A Conquistadora III
Capítulo 10 — O Fogo da Discórdia
por Vitor Monteiro
Capítulo 10 — O Fogo da Discórdia
A brisa do amanhecer, ainda fresca e carregada com a umidade da noite, acariciava o rosto de Isabella enquanto ela observava o sol nascer sobre a baía. A cidade de São Sebastião, ainda adormecida sob o véu da madrugada, começava a despertar lentamente, seus sons abafados chegando até ela como um murmúrio distante. Ela estava sentada em seu escritório, as janelas abertas, o cheiro do mar se misturando ao odor de pergaminhos e tinta.
As notícias que chegavam eram um misto de esperança e apreensão. A aliança com os Tupi estava se fortalecendo, e os ataques surpresa orquestrados por Jerônimo estavam começando a surtir efeito, atrasando o avanço das tropas de Matias e desorganizando suas linhas de suprimento. No entanto, a informação que Jerônimo lhe trouxera na noite anterior era perturbadora. Parecia que Matias não estava agindo sozinho, e que figuras importantes na colônia estavam secretamente apoiando sua causa, fornecendo-lhe recursos e informações valiosas.
"Bom dia, Dama Isabella", disse Jerônimo, entrando no escritório com passos silenciosos. Ele trazia consigo um envelope selado. "Tenho novidades. E algumas delas não são boas."
Isabella se virou, o semblante sério. "O que você descobriu, Jerônimo?"
"Os ataques aos comboios de suprimento estão funcionando. Matias está perdendo homens e recursos. Mas ele não está desmoronando. Pelo contrário, parece que ele está recebendo reforços inesperados. E não apenas de Portugal."
Ele entregou o envelope a Isabella. "Esta mensagem veio de um dos meus informantes dentro da cidade. Diz que Matias tem se encontrado secretamente com figuras influentes. Homens que você menos esperaria."
Isabella abriu o envelope com mãos trêmulas. A letra era apressada, mas legível. Ao ler, seu rosto empalideceu. As informações eram devastadoras. O padre Mateus, um homem que ela considerava um aliado espiritual, estava na verdade disseminando discórdia em nome de Matias. E D. Afonso, o nobre de fala mansa, estava usando sua influência para isolar aqueles que se opunham a Matias. E, pior de tudo, o mercador de armas que havia sido eliminado por Fernando… parecia ter sido apenas o primeiro de uma série de mortes planejadas para desmantelar qualquer resistência.
"Padre Mateus e D. Afonso?", Isabella murmurou, chocada. "Eu nunca imaginaria. Eles se apresentavam como defensores da ordem, da justiça."
"A ordem e a justiça deles servem a quem lhes paga melhor, Isabella", disse Jerônimo, com um tom amargo. "Fernando tem feito um trabalho impressionante em neutralizar alguns desses pilares de Matias. Mas parece que eles são mais numerosos do que pensávamos. E mais astutos."
"Fernando?", Isabella olhou para Jerônimo com surpresa. "O filho do Capitão-Mor? Eu não sabia que ele estava envolvido em nossa causa."
"Ele não está na sua causa, Isabella. Ele está na causa do pai dele. D. Rodrigo de Castel-Branco. O verdadeiro poder por trás de Matias. Fernando está executando as ordens do pai para fortalecer a posição de Matias e, ao mesmo tempo, eliminar qualquer um que possa se tornar uma ameaça para eles no futuro." Jerônimo suspirou. "É um jogo perigoso que eles jogam. Um jogo de matar dois coelhos com uma cajadada só."
Isabella sentiu um frio na espinha. A complexidade da situação era assustadora. Matias, o inimigo principal, era apenas um peão em um jogo muito maior, orquestrado por D. Rodrigo de Castel-Branco, um homem cujo poder e influência ela subestimara. E Fernando, o jovem nobre com quem ela tivera um breve romance no passado, agora estava ativamente trabalhando contra ela, embora por ordens de seu pai.
"D. Rodrigo...", ela sussurrou. "Ele é a cabeça da serpente."
"Exatamente", confirmou Jerônimo. "E enquanto não cortarmos a cabeça, a serpente continuará a rastejar e a picar. Matias é o braço forte, mas D. Rodrigo é o cérebro. E Fernando é a mão que executa."
Isabella se levantou, andando de um lado para o outro no escritório, a mente fervilhando. A traição do padre e de D. Afonso doía profundamente, mas a revelação sobre D. Rodrigo e Fernando mudava tudo. Eles não podiam mais se concentrar apenas em Matias. Precisavam desestabilizar D. Rodrigo. Precisavam expô-lo.
"Precisamos expor D. Rodrigo", disse Isabella, com a voz firme e determinada. "Precisamos mostrar ao povo de São Sebastião quem ele realmente é. Que ele manipula Matias, que ele usa a coroa para seus próprios fins egoístas."
"É uma tarefa difícil, Isabella", advertiu Jerônimo. "D. Rodrigo é respeitado por muitos. Sua influência é vasta. Expor suas ações sem provas concretas seria suicídio."
"Mas nós temos provas", disse Isabella, apontando para o envelope. "Temos o testemunho dos seus informantes. Temos as ações dele, através de seu filho e de seus aliados. Precisamos de uma forma de tornar tudo isso público. Uma forma que não possa ser ignorada."
Ela parou, olhando para o sol que agora brilhava intensamente no céu azul. A luz, que antes trazia esperança, agora parecia desafiadora. "Matias está usando o fogo da discórdia para nos dividir. Precisamos usar esse mesmo fogo contra ele. E contra D. Rodrigo."
"Como?", perguntou Jerônimo.
"Precisamos de um catalisador. Algo que acenda a chama da revolta entre o povo. Algo que mostre a eles que D. Rodrigo e Matias não defendem seus interesses, mas apenas os seus. E que a única forma de liberdade é através da resistência." Isabella sorriu, um sorriso sombrio e calculado. "O padre Mateus espalhava discórdia. D. Afonso isolava os opositores. Fernando eliminava os inconvenientes. Eles estavam nos enfraquecendo por dentro. Agora, vamos usar essa mesma tática contra eles."
"Você tem um plano?", perguntou Jerônimo, os olhos brilhando com expectativa.
"Tenho", respondeu Isabella. "Vamos usar as palavras para inflamar a alma do povo. Vamos usar as ações deles contra eles mesmos. Vamos criar uma onda de descontentamento que D. Rodrigo não poderá conter. E quando o povo se voltar contra ele, aí sim, Matias estará realmente em perigo. E nós teremos uma chance de vencer."
Isabella olhou para o horizonte, para a cidade que era palco de tantas lutas. A batalha não seria fácil, e o inimigo era astuto e poderoso. Mas ela não estava mais sozinha. Tinha Jerônimo ao seu lado, e tinha a força do povo Tupi. E agora, ela tinha um plano. Um plano ousado, perigoso, mas que poderia ser a única chance de libertar aquela terra do jugo da opressão. O fogo da discórdia, que eles usavam para dividir, agora seria aceso para unir. E a colônia, prestes a explodir em revolta, jamais seria a mesma.