O Tesouro dos Incas
Capítulo 17 — A Travessia do Rio das Almas Perdidas
por Vitor Monteiro
Capítulo 17 — A Travessia do Rio das Almas Perdidas
O amanhecer emoldurou a paisagem andina com uma luz fria e cinzenta, prenunciando um dia de dificuldades. O acampamento, ainda envolto na névoa matinal, parecia um aglomerado de sombras trêmulas. Miguel, envolto em mantas grossas, foi cuidadosamente colocado em uma maca improvisada por dois dos homens de Gabriel. Sua respiração era um fio tênue, mas um vislumbre de esperança se acendeu nos olhos de Sofia quando ele abriu os olhos por um instante, reconhecendo-a.
"Mamãe...", ele sussurrou, a voz rouca como areia.
"Estou aqui, meu amor. Estamos indo para um lugar onde você ficará bom", Sofia respondeu, acariciando seu rosto febril. A viagem para San Lorenzo era uma corrida contra o tempo, uma aposta desesperada pela vida de seu filho.
Gabriel, com o mapa desdobrado nas mãos, apontava para um traçado sinuoso que cruzava a densa vegetação. "O Rio das Almas Perdidas. É a nossa única rota para San Lorenzo. Dizem que é um rio traiçoeiro, com correntes fortes e criaturas que habitam suas profundezas."
O nome em si já causava um arrepio. As lendas locais falavam de viajantes que haviam desaparecido em suas águas turbulentas, levados pela correnteza implacável ou pela fome insaciável de algo que espreitava sob a superfície. Para Sofia, que já havia enfrentado tantos medos, o nome do rio parecia uma afronta, um novo obstáculo na sua jornada contra a desgraça.
Os homens de Gabriel, um grupo de mercenários com rostos endurecidos pela vida dura, trocaram olhares apreensivos. A promessa de ouro parecia cada vez mais distante diante da realidade de enfrentar uma natureza selvagem e imprevisível.
"Don Raúl nos segue", Gabriel anunciou em voz baixa, depois de inspecionar a trilha deixada para trás. "Não temos tempo a perder. Precisamos atravessar o rio antes que ele nos alcance."
A menção do nome de Don Raúl acendeu um lampejo de fúria nos olhos de Sofia. Aquele homem, com sua crueldade calculista, era a personificação de tudo o que ela abominava.
A marcha até o rio foi árdua. A floresta se tornava cada vez mais densa, as árvores imponentes e antigas lançando sombras profundas que pareciam engolir a pouca luz do dia. O ar estava carregado de umidade, um perfume terroso misturado com o odor pungente de plantas desconhecidas. Sons de pássaros exóticos ecoavam entre as árvores, mas também havia um silêncio opressor, um prenúncio de perigo.
Ao chegarem à margem do Rio das Almas Perdidas, Sofia sentiu um aperto no peito. O rio era largo e impetuoso, suas águas de um tom marrom-escuro, carregadas de detritos vegetais e galhos que pareciam garras famintas. A correnteza era visivelmente forte, formando redemoinhos e ondas que batiam contra as margens rochosas com um rugido constante.
"Precisamos de uma balsa", disse Gabriel, avaliando a situação. "Não podemos arriscar atravessar a nado, muito menos com Miguel."
Os homens começaram a procurar troncos adequados, mas a tarefa se mostrava difícil. A madeira na beira do rio era úmida e pesada. Enquanto trabalhavam, um grito ecoou da mata.
"Eles estão aqui!"
Um dos batedores de Gabriel, que havia sido enviado para verificar a retaguarda, surgiu correndo, o rosto pálido de pânico.
"Don Raúl e seus homens! Estão a poucas horas de distância!"
A notícia caiu como uma pedra no estômago de todos. Não havia tempo para construir uma balsa sólida. A única opção era improvisar. Com a urgência ditada pela iminência do ataque, eles reuniram os troncos mais grossos que encontraram, amarrando-os precariamente com cipós e tiras de couro. A estrutura que criaram era precária, mas era tudo o que tinham.
"Sofia, você e Miguel vão na frente, protegidos pelos homens mais fortes", Gabriel ordenou, o tom firme, mas a preocupação em seus olhos era palpável. "Eu e os outros ficaremos para trás para atrasá-los."
"Não!", Sofia exclamou, agarrando o braço dele. "Não vou deixá-lo. Vamos juntos."
"Sofia, esta é a nossa única chance. Se eu puder ganhar algum tempo, vocês terão uma vantagem maior. Confie em mim." Os olhos dele suplicavam por sua compreensão.
O coração de Sofia se partiu. Ver Gabriel disposto a se colocar em perigo para salvá-la e a Miguel era um sacrifício que a esmagava. Mas ela sabia que ele estava certo. O amor que sentia por ele era um fardo tão pesado quanto a esperança.
"Esteja seguro, Gabriel", ela sussurrou, a voz embargada. Ela se virou para os homens designados para protegê-los: dois mercenários robustos, com expressões sombrias, mas que pareciam leais a Gabriel.
Com Miguel aninhado em seus braços, Sofia, acompanhada pelos dois homens, desceu cautelosamente para a água com a balsa improvisada. A correnteza era feroz, tentando arrastá-los para longe. Cada movimento exigia um esforço hercúleo para manter o equilíbrio e a direção. O rio parecia viva, suas águas escuras e frias ameaçando engoli-los.
Do outro lado, Gabriel e os demais mercenários preparavam-se para a emboscada. O som dos disparos ecoou pela floresta, um prelúdio sombrio para a luta que se seguiria. Sofia sentiu um arrepio gelado percorrer sua espinha, mas se concentrou em Miguel, sussurrando palavras de conforto, embora sua própria alma estivesse em turbilhão.
A travessia foi uma agonia. A balsa balançava perigosamente, os troncos rangendo sob a força da água. Em um momento de descuido, um dos mercenários perdeu o equilíbrio, caindo na água turbulenta. Um grito foi abafado pelo rugido do rio. Sofia se desesperou, mas o outro homem conseguiu puxá-la de volta para a segurança da balsa. O terror era palpável.
Enquanto lutavam contra a correnteza, Sofia vislumbrou, por um instante fugaz, algo se movendo sob a água. Uma forma escura e alongada, de tamanho assustador, que deslizava com uma velocidade aterradora. O Rio das Almas Perdidas não estava apenas cheio de correntezas fortes, mas também de criaturas desconhecidas e perigosas. Ela apertou Miguel com mais força, sentindo o corpo frágil do filho tremer.
Finalmente, após o que pareceu uma eternidade, conseguiram alcançar a margem oposta. A exaustão era total, mas o alívio de estarem vivos era imensurável. Sofia olhou para trás, para a outra margem, onde os sons da batalha ainda ecoavam. Ela rezava para que Gabriel estivesse seguro.
Ao se levantarem, cambaleantes, para continuar a marcha, ouviram um grito vindo da floresta. Não era um grito de guerra, mas um grito de desespero. A figura de um dos homens de Gabriel, ferido e cambaleante, emergiu das árvores, carregando consigo um sinal de mau presságio.
"Eles... eles o capturaram", o homem ofegou, desabando no chão. "Don Raúl o capturou. Gabriel..."
As palavras de Sofia morreram em sua garganta. O choque a atingiu com a força de um golpe físico. Gabriel. Capturado. A esperança que a impulsionava parecia se esvair. A travessia do rio, um teste de sua resiliência, agora se tornara o palco de uma tragédia, e o Tesouro dos Incas parecia, de repente, insignificante diante da perda iminente do homem que amava. O rio, com suas águas traiçoeiras e seus segredos sombrios, parecia ter cobrado um preço terrível por sua passagem.