A Espiã do Rei III

Capítulo 8 — O Labirinto de Vultos na Vila da Cruz

por Vitor Monteiro

Capítulo 8 — O Labirinto de Vultos na Vila da Cruz

A Vila da Cruz, um emaranhado de vielas estreitas e casarões coloniais com fachadas descascadas e janelas que pareciam olhos vazios, era o coração pulsante da parte antiga de Salvador. O sol da manhã penetrava com dificuldade entre os prédios altos, criando um jogo de luz e sombra que tornava o lugar misterioso e, para alguns, assustador. Era ali que o Padre Inácio mantinha seus ouvidos mais atentos, onde as informações fluíam como água em um rio subterrâneo, acessíveis apenas àqueles que sabiam onde procurar. E Isabella, movida pela urgência de sua missão, estava determinada a mergulhar nesse labirinto de vultos e sussurros.

Ela havia combinado um encontro com o Padre Inácio em uma pequena igreja barroca, escondida em uma praça sombreada por mangueiras antigas. A igreja, dedicada a Nossa Senhora da Penha, era um refúgio de paz em meio ao caos da cidade, mas Isabella sabia que, para o padre, era apenas mais um ponto de conexão em sua vasta rede de informações.

Ao chegar, encontrou o padre ajoelhado em um dos bancos, em oração silenciosa. Seus trajes eclesiásticos eram simples, mas seu porte emanava uma autoridade sutil. Isabella esperou pacientemente, o cheiro de incenso e cera de vela preenchendo o ar.

Quando o padre se levantou, virou-se para ela com um sorriso conhecedor. “Minha cara Isabella, a pressa em seus olhos me diz que o assunto é urgente.”

“É, Padre. Dom Sebastião está se armando. Ele está desviando ouro para comprar armas. Precisamos interceptar esse carregamento antes que ele parta.”

O padre assentiu lentamente, o olhar pensativo. “Eu já pus meus homens a trabalhar. Um navio com pavilhão português, comandado por um certo Capitão Matias, tem estado atracado nos fundos do porto, recebendo cargas incomuns durante a noite. Um navio que, segundo meus informantes, não tem permissão para carregar mercadorias desse tipo.”

“Capitão Matias,” Isabella repetiu, gravando o nome. “É ele quem transportará o ouro e as armas?”

“É o que tudo indica,” o padre respondeu. “Mas a mina… a localização exata da mina de onde vem esse ouro é um segredo bem guardado. Dom Sebastião é conhecido por sua paranoia quando se trata de seus tesouros.”

“Eu preciso descobrir onde fica essa mina, Padre. Se tivermos a prova da origem ilegal do ouro, poderemos não apenas deter o carregamento, mas também expor toda a operação de Dom Sebastião.”

O padre ponderou por um momento, seus olhos percorrendo os vitrais da igreja. “Há um homem, um ex-garimpeiro chamado Bartolomeu, que trabalhou para Dom Sebastião no passado. Ele foi demitido sem justa causa e carrega consigo um ressentimento profundo. Se alguém souber a localização da mina, é ele. Mas Bartolomeu não é fácil de encontrar. Ele se tornou um andarilho, um fantasma que vagabundeia pelas terras mais ermas da província.”

“Onde posso encontrá-lo?” Isabella perguntou, a determinação em sua voz.

“Ele costuma aparecer na Vila da Cruz, em busca de trabalho temporário ou apenas para esquecer seus problemas. Há um lugar, um bordel chamado ‘O Beijo da Sereia’, onde ele costuma se embriagar e contar suas histórias. Talvez lá você encontre uma pista.”

Isabella agradeceu ao padre e se dirigiu à Vila da Cruz. A atmosfera ali era densa, carregada de um cheiro de mofo, esgoto e álcool barato. As vielas eram escuras e sinuosas, e os olhares dos poucos transeuntes pareciam julgar e desconfiar. Ela se sentia como uma intrusa naquele ambiente, mas sabia que era o único caminho para desvendar a verdade.

Encontrou o “O Beijo da Sereia” em um beco sem saída, uma construção dilapidada com uma porta vermelha e uma placa desbotada. O som de música desafinada e risadas grosseiras escapava de dentro. Isabella respirou fundo, ajustou seu vestido e entrou.

O interior era escuro e abafado, iluminado por poucas velas e uma lamparina a óleo. O cheiro de cachaça e suor era quase insuportável. Mulheres de vestidos curtos e maquiagem pesada circulavam entre os homens, alguns sentados em mesas sujas, outros dançando de forma desajeitada.

Isabella se dirigiu ao balcão, pedindo um copo de vinho. Seus olhos varreram o local, buscando um homem que se encaixasse na descrição de Bartolomeu. Ela precisava agir com discrição, não chamar atenção para si.

“Procurando alguém, madame?” Uma voz rouca soou ao seu lado. Era a dona do bordel, uma mulher corpulenta com um olhar astuto e um sorriso que não inspirava confiança.

“Apenas apreciando a… atmosfera,” Isabella respondeu, tentando manter a calma. “Ouvi dizer que um homem chamado Bartolomeu costuma vir aqui. Um garimpeiro.”

A mulher riu, um som seco e desagradável. “Bartolomeu? Aquele bêbado? Ele anda sumido há alguns dias. Acho que foi para o sertão, atrás de ouro, como sempre. Dizem que ele tem um mapa, um mapa de uma mina secreta que ele ajudou a descobrir, mas que o Visconde de Alvares roubou dele.”

O mapa. Era isso. Bartolomeu possuía a informação que ela precisava. “Onde posso encontrá-lo, se ele for para o sertão?”

“Ninguém sabe ao certo,” a mulher respondeu, encolhendo os ombros. “Ele fala em um lugar chamado ‘O Ralo da Terra’, uma região remota onde a água desaparece no subsolo. Dizem que é lá que ele encontrou o ouro. Mas é um lugar perigoso, cheio de perigos.”

“O Ralo da Terra,” Isabella repetiu. Um nome sugestivo. Ela sentiu uma mistura de esperança e apreensão. Se Bartolomeu realmente possuía um mapa, ou se a informação que ele detinha era precisa, ela poderia finalmente encontrar a fonte da riqueza de Dom Sebastião.

Enquanto ela se preparava para sair, um homem sentado em uma mesa próxima, visivelmente embriagado, se aproximou cambaleando. Era um homem com cabelos desgrenhados, a barba por fazer e os olhos vermelhos de tanto beber. Ele parecia reconhecer Bartolomeu nas descrições de Isabella.

“Bartolomeu? Você procura Bartolomeu?” ele resmungou, a voz arrastada. “Ele esteve aqui ontem. Falou sobre a mina. A mina que o Visconde roubou dele. Ele disse que ia voltar lá, para pegar o que era dele.”

“Para onde ele foi?” Isabella perguntou, o coração batendo forte.

“Para o… Ralo da Terra,” o homem disse, antes de tropeçar e cair em sua cadeira. “O Ralo da Terra… lá é onde o ouro dorme…”

Isabella não precisou de mais. Ela deixou o dinheiro na mesa e saiu do bordel, a mente fervilhando. A informação era crucial. Bartolomeu, motivado pela vingança e pela ganância, estava a caminho do Ralo da Terra, o local da mina secreta. Se ela pudesse alcançá-lo antes que ele encontrasse Dom Sebastião, ou antes que fosse morto pelos capangas do Visconde, ela poderia obter o mapa ou as coordenadas exatas.

Ela sabia que a viagem para o sertão seria perigosa, mas não tinha outra opção. O tempo estava se esgotando. O navio do Capitão Matias estava pronto para partir, e Dom Sebastião estava cada vez mais perto de armar seu levante.

De volta ao seu casarão, Isabella reuniu Ana. “Preciso partir para o sertão. É uma viagem longa e perigosa. Prepare o necessário: suprimentos, água, um cavalo forte e uma arma. E mantenha esta casa segura enquanto eu estiver fora. Se algo acontecer, se o Doutor Almeida ou o Padre Inácio vierem, diga que fui buscar a mina.”

Ana, com seu olhar leal e preocupado, assentiu. “Eu cuidarei de tudo, senhora. Que Deus a proteja.”

Isabella vestiu roupas mais adequadas para a viagem, práticas e resistentes. Pegou sua pistola, que o Doutor Almeida havia lhe dado, e a colocou em um coldre discreto. Montou em seu cavalo, uma égua escura e ágil chamada Sombra, e partiu em direção ao sertão, em busca do Ralo da Terra e da verdade que poderia salvar a Bahia da ruína. O labirinto de vultos da Vila da Cruz havia lhe dado um caminho, um caminho perigoso e incerto, mas o único que restava.

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