A Conquistadora III

A Conquistadora III

por Vitor Monteiro

A Conquistadora III

Capítulo 16 — O Fantasma de Porto Seguro

O cheiro de sal e peixe podre pairava no ar denso e úmido, um perfume familiar, mas que agora trazia consigo uma melancolia quase palpável. Porto Seguro, outrora um farol de esperança e um palco para o início de uma nova vida, parecia agora engolida pelas sombras do tempo e do esquecimento. As casas de taipa, antes vibrantes com o burburinho da vida colonial, exibiam telhados desmantelados e paredes carcomidas pela chuva incessante da estação. A igreja, a mesma onde Ana e Francisco trocaram juramentos sob o olhar severo de Deus e a bênção incerta dos homens, agora se erguia como um esqueleto de pedra, suas torres silenciosas testemunhas de glórias passadas e sofrimentos presentes.

Ana, agora uma mulher marcada pelas agruras da vida, mas com um fogo que não se apagava nos olhos, desceu do cavalo com uma agilidade surpreendente para quem carregava o peso de tantos anos e tantas perdas. Seus cabelos, antes de um castanho vibrante, agora exibiam mechas grisalhas que teimavam em escapar do coque apertado, como fios de prata tecendo a história de sua resiliência. Ao seu lado, o jovem Thiago, com seus dezoito anos recém-completados, observava a cena com uma mistura de curiosidade e apreensão. O rosto dele, ainda moldado pela juventude, carregava a mesma determinação que ele herdara da mãe, mas os olhos azuis, herdados de Francisco, refletiam uma sombra de incerteza que Ana reconhecia de imediato.

"É aqui, mãe?", perguntou Thiago, sua voz um pouco trêmula ao atravessar o arco dilapidado que outrora fora o portão principal da vila.

Ana assentiu, um nó apertando sua garganta. "Este é o lugar onde tudo começou, meu filho. Onde o sonho de um novo mundo nasceu, e onde muitas lágrimas foram derramadas." Ela estendeu a mão, acariciando a pedra fria de uma das ruínas. "É aqui que procuraremos por ele."

Eles estavam em Porto Seguro em busca de notícias sobre Diogo, o filho que Ana tivera de um amor proibido, uma lembrança dolorosa de um tempo de paixão avassaladora e perigo iminente. Anos haviam se passado desde que ela vira o rosto dele pela última vez, uma criancinha com os olhos do pai. Boatos desencontrados chegaram a seus ouvidos ao longo dos anos – que ele estava vivo, que havia se tornado um pirata temível, que se perdera nas selvas inexploradas. Mas agora, um informante confiável, um velho marinheiro com quem Ana mantivera contato, havia sussurrado uma pista: Diogo estaria escondido nas proximidades de Porto Seguro, talvez em busca de refúgio ou de algo mais.

Enquanto caminhavam pelas ruas empoeiradas, os poucos habitantes que encontraram os olhavam com desconfiança, rostos marcados pela fome e pela dureza da vida. Porto Seguro já não era o que fora. A exploração desenfreada, as disputas com as tribos indígenas e a própria distância da metrópole haviam cobrado seu preço. Ana sentia o peso da história naquele lugar desolado, como se os próprios espíritos dos colonos falidos e perdidos pairassem no ar, sussurrando advertências.

"Devemos ir com cautela, Thiago", disse Ana, sua voz baixa e firme. "O mundo que Francisco construiu aqui desmoronou. E aqueles que restaram podem não ser tão receptivos a forasteiros."

Thiago apertou o punho da espada que levava à cintura, um presente de despedida de seu mentor, um velho capitão da guarda que vira nele um reflexo de seu próprio passado de lutas. "Não temo ninguém, mãe. Se Diogo está aqui, nós o encontraremos. E se houver perigo, eu o protegerei."

A determinação do filho aquecia o coração de Ana, mas também a assustava. Ela sabia que o caminho de Diogo não era o mesmo que o dela, e temia que a busca os levasse por trilhas ainda mais sombrias.

Seu primeiro destino foi a velha estalagem, agora um lugar sombrio e malcheiroso, onde o dono, um homem corpulento de barba rala e olhos furtivos, limpava um copo com um pano imundo.

"Boa tarde", disse Ana, sua voz exalando uma autoridade que a experiência lhe conferira. "Procuramos informações. Um homem, talvez jovem, de cabelos escuros e um olhar... diferente. Poderia ter passado por aqui recentemente?"

O homem ergueu os olhos, um brilho de astúcia em seu olhar. "Informação não é de graça, senhora. Principalmente em tempos como estes."

Ana não vacilou. Tirou uma pequena bolsa de couro do cinturão e depositou algumas moedas de ouro sobre o balcão. O som metálico fez os olhos do estalajadeiro brilhar.

"Quem procura por um fantasma, geralmente encontra sombras", disse ele, pegando as moedas. "Um jovem com as características que descreve esteve por aqui há algumas luas. Parecia procurado, sempre olhando por cima do ombro. Hospedou-se pouco tempo. Disse que ia para o interior, em busca de um lugar para se estabelecer."

"O interior?", Ana franziu a testa. "Algum local específico?"

O estalajadeiro deu de ombros. "Não deu detalhes. Mas ouvi-o falar de um velho ermitão que vivia próximo a um rio, nas terras mais selvagens. Dizia que este ermitão guardava segredos de tempos antigos."

Um ermitão? Um rio? Segredos? Ana sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquilo soava como um código, uma pista propositalmente obscura. Diogo era inteligente, astuto, como o pai que o gerara, e talvez estivesse tentando se comunicar de forma velada.

"Obrigada pela sua ajuda", disse Ana, lançando um último olhar penetrante ao estalajadeiro. "Que Deus o proteja."

Ao saírem da estalagem, o sol começava a se pôr, tingindo o céu de tons alaranjados e roxos. A beleza efêmera do crepúsculo contrastava com a decadência do lugar.

"Um ermitão, mãe?", Thiago questionou, a voz tingida de ceticismo. "Isso não parece um lugar para um homem de sua índole."

"Diogo é um homem de muitas faces, Thiago", respondeu Ana, olhando para o horizonte. "E as faces que ele mostra são muitas vezes um reflexo do mundo em que é forçado a viver. Se ele buscou um ermitão, é porque esperava encontrar algo que não encontraria em outro lugar."

Eles passaram a noite em uma cabana abandonada nos arredores de Porto Seguro, o fogo crepitando na lareira enquanto Ana contava a Thiago sobre os dias em que Francisco, com sua visão audaciosa, sonhava em erguer uma nova civilização ali. Ela falou sobre a esperança, a bravura, mas também sobre as dificuldades, as perdas e a crueldade que assolaram aqueles primeiros tempos.

"Francisco era um homem à frente de seu tempo", disse Ana, olhando para as chamas dançantes. "Ele acreditava que este novo mundo seria melhor, mais justo. Mas a ambição humana, meu filho, é um monstro que se alimenta até mesmo dos mais nobres ideais."

Thiago ouvia atentamente, a imagem de seu pai, que ele mal conhecera, moldando-se em sua mente com as histórias de sua mãe. Sentia uma mistura de admiração e tristeza pela glória perdida de seu nome.

Na manhã seguinte, com a orientação incerta do estalajadeiro, Ana e Thiago partiram em direção ao interior, deixando para trás o fantasma de Porto Seguro. A trilha se tornava cada vez mais selvagem, a mata fechada engolindo a luz do sol. O rio mencionado pelo estalajadeiro era agora seu guia.

"Onde o rio encontra a escuridão", murmurou Ana para si mesma, lembrando-se de uma antiga canção de ninar que sua avó costumava cantar, uma melodia sobre um lugar escondido onde a terra beijava o céu e os segredos eram guardados pelas águas.

A jornada seria longa e árdua. Mas Ana sentia no fundo de sua alma que estava no caminho certo. A busca por Diogo não era apenas a busca por um filho perdido, mas também a busca por respostas, por um pedaço de seu passado que ainda a assombrava e que, talvez, pudesse finalmente trazer a paz que ela tanto almejava.

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