A Conquistadora III
Capítulo 24 — O Sangue e a Terra
por Vitor Monteiro
Capítulo 24 — O Sangue e a Terra
A margem do Rio Negro se tornou um palco de sangue e fúria. O estrondo dos canhões rasgava o ar, misturando-se aos gritos de dor e aos uivos de guerra. Os guerreiros de Isabela, impulsionados pela desespero e pela determinação de defender seu lar, enfrentavam o poder de fogo da Companhia das Índias com uma bravura que surpreendia até mesmo os soldados mais experientes.
Isabela era a personificação da resistência. Sua lança, manchada com o sangue de seus inimigos, dançava em um balé mortal. Cada movimento seu era calculado, cada golpe desferido com a precisão de uma caçadora experiente. Ela via a face de sua mãe, Iara, em cada guerreiro que lutava ao seu lado, e sentia a terra sob seus pés vibrar com a mesma força ancestral.
"Recuem!", ordenou Don Rodrigo, sua voz rouca de esforço e fúria. Ele se defendia dos ataques implacáveis de Isabela, a espada reluzindo sob o sol. A mestiça era mais habilidosa do que ele imaginava, uma força da natureza que parecia imune ao medo. "Vocês não podem deter o avanço da civilização! Rendam-se e pouparei suas vidas!"
"Nossas vidas já estão em risco ao defender nosso lar!", gritou Isabela, desviando de um golpe de espada que visava seu pescoço. Ela contra-atacou com uma agilidade surpreendente, sua lança forçando Don Rodrigo a recuar. "Você veio para destruir, não para civilizar! E nós não seremos destruídos!"
Padre Antônio, em meio ao caos, tentava auxiliar os feridos de ambos os lados, seu rosto sujo de terra e sangue, mas seus olhos fixos em um propósito maior. Ele via a ferocidade da batalha, a crueldade dos homens de Don Rodrigo, e a coragem inabalável do povo de Isabela. Em um momento de pausa, ele viu um grupo de soldados se aproximando sorrateiramente do vilarejo, com a intenção clara de atacar os mais vulneráveis.
"Isabela!", gritou o jesuíta, sua voz quase inaudível no fragor da batalha. "Eles tentam atacar o vilarejo! As mulheres e as crianças!"
O coração de Isabela gelou. Ela sabia que a prioridade era defender os mais fracos. Com um rugido, ela se afastou de Don Rodrigo, deixando-o momentaneamente atordoado. "Araci! Leve metade dos guerreiros e proteja o vilarejo! Não permitam que eles cheguem às nossas famílias!"
Araci, com a lealdade estampada em seu rosto, reuniu os guerreiros e partiu em disparada, deixando Isabela com o restante da tropa para conter o avanço principal da Companhia.
Don Rodrigo, ao ver sua oponente recuar, recuperou a compostura. "Você não pode fugir, mestiça! O destino lhe reserva uma morte lenta e dolorosa!" Ele avançou novamente, sua espada em riste.
A luta se intensificou. Os soldados da Companhia, vendo sua oportunidade, avançavam com brutalidade. Mas o povo de Isabela lutava com a força de quem não tinha nada a perder. A terra sob seus pés, a terra que Iara tanto amava, era a fonte de sua resistência.
Em um momento crucial, um dos canhões da Companhia mirou diretamente em Isabela. O soldado acendeu a mecha, e o projétil saiu disparado. Isabela sentiu o perigo iminente, mas não havia tempo para fugir. No entanto, antes que o projétil a atingisse, um corpo se lançou à sua frente. Era Padre Antônio.
O impacto do canhão atingiu o jesuíta em cheio, lançando-o para o ar com uma força brutal. Ele caiu pesadamente no chão, inconsciente, seu corpo inerte.
"Padre Antônio!", gritou Isabela, um grito de desespero que ecoou pela mata. A raiva tomou conta dela, uma fúria cega que a impulsionou a lutar com ainda mais intensidade. Ela viu a crueldade de Don Rodrigo e de seus homens, a desconsideração pela vida humana, e jurou vingança.
Com um grito primal, Isabela avançou sobre Don Rodrigo, sua lança agora empunhada com a força de uma deusa vingadora. Ela desferiu uma sequência de golpes implacáveis, cada um deles carregado com a dor da perda e a fúria da injustiça. Don Rodrigo, embora um guerreiro experiente, estava sobrecarregado pela ferocidade de Isabela.
Em um movimento rápido e fatal, Isabela desarmou Don Rodrigo, sua lança cravando-se no peito do capitão. O homem caiu no chão, seus olhos arregalados de espanto e dor, o sangue escuro manchando sua farda. A arrogância havia desaparecido de seu rosto, substituída por uma expressão de incredulidade.
A morte de Don Rodrigo desestabilizou as tropas da Companhia. Sem seu líder, e vendo a ferocidade implacável de Isabela e de seus guerreiros, o medo começou a tomar conta deles. Muitos começaram a se retirar, voltando para seus barcos em desespero.
Isabela, ofegante, observou a retirada dos invasores. A batalha havia sido ganha, mas o custo fora alto. Ela correu para o lado de Padre Antônio, ajoelhando-se ao lado de seu corpo. Ele estava ferido, mas respirava. A esperança voltou a brilhar em seus olhos.
"Padre... meu amigo...", sussurrou Isabela, lágrimas escorrendo por seu rosto. "Você nos salvou. Você deu sua vida por nós."
Ela olhou para a terra manchada de sangue, para os corpos caídos de ambos os lados. A vitória tinha um gosto amargo. A luta pela sobrevivência havia se tornado uma luta pela alma desta terra, e o sangue derramado era um testemunho do preço da liberdade. A Conquistadora havia defendido seu povo, mas a paz ainda era um sonho distante. A guerra deixara cicatrizes profundas, tanto na terra quanto em seu coração.