorando quem entrava e saía.
Pouco tempo depois, Baltasar entrou na taverna, acompanhado por dois homens musculosos. Eles foram diretamente para uma mesa no centro do salão, onde já havia um homem sentado, com um chapéu de abas largas cobrindo parcialmente o rosto. A conversa deles era abafada pelo barulho geral, mas Isabella conseguiu captar fragmentos.
“…o carregamento está pronto para partir com o navio da manhã…”
“…Dom Sebastião ordenou que fosse rápido e discreto. Nenhuma pergunta, nenhuma testemunha…”
“…o ouro será entregue ao capitão português, que o levará para um porto seguro fora da colônia, onde será trocado por armas e suprimentos…”
Armas e suprimentos. A peça final do quebra-cabeça. Dom Sebastião não estava apenas planejando um levante, ele estava ativamente se armando para ele, usando o ouro extraído ilegalmente para financiar a compra de armas que seriam usadas contra a própria Coroa. A audácia e a audácia eram assustadoras.
Isabella sabia que não poderia confrontar Baltasar ali, naquele ambiente hostil e com a presença de seus capangas. Ela precisava sair e relatar tudo o que havia ouvido. Levantou-se discretamente, deixou o dinheiro na mesa e saiu da taverna, o coração acelerado.
No caminho de volta para casa, ela decidiu que a melhor maneira de garantir a segurança de sua informação seria entregá-la pessoalmente ao Doutor Almeida. Ele era um homem de confiança, e sua posição como jurista lhe daria um certo grau de proteção e credibilidade.
Chegou ao seu casarão e, após garantir que ninguém a seguia, pediu a Ana para preparar uma carruagem. A jovem, sempre atenta e prestativa, percebeu a urgência em seus olhos.
“Algo a preocupa, senhora?” Ana perguntou, enquanto ajustava o véu de Isabella.
“Apenas a necessidade de ser rápida, Ana. O tempo é essencial.”
A carruagem a levou pelas ruas escuras de Salvador, o tilintar das rodas na pedra ecoando na noite silenciosa. Quando chegou à casa do Doutor Almeida, um sobrado elegante no bairro nobre, tocou a campainha com urgência. A porta se abriu e o jurista apareceu, o semblante surpreso ao vê-la em sua porta a essa hora.
“Isabella! O que a traz aqui com esta hora?”
“Doutor, preciso falar com o senhor imediatamente. É de suma importância.”
Almeida a convidou para entrar, o semblante preocupado. Isabella, sem perder tempo, contou tudo o que havia presenciado e ouvido no porto, desde os homens conversando perto do barracão até a conversa de Baltasar na taverna.
“Eles estão desviando ouro extraído ilegalmente dos sertões,” ela explicou, a voz tensa. “E estão usando esse ouro para comprar armas e suprimentos. Dom Sebastião está se armando para um levante, Doutor. E ele planeja exportar essa riqueza através do porto, com a ajuda de um capitão português.”
Almeida ouvia atentamente, o rosto cada vez mais pálido. Quando Isabella terminou, ele suspirou, passando as mãos pelos cabelos.
“Isso é pior do que eu temia. A Coroa precisa ser alertada. Precisamos impedir que esse navio parta com o ouro e as armas. Mas como podemos provar isso? Baltasar é um fantasma, e seus homens são leais à força. Dom Sebastião é esperto demais para ser pego em flagrante.”
“Mas nós temos a informação, Doutor,” Isabella insistiu. “O Padre Inácio pode nos ajudar a rastrear o capitão português. Ele tem contatos em todos os cantos do porto. E eu posso tentar obter mais detalhes sobre a localização da mina.”
“O padre é um aliado valioso, mas também imprevisível,” Almeida ponderou. “Se descobrirmos a mina, podemos ter a prova concreta. Mas arriscar a exposição é perigoso para todos nós.”
“O perigo é maior se não fizermos nada,” Isabella rebateu, seus olhos brilhando com determinação. “Se Dom Sebastião conseguir as armas, a revolta será inevitável. E será uma revolta sangrenta, que colocará esta colônia em chamas.”
Almeida concordou com a cabeça, a gravidade da situação pesando sobre seus ombros. “Precisamos de um plano. Um plano que nos permita interceptar esse navio sem que Dom Sebastião perceba quem está por trás disso. Precisamos de discrição e de uma ação rápida.”
Eles passaram o resto da noite traçando os primeiros passos de um plano audacioso. Isabella se comprometeu a tentar se infiltrar mais perto da operação no porto, buscando o nome do capitão português e, se possível, a localização exata da mina. O Doutor Almeida se dedicaria a preparar a documentação necessária para apresentar a algum oficial leal à Coroa, caso tivessem provas concretas. E ambos concordaram em manter o Padre Inácio informado, confiando em sua habilidade de navegar pelas águas turvas da informação.
Ao amanhecer, Isabella retornou para casa, o cansaço pesando em seus membros, mas a mente alerta e focada. O canto da sereia do porto, a promessa de riqueza e poder que Dom Sebastião sussurrava aos seus seguidores, era um canto mortal. E ela, a espiã do Rei, estava determinada a não deixar que ele arrastasse essa colônia para o abismo.