A Espiã do Rei III
Capítulo 9 — As Areias Queimadas do Ralo da Terra
por Vitor Monteiro
Capítulo 9 — As Areias Queimadas do Ralo da Terra
A paisagem do sertão baiano, vasta e implacável, se estendia diante de Isabella como um mar de areia avermelhada e vegetação esparsa e resistente. O sol, um disco incandescente no céu azul profundo, castigava a terra com um calor sufocante, tornando o ar pesado e denso. A viagem era árdua, os dias longos e as noites frias, mas a urgência de sua missão a impulsionava. Ela cavalagava Sombra, sua égua fiel, por trilhas quase invisíveis, guiada pelas informações fragmentadas que havia obtido na Vila da Cruz e pela esperança de encontrar Bartolomeu, o ex-garimpeiro, antes que fosse tarde demais.
Isabella sentia o peso da solidão, interrompida apenas pelo uivo distante de um coiote ou pelo farfalhar de algum animal invisível na caatinga. A cada dia que passava, ela se afastava mais da civilização e se aproximava do desconhecido. O Ralo da Terra, o lugar que Bartolomeu mencionara, soava como um portal para um submundo, um local onde a natureza escondia seus segredos mais profundos.
Após cinco dias de cavalgada extenuante, Isabella percebeu uma mudança sutil na paisagem. A vegetação, antes mais dispersa, começou a dar lugar a formações rochosas incomuns e a um solo que parecia mais arenoso, quase como se a terra estivesse sendo sugada para baixo. Ela sabia que estava se aproximando.
Encontrou rastros recentes. Pegadas de homem e de cavalo, indicando que alguém havia passado por ali não muito tempo antes. Seu coração acelerou. Era Bartolomeu? Ou capangas de Dom Sebastião?
Seguiu os rastros com cautela, o sol começando a declinar no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e roxo. A terra parecia ficar mais seca, e um silêncio opressor tomou conta do ambiente. De repente, ela chegou a uma clareira, e ali, no centro, viu uma formação geológica impressionante: um grande buraco circular no solo, com paredes íngremes e um fundo que se perdia nas sombras. Era o Ralo da Terra.
E no topo de uma das rochas que circundavam o buraco, Isabella avistou uma figura solitária. Era um homem, magro e encurvado, com os cabelos grisalhos desgrenhados e vestindo roupas rasgadas. Ele segurava um pedaço de pergaminho nas mãos, seus olhos fixos na escuridão do Ralo. Era Bartolomeu.
Isabella desmontou de Sombra, deixando-a pastar a uma distância segura. Aproximou-se com cautela, mantendo-se nas sombras para não assustá-lo.
“Bartolomeu?” ela chamou, a voz suave, mas firme.
O homem se sobressaltou, virando-se abruptamente. Seus olhos, marejados e desconfiados, a encararam. “Quem é você? O que quer aqui?”
“Meu nome é Isabella. Fui enviada para conversar com o senhor sobre Dom Sebastião e uma mina de ouro.”
Bartolomeu soltou uma risada amarga. “Dom Sebastião… esse demônio! Roubou meu trabalho, minha vida! Esse mapa… ele me pertence!” Ele apertou o pergaminho com força. “Ele me expulsou como um cão, mas eu sabia que voltaria. Eu sei onde está o ouro, o ouro que é meu por direito!”
“Eu também quero expor Dom Sebastião,” Isabella disse, aproximando-se um pouco mais. “Ele está usando o ouro para financiar um levante contra a Coroa. Ele está comprando armas, Bartolomeu. Se ele conseguir, muitas vidas inocentes serão perdidas.”
O garimpeiro a olhou com desconfiança, mas a menção ao levante pareceu abalar sua determinação egoísta. “Levante? Armas? Aquele desgraçado quer trair o Rei? Ele me enganou! Disse que queria o ouro para a glória de Portugal, para ajudar a Coroa!”
“Ele mentiu para o senhor, Bartolomeu. Assim como mentiu para muitos outros. Mas ainda podemos impedi-lo. O senhor tem o mapa?”
Bartolomeu hesitou por um momento, seus olhos alternando entre Isabella e o abismo sombrio à sua frente. Parecia que ele lutava consigo mesmo, entre a sede de vingança e o senso de dever que a menção do levante havia despertado.
“Eu… eu tenho o que preciso,” ele finalmente disse, estendendo o pergaminho. “Este mapa… não é um mapa comum. Ele mostra os túneis secretos, as veias de ouro que descobri. Mas Dom Sebastião… ele tem homens vigiando este lugar. Ele não me deixará escapar com isso.”
Enquanto Bartolomeu falava, Isabella ouviu o som distante de cavalos se aproximando. O barulho ecoava no silêncio do sertão, prenunciando perigo.
“Eles estão vindo,” Bartolomeu sussurrou, o pânico em sua voz. “Eu sabia que ele enviaria alguém para me silenciar!”
Isabella sacou sua pistola. “Desça daí, Bartolomeu! Precisamos nos esconder!”
Eles se afastaram da borda do Ralo, buscando abrigo em uma formação rochosa próxima. Pouco depois, um grupo de homens armados surgiu na clareira, liderados por Baltasar. Seus olhos percorreram o local, buscando por Bartolomeu.
“Onde está o velho?” Baltasar rosnou, apontando para o topo da rocha onde Bartolomeu estivera sentado. “Ele não pode ter ido longe!”
Isabella sabia que era a sua chance. Se ela pudesse distraí-los, talvez Bartolomeu pudesse escapar com o mapa, ou talvez ela pudesse obter mais informações.
“Ei!” Isabella gritou, saindo de seu esconderijo e se posicionando em frente a eles. “Estão procurando por algo?”
Baltasar e seus homens se viraram, surpresos com a aparição de Isabella. Seus olhos percorreram seu corpo, a surpresa dando lugar a um desdém condescendente.
“Quem é essa garota perdida no meio do nada?” um dos homens zombou.
“Saia do nosso caminho, mulher,” Baltasar ordenou, a voz fria e ameaçadora. “Não temos tempo para brincadeiras.”
“Talvez vocês tenham tempo para responder a algumas perguntas,” Isabella retrucou, mantendo a pistola firme em sua mão. “Onde está o ouro que vocês estão roubando? Para onde vocês o enviam?”
Baltasar riu. “Você é corajosa, garota. Mas sua coragem vai custar caro.”
Ele fez um sinal para seus homens. Dois deles avançaram em direção a Isabella. Ela disparou um tiro para o alto, o som ecoando violentamente no sertão. Os homens hesitaram, mas não recuaram.
Isabella sabia que não poderia lutar contra todos eles sozinha. Sua prioridade era Bartolomeu e o mapa. Ela lançou um olhar rápido para o local onde o garimpeiro havia se escondido.
Enquanto os homens de Baltasar a cercavam, Isabella percebeu um movimento nas sombras. Bartolomeu, aproveitando a distração, havia escapado. Mas, em vez de fugir, ele correu em direção ao Ralo da Terra.
“Não!” Isabella gritou, vendo a loucura em seus olhos.
Bartolomeu, em um ato de desespero ou talvez de loucura induzida pela bebida e pela vingança, pulou para dentro do Ralo. O som de sua queda ecoou por um instante, seguido por um silêncio arrepiante.
Baltasar e seus homens pararam, chocados. A fúria tomou conta do rosto de Baltasar. “Maldito! Ele se jogou lá dentro!”
Isabella sentiu um aperto no peito. A esperança de obter o mapa havia desaparecido, levada pela imprudência de Bartolomeu. Mas ela ainda tinha informações cruciais.
“O carregamento de ouro está pronto para partir,” ela disse a Baltasar, sua voz firme apesar da emoção. “O navio do Capitão Matias espera no porto. E Dom Sebastião está armando um levante contra a Coroa.”
Baltasar a encarou, seus olhos brilhando de ódio. “Você é uma espiã, não é? Da Coroa!”
Ele se aproximou dela, a mão erguida como se fosse agarrá-la. Mas Isabella foi mais rápida. Ela disparou, não para matar, mas para atingir a perna de Baltasar. Ele urrou de dor, cambaleando.
“Isso é apenas o começo,” Isabella disse, antes de se virar e correr em direção a Sombra. Ela sabia que precisava voltar para Salvador, informar o Doutor Almeida e o Padre Inácio sobre a morte de Bartolomeu e a iminente partida do navio.
Enquanto cavalgava para longe do Ralo da Terra, o sol já havia se posto completamente, deixando o sertão imerso em uma escuridão profunda. Isabella sentiu o peso da perda de Bartolomeu, mas também sentiu a urgência renovada de sua missão. As areias queimadas do sertão haviam guardado o segredo do ouro, mas a imprudência de um homem havia revelado parte da trama de Dom Sebastião. Agora, ela precisava correr contra o tempo para impedir que essa trama se concretizasse.