A Conquistadora III

Capítulo 9 — O Jogo das Sombras

por Vitor Monteiro

Capítulo 9 — O Jogo das Sombras

A noite em São Sebastião era um palco de intrigas e segredos. Nas tavernas escuras e esfumaçadas, onde o cheiro de rum e suor se misturava à fumaça de cachimbos, acordos eram selados e traições arquitetadas. Em salões luxuosos de casas nobres, onde a seda e o veludo eram a segunda pele dos convidados, conversas sussurradas teciam redes de influência e poder. E nas sombras dos becos, onde a miséria e o desespero reinavam, a violência se manifestava em silêncio e brutalidade.

Fernando de Castel-Branco, sentindo o peso da missão que seu pai lhe confiara, movia-se com uma destreza recém-descoberta. A adrenalina da caçada era um vício que o consumia, e a cada passo, ele se sentia mais distante do filho inseguro que conhecera. Ele havia cumprido a primeira parte de sua tarefa. O mercador de armas, um homem de fala mansa e sorriso fácil, fora encontrado em um beco sombrio, seu corpo sem vida escondido por uma pilha de caixotes. Ninguém soube quem o atingiu, e a morte foi atribuída a um assalto comum.

Agora, Fernando se encontrava em um salão de jogos clandestino, um antro de vício e corrupção no coração da vila. O local era abafado, iluminado por poucas velas que mal dissipavam a escuridão. O barulho de dados rolando, de cartas sendo viradas e de apostas sendo gritadas criava uma cacofonia que mascarava conversas mais sussurradas. Seu alvo: o padre corrupto, Pe. Mateus, que usava a igreja como fachada para seus negócios ilícitos e para disseminar boatos contra Isabella e seus aliados.

Ele avistou Pe. Mateus em um canto, jogando cartas com um grupo de homens de aspecto duvidoso. O padre, um homem corpulento de face rosada e olhos gananciosos, ria alto, seus gestos exagerados. Fernando se aproximou, disfarçando sua intenção com um sorriso casual.

"Padre Mateus", disse Fernando, colocando a mão no ombro do religioso. "Uma noite de sorte para o senhor, pelo visto."

Pe. Mateus se virou, surpreso por um momento, mas logo abriu um sorriso artificial. "Ah, o jovem Fernando de Castel-Branco! Que surpresa agradável. Junte-se a nós, meu filho. A sorte é uma dádiva divina, não é mesmo?"

"Uma dádiva que parece favorecê-lo muito ultimamente, Padre", respondeu Fernando, sentando-se à mesa. Ele sabia que o padre era ganancioso e facilmente influenciável. "Ouvi dizer que o senhor tem sido um grande conselheiro para muitos, espalhando palavras de sabedoria e... concórdia."

O padre riu, enrubescendo. "Eu apenas sigo a palavra de Deus, meu filho. E tento manter a paz em tempos tão turbulentos."

"Tempos turbulentos, de fato", concordou Fernando, pegando um copo de vinho. "Principalmente quando se fala de certas pessoas... como aquela mulher, Isabella. Dizem que ela é uma herege, uma bruxa que quer roubar nossas terras."

Os olhos de Pe. Mateus brilharam com malícia. "Ah, sim. Uma criatura perigosa. Uma ameaça à fé e à ordem estabelecida. Graças a Deus existem homens como o nosso Capitão-Mor e o nobre Matias que buscam combatê-la."

Fernando sorriu, sentindo o terreno. "O nobre Matias. Um homem de grande visão. Mas, por vezes, até os homens mais fortes precisam de um pouco de... auxílio. De pessoas que entendam dos meandros da corte, dos segredos que podem fortalecer sua causa." Ele fez uma pausa, olhando diretamente nos olhos do padre. "Pessoas que, digamos, sabem como garantir que as informações certas cheguem às mãos certas."

Pe. Mateus ficou em silêncio por um momento, a ganância em seus olhos disputando com a cautela. "E o que o senhor, jovem Fernando, teria a me oferecer em troca de... conselhos?"

"O senhor não precisa oferecer nada, Padre. Eu lhe darei. Ou melhor, meu pai lhe dará. Uma quantia considerável em ouro, para que possa continuar sua obra de caridade. E, quem sabe, um pequeno favor. Um favor de alguém que tem grande influência em Portugal. Alguém que pode garantir que o senhor receba as honras e a posição que merece na igreja."

Os olhos do padre se arregalaram. A perspectiva de riqueza e prestígio era irresistível. "E o que seria este... favor?"

"Simplesmente que o senhor continue a falar. A espalhar a palavra. Mas talvez... com um pouco mais de foco. Talvez direcionando a raiva do povo não apenas contra Isabella, mas contra aqueles que a apoiam. Aqueles que financiam os rebeldes. Aqueles que, digamos, se beneficiam da desordem." Fernando inclinou-se. "Eu estou aqui para garantir que você tenha os nomes. As pessoas certas para culpar. E eu lhe darei os meios para que suas palavras tenham ainda mais peso."

O padre assentiu, já cedendo à tentação. "Eu... eu farei o que puder, meu filho. Para o bem da igreja e da colônia."

"Excelente, Padre. Excelente." Fernando levantou seu copo. "À sua saúde. E à saúde daqueles que sabem a hora de se alinhar com os vencedores."

Enquanto a noite avançava, Fernando se movia para seu próximo alvo: o nobre decadente, D. Afonso. Este, um homem que já fora rico e influente, mas que agora vivia de expedientes e favores, usando seu nome para extorquir dinheiro e garantir posições para seus aliados. Fernando o encontrou em uma casa de ópera, em uma das camarotes mais altos, onde o nobre assistia à peça com um ar de superioridade entediada.

"D. Afonso", disse Fernando, sentando-se ao lado dele sem ser convidado. "Uma noite inspiradora, não é mesmo?"

D. Afonso virou-se, um tanto surpreso pela familiaridade, mas logo exibiu um sorriso afetado. "O jovem Fernando. Sempre com bom gosto, vejo. A arte é o refúgio dos espíritos elevados, não concorda?"

"Sem dúvida, senhor. A arte eleva. Mas também distrai. E distrai, por vezes, de assuntos mais... pragmáticos." Fernando baixou a voz. "Ouvi dizer que o senhor tem sido um grande defensor da ordem e da justiça nesta colônia. Um mediador entre a coroa e o povo."

"Eu faço o que posso, meu caro. Com minha experiência e meu nome, tento guiar os menos afortunados." D. Afonso suspirou dramaticamente. "Mas as dificuldades são muitas. A coroa exige muito, e os desordeiros querem tudo."

"Justamente", disse Fernando. "E para aqueles que buscam a ordem, para aqueles que querem a estabilidade, um pouco de... apoio financeiro é sempre bem-vindo, não é mesmo? Para manter as aparências, para continuar a influenciar aqueles que precisam de ser influenciados."

D. Afonso franziu a testa, desconfiado. "O que exatamente o senhor quer dizer, jovem Fernando?"

"Quero dizer que o senhor tem um nome a zelar. E um estilo de vida a manter. E eu posso garantir que isso seja possível. Meu pai é um homem generoso com aqueles que provam sua lealdade. E nós estamos procurando por lealdade. Pessoas que estejam dispostas a usar sua influência para o benefício da coroa. E para o benefício... do meu pai."

Fernando apresentou uma pequena bolsa de moedas de ouro. "Isto é apenas um adiantamento. Para que o senhor possa sentir o sabor da boa vontade. Em troca, queremos sua ajuda para convencer certas pessoas. Pessoas que se beneficiam da instabilidade. Pessoas que estão do lado errado da história. Queremos que o senhor use sua voz, sua influência, para virar essas pessoas. Ou para isolá-las."

D. Afonso pegou a bolsa, sentindo o peso do ouro em sua mão. Seus olhos brilharam com a promessa de mais. "E quem seriam essas pessoas que ousam desafiar a coroa e a ordem?"

"Em breve, o senhor saberá os nomes", disse Fernando. "Por agora, basta que o senhor esteja preparado. Que o senhor use sua influência para garantir que aqueles que se opõem a nós... percam seus apoiadores. Que fiquem isolados e fracos."

Enquanto a peça continuava, Fernando sabia que havia plantado as sementes da desconfiança e da traição. Ele havia transformado a necessidade e a ganância desses homens em armas contra seus inimigos. Ele era um peão no jogo de seu pai, mas era um peão que aprendia rápido. A noite escura de São Sebastião estava repleta de jogos de sombras, e Fernando de Castel-Branco estava se tornando um mestre em jogá-los.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%