A Conquistadora III
Capítulo 23 — O Encontro na Margem do Rio
por Vitor Monteiro
Capítulo 23 — O Encontro na Margem do Rio
O calor era sufocante, e o ar vibrava com a tensão. Os homens de Don Rodrigo de Abreu haviam chegado, seus barcos ancorados na margem do Rio Negro, um espetáculo ameaçador de metal e madeira, prontos para desferir seu poder destrutivo. O vilarejo, antes um refúgio de paz e harmonia, agora se preparava para a batalha, seus habitantes envoltos em um manto de apreensão.
Isabela, a conquistadora recém-revelada de sua herança, estava na linha de frente, a lança em punho, seus olhos fixos nos invasores. Ela sentia o peso da responsabilidade sobre seus ombros, mas também a força que emanava de suas raízes indígenas, a sabedoria ancestral que Iara, sua mãe, lhe havia transmitido.
"Araci, prepare os guerreiros", ordenou Isabela, sua voz um trovão em meio ao silêncio tenso. "Mantenham a calma. Não permitiremos que o medo nos domine."
Padre Antônio aproximou-se dela, seu rosto pálido, mas sua determinação inabalável. "Isabela, eu irei ao encontro deles. Tentarei negociar, ganhar tempo. Mas seja prudente. Don Rodrigo é um homem sem escrúpulos."
"Eu sei, Padre. Mas não posso deixar meu povo ser atacado sem antes tentar uma saída pacífica. Se ele se recusar a ouvir, então lutaremos. E lutaremos com a força de quem defende seu lar." Isabela apertou a lança, sentindo a energia da terra pulsar em suas mãos. Ela sabia que a luta seria difícil, que os homens da Companhia das Índias estavam bem armados, mas a coragem que ela herdara de sua mãe a impulsionava.
Ela se dirigiu à margem do rio, acompanhada por alguns de seus guerreiros mais leais e por Padre Antônio. O som das gaitas de fole e dos tambores da Companhia das Índias ecoava pela mata, aumentando a sensação de inevitabilidade. Ao se aproximarem, viram Don Rodrigo de Abreu, um homem imponente de barba escura e olhar penetrante, cercado por seus soldados. A arrogância transbordava de cada um deles.
"Quem ousa se apresentar?", gritou Don Rodrigo, sua voz ressoando autoritária.
Padre Antônio deu um passo à frente, erguendo uma cruz em sinal de paz. "Eu sou o Padre Antônio, servo de Nosso Senhor Jesus Cristo. E esta é Isabela, líder deste povo. Viemos em busca de um diálogo pacífico."
Don Rodrigo soltou uma gargalhada seca. "Um diálogo? Com uma mestiça que se faz de líder? Que audácia! Eu sou Don Rodrigo de Abreu, e vim em nome da Coroa e da Companhia das Índias para trazer ordem e submissão a esta terra selvagem!"
Isabela deu um passo à frente, sua postura desafiadora. Seus olhos, intensos como as chamas que lhe davam nome, encontraram os de Don Rodrigo. "Eu sou Isabela, filha de Iara, e esta terra é nosso lar. Não somos selvagens a serem domados, mas um povo que busca viver em paz. Se vossa intenção é a violência, então encontrarão resistência."
Don Rodrigo a estudou com um olhar calculista, um sorriso cruel brincando em seus lábios. "Filha de Iara, dizes? Interessante. Ouvi histórias sobre você. Uma branca que se corrompeu com os costumes bárbaros. Mas não se iluda, sua raça inferior não lhe dará poder sobre mim."
"Minha raça é forte", rebateu Isabela, a voz firme, mas com um tremor de raiva contida. "E meu povo é unido. Não permitiremos que nos tirem nossas terras, nossa liberdade."
"Liberdade?", zombou Don Rodrigo. "A única liberdade que existe é a que a Companhia lhes concede! E vocês não me pareceram muito gratos quando viemos da última vez. Agora, se quer saber a verdade, vim para reclamar as terras que vocês roubaram de nós! E quem não se curvar à autoridade da Coroa, conhecerá o aço de nossos homens!"
Ele fez um gesto para um dos soldados, que avançou com um canhão. O barulho metálico do canhão sendo preparado fez os guerreiros de Isabela se enrijecerem, as mãos apertando as lanças.
"Don Rodrigo!", interveio Padre Antônio, sua voz ecoando com urgência. "Não é tarde para evitar um banho de sangue. Esta terra pode ser um lugar de prosperidade para todos, se houver boa vontade. A Companhia pode prosperar aqui, assim como o povo de Iara. O que você busca é ganância, não justiça!"
"Justiça é o que a Coroa dita, Padre!", retrucou Don Rodrigo, sua voz trovejando. "E a Coroa dita que esta terra é nossa! E eu, Don Rodrigo de Abreu, sou o braço executor de sua vontade! Agora, diga a sua 'líder', essa bastarda que se acha cacique, para se render! Ou então..."
Ele não precisou terminar a frase. O ar se encheu com o som de flechas zunindo e o grito de guerra dos guerreiros de Isabela. Eles haviam percebido que a negociação era inútil. A batalha era inevitável.
Isabela, com um grito que parecia ecoar a fúria da própria natureza, lançou sua lança contra Don Rodrigo. O capitão, pego de surpresa pela ousadia da mestiça, conseguiu desviar do golpe mortal, mas a lança raspou em seu ombro, rasgando o tecido de sua farda.
"Tolos!", gritou Don Rodrigo, sacando sua espada. "Vocês escolheram o caminho da destruição!"
A margem do rio se transformou em um campo de batalha caótico. Os guerreiros de Isabela, apesar de estarem em menor número e com armamento inferior, lutavam com uma ferocidade desesperada. As flechas e zarabatanas encontravam seu alvo, mas as espingardas e os canhões dos soldados da Companhia causavam estragos terríveis.
Isabela, em meio à confusão, lutava com a força de dez homens. Sua lança era um borrão mortal, seu corpo ágil se esquivando dos golpes de espada dos soldados. Ela via os rostos de seus guerreiros, a coragem em seus olhos, e sentia a força de sua mãe a guiando. Ela não era apenas Isabela, a branca de cabelos de fogo, mas sim a herdeira de Iara, a protetora de seu povo. A batalha pela margem do rio havia começado, e o destino de ambos os lados seria decidido ali, sob o sol implacável do sertão.