A Conquistadora III
Capítulo 6
por Vitor Monteiro
Claro! Com o coração pulsando ao ritmo da história e a pena em chamas, mergulho de volta ao vibrante e turbulento mundo de "A Conquistadora III". Prepare-se para mais emoções, reviravoltas e a paixão que só o Brasil colonial sabe evocar.
Capítulo 6 — O Sussurro da Vendetta
A brisa salgada da baía de Guanabara beijava o rosto de Isabella, trazendo consigo o cheiro acre do mar e promessas de tempestade. O sol, um disco de ouro derretido no horizonte, pintava as águas calmas com tons de laranja e púrpura, um espetáculo belíssimo que contrastava violentamente com a escuridão que se instalava em seu peito. Ela estava sentada em um dos bancos rústicos do cais, observando os navios ancorados, suas velas recolhidas como asas cansadas de aves marinhas. Cada embarcação representava um mundo de possibilidades, de perigos, de vidas cruzadas. E, em cada uma delas, um fio que a ligava a ele.
Desde a noite fatídica no engenho de açúcar, a imagem de Matias a assombrava. Não a imagem do homem apaixonado, do amante que a fizera vibrar em todos os sentidos, mas a do traidor, do homem que a deixara para morrer, que se aliara ao inimigo em troca de poder e de uma vingança que ela mal podia compreender. A notícia de sua ascensão, de que agora comandava uma frota maior e mais bem equipada, chegara como um soco no estômago, revivendo todas as feridas que ela, com tanto esforço, tentava cicatrizar.
"Pensamentos sombrios, Dama Isabella?", uma voz grave e rouca a tirou de suas reflexões.
Ela se virou, encontrando os olhos escuros de Jerônimo de Albuquerque, o homem que, apesar de suas origens nobres e de sua aliança com o lado oposto em outros tempos, parecia ter encontrado um porto seguro em sua causa. Ele era um homem de poucas palavras, mas seus gestos e sua lealdade eram mais eloquentes do que qualquer discurso. Trazia consigo um pequeno embrulho de couro.
"Apenas o peso do futuro, Capitão Albuquerque", respondeu Isabella, tentando manter a voz firme, embora um tremor teimoso a denunciasse. "O futuro da nossa terra. E do nosso povo."
Jerônimo se sentou ao lado dela, a madeira rangendo sob seu peso. Ele abriu o embrulho, revelando duas maçãs vermelhas e lustrosas. Ofereceu uma a Isabella.
"Fruta fresca. Para clarear a mente. E a alma."
Isabella aceitou, o aroma doce e levemente ácido perfumando o ar. Dava pequenos mordiscos, saboreando a simplicidade do gesto em meio à complexidade de sua situação.
"Matias", ela disse, a palavra escapando antes que pudesse contê-la. "Ele está mais forte do que eu imaginava."
"Ele é um lobo astuto, Isabella. E faminto. A traição o deixou mais perigoso, pois agora ele não tem mais nada a perder. Ou melhor, tem tudo a ganhar." Jerônimo observou a reação dela com uma atenção quase clínica. "Mas você também tem muito a ganhar, não é mesmo?"
Isabella olhou para ele, os olhos marejados, mas firmes. "Eu tenho a lealdade do meu povo. Tenho a justiça do meu lado. E tenho o desejo de ver esta terra livre das garras da coroa, que só nos explora e nos oprime. Matias se vendeu. Eu não me venderei jamais."
"A fala é digna de uma rainha", elogiou Jerônimo, com um sorriso discreto. "Mas o coração de uma rainha deve ser de ferro. E a sua, Isabella, às vezes parece feito de cristal."
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Isabella. "Cristal que sangra, Jerônimo. Cristal que dói. Você acha que é fácil? Ver o homem que um dia amei se tornar meu maior algoz?" Sua voz embargou. "Ainda lembro do toque dele, do calor dos seus lábios... e agora, tudo o que sinto é um frio que me gela os ossos."
Jerônimo colocou uma mão sobre a dela, um gesto paternal e reconfortante. "O amor que se transforma em ódio é a mais poderosa das forças, Isabella. Use-o. Deixe que a dor o alimente. Deixe que a raiva o impulsione. Mas não deixe que ela a cegue."
"Como você sabe tanto sobre o coração humano, Capitão Albuquerque?", perguntou Isabella, voltando a mordiscar a maçã.
"Eu também perdi tudo, Dama Isabella. Por causa de homens como Matias. Por causa da ambição desmedida. Mas encontrei em você algo que me fez acreditar novamente. Uma força que eu nunca pensei existir. Uma determinação que pode mudar o curso desta história." Ele fez uma pausa, seus olhos fixos no mar. "Matias busca vingança contra você. Eu entendo. Mas eu... eu busco justiça. E a justiça, às vezes, é mais amarga do que qualquer vingança."
Isabella sentiu um arrepio. "O que você pretende fazer, Jerônimo?"
"O que deve ser feito", respondeu ele, com uma firmeza que a fez hesitar. "Matias não é o único que cometeu traições. Existem outros. Homens que se venderam à coroa por migalhas. Homens que traíram seus próprios companheiros. Eu tenho informações. Nomes. E intenção."
O olhar de Isabella se intensificou. Ela sabia que Jerônimo era implacável quando se tratava de seus objetivos. "E como isso nos ajuda a deter Matias?"
"Matias está no topo da pirâmide da coroa aqui. Ele é o braço forte deles. Mas todo braço tem seus nervos. Se cortarmos os nervos, o braço cairá. Eu vou atrás daqueles que financiam Matias, daqueles que o apoiam secretamente. Se ele perder o sustento, sua frota ficará incompleta. Seus homens se dispersarão." Jerônimo sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. "E quando ele estiver enfraquecido, você poderá enfrentá-lo. Não com a fúria cega de quem busca vingança, mas com a precisão de quem busca a vitória."
Isabella sentiu uma nova onda de esperança misturada com um temor profundo. Jerônimo era um homem perigoso, com uma agenda própria, mas suas ações até então tinham sido em prol da causa dela.
"E quando você vai começar essa sua 'justiça'?", perguntou ela.
"Em breve. Assim que a maré estiver a meu favor. E o luar me guiar." Jerônimo se levantou, ajeitando o gibão. "Por enquanto, descanse, Dama Isabella. O amanhecer trará novos desafios. E novas oportunidades."
Ele se afastou, deixando Isabella sozinha com seus pensamentos. As palavras dele ecoavam em sua mente: "Não deixe que ela a cegue." Era um conselho sábio. A paixão que sentia por Matias, mesmo que agora tingida de dor e traição, era um fogo que a consumia. Mas talvez, apenas talvez, aquele fogo pudesse ser canalizado. Transformado em uma força motriz. Ela olhou para o céu estrelado, as constelações familiares como velhas amigas. A vingança de Matias era um veneno, mas a justiça de Jerônimo... essa poderia ser a cura. Ou uma nova doença. O tempo diria. E ela estaria lá para ver. Com o coração de ferro, se fosse preciso.