A Conquistadora III

Capítulo 7 — A Sombra do Patriarca

por Vitor Monteiro

Capítulo 7 — A Sombra do Patriarca

A noite caíra sobre a Vila de São Sebastião com a densidade de um manto escuro, pontuado pelas luzes bruxuleantes de lamparinas a óleo e pela vastidão indiferente das estrelas. Nas ruas estreitas e sinuosas, onde a lama se misturava à poeira, o burburinho da vida noturna começava a se dissipar, dando lugar ao silêncio guardado por sombras. Mas na mansão imponente do Capitão-Mor, D. Rodrigo de Castel-Branco, o silêncio era uma armadilha.

D. Rodrigo era uma figura imponente, não pela estatura, mas pela aura de poder que emanava. Seus sessenta anos pesavam sobre ele, marcando seu rosto com rugas profundas como sulcos na terra, mas seus olhos, de um azul gélido e penetrante, ainda possuíam a vivacidade de um falcão. Sentado em sua poltrona de couro, a luz fraca de uma lamparina projetava sombras dançantes sobre seu rosto enquanto ele folheava um grosso livro de contas. O cheiro de cera de abelha e couro velho pairava no ar pesado do escritório.

À sua frente, em pé, estava seu filho mais velho, Fernando. Um homem de trinta anos, com a mesma altivez do pai, mas com uma impaciência contida que às vezes beirava a arrogância. Seus cabelos escuros eram puxados para trás em um rabo de cavalo impecável, e suas roupas, de veludo bordado, denunciavam seu status. Mas a hesitação em seus olhos não passava despercebida ao olhar afiado de D. Rodrigo.

"Você está estranho esta noite, Fernando", disse D. Rodrigo, sem tirar os olhos do livro. Sua voz era como o ranger de um velho navio. "Algo o incomoda?"

Fernando engoliu em seco. A presença do pai sempre o intimidava, apesar de ser seu herdeiro. "Nada, meu pai. Apenas... a vida na colônia nem sempre é pacífica."

D. Rodrigo fechou o livro com um baque surdo. O som ecoou no silêncio. Ele ergueu os olhos para o filho, um leve sorriso irônico brincando em seus lábios. "Pacífica? A vida na colônia nunca foi pacífica, meu filho. É uma luta constante. Contra a natureza, contra os selvagens, contra a fome, e, acima de tudo, contra aqueles que cobiçam o que é nosso." Ele fez uma pausa, seu olhar se tornando mais intenso. "Ou contra aqueles que cobiçam o que deveria ser deles."

Fernando sentiu um nó no estômago. Ele sabia a quem o pai se referia. Matias. Aquele nome se tornara um fantasma em suas conversas com o patriarca. "Matias está se tornando um problema, meu pai."

"Um problema?", D. Rodrigo riu, um som seco e sem humor. "Matias é uma praga. Uma erva daninha que cresce rápido demais. Ele se aliou aos rebeldes, aos holandeses. Ele ameaça tudo o que construímos."

"Ele ameaça o seu poder, meu pai", corrigiu Fernando, com um tom mais audacioso. "E a minha ascensão como seu sucessor."

D. Rodrigo bateu com um dedo na mesa. "Não confunda minhas ambições com as suas, Fernando. Eu construí este império. Com suor, sangue e inteligência. Eu não permitirei que um vira-lata como Matias o desmantele. Ele é um traidor, um oportunista. E você é meu filho. O herdeiro. E precisa aprender a lidar com esse tipo de gente."

"Mas ele é poderoso. Comanda uma frota considerável. E parece ter o apoio de figuras importantes na corte portuguesa."

"Figuras importantes na corte que podem ser facilmente... persuadidas", murmurou D. Rodrigo, com um brilho nos olhos. "Ou desmascaradas. Matias não é invencível. Ele tem suas fraquezas. E seus aliados têm seus medos."

Fernando deu um passo à frente, a voz mais baixa e conspiratória. "Eu sei que você tem seus contatos, meu pai. Seus informantes. Aqueles que operam nas sombras. Eu posso ajudar. Posso ser o seu braço direito nesta... caçada."

O patriarca estudou o filho por um longo momento. Via a ambição em seus olhos, a sede de poder. Mas também via a hesitação, o medo. Matias o intimidava, e isso o irritava. Fernando precisava aprender a ser implacável, assim como ele.

"Você quer provar seu valor, Fernando?", perguntou D. Rodrigo, levantando uma sobrancelha. "Você quer me mostrar que é digno de seu legado?"

"Sim, meu pai. Eu quero."

"Então preste atenção. Matias não age sozinho. Ele tem aliados aqui. Homens que o financiam, que lhe dão abrigo, que espalham seus boatos. Homens que se beneficiam do caos que ele cria." D. Rodrigo se levantou e caminhou até a janela, observando a escuridão lá fora. "Eu tenho uma lista. Uma lista de traidores que se escondem à vista de todos. E você, meu filho, será o encarregado de eliminá-los."

Fernando sentiu um frio na espinha, mas também uma excitação perigosa. "Quem são eles?"

"Um mercador rico, que fornece armas a Matias. Um padre corrupto, que espalha a discórdia entre os fiéis. E um nobre decadente, que usa seu nome para garantir favores ilícitos." D. Rodrigo virou-se para Fernando, o olhar gélido como o gelo dos oceanos do norte. "Você vai se livrar deles. Um por um. Sem deixar rastros. Sem levantar suspeitas. Faça isso, e eu verei em você não apenas meu filho, mas um verdadeiro sucessor."

Fernando sentiu o peso da responsabilidade, mas também a oportunidade única de provar seu valor para o pai. Era a chance que ele esperava há anos. A chance de se livrar da sombra do patriarca e assumir seu lugar de direito.

"E Isabella?", perguntou Fernando, a voz baixa. A mulher que outrora o encantou e que agora era a aliada de Matias. Um nó de ciúme e desejo ainda se formava em seu peito sempre que pensava nela.

D. Rodrigo sorriu novamente, um sorriso que sugeria perigo. "Isabella... ela é um caso à parte. Ela tem seus próprios demônios. E seus próprios aliados inesperados." Ele fez um gesto vago. "Deixe-a por enquanto. Ela é um problema para Matias, e isso me beneficia. Quando o momento for oportuno, nós a resolveremos. Mas por agora, concentre-se nos homens que sustentam o poder dele. Se Matias perder seus pilares, ele cairá. E quando ele cair, você estará pronto para recolher os cacos... e construir algo maior."

Fernando assentiu, sentindo a adrenalina correr em suas veias. A noite, antes sombria, agora parecia tingida de possibilidades. Ele não era mais apenas o filho do Capitão-Mor. Ele era o executor de sua vontade. O caçador de traidores. A sombra do patriarca estava prestes a ganhar vida própria. E o destino de Matias, e de Isabella, estava agora, mais do que nunca, entre as mãos dele. Ele sairia daquela mansão não como um filho hesitante, mas como um predador em busca de sua presa. A vingança de D. Rodrigo de Castel-Branco estava apenas começando.

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