O Duelo dos Nobres III
Capítulo 12 — O Encontro Inesperado no Engenho
por Vitor Monteiro
Capítulo 12 — O Encontro Inesperado no Engenho
O sol da tarde projetava sombras alongadas sobre os campos de cana-de-açúcar de Pernambuco. O cheiro doce e pungente da cana fermentada pairava no ar, misturando-se à poeira que subia dos caminhos batidos. Rodrigo Alencar, montado em seu cavalo zaino, observava a paisagem com um misto de satisfação e apreensão. O engenho "Boa Vista", como o batizara, era sua chance de redenção, um refúgio das intrigas e dos débitos que o haviam assombrado no Rio de Janeiro. A terra era vasta, o trabalho duro, mas a promessa de um futuro digno o impulsionava.
Manuel, o capataz de semblante rude, mas de coração leal, aproximou-se. "Senhor Rodrigo, o carroção com os últimos pertences do Rio chegou. E… recebemos uma visita inesperada."
Um fio de preocupação cruzou o rosto de Rodrigo. No Rio, sua presença era motivo de desconfiança e desdém. Quem poderia estar ali, em pleno sertão pernambucano? "Visita? Quem?"
"Um homem. Diz que é emissário de Dom Sebastião Vasconcelos. Veio de muito longe." Manuel hesitou, o olhar fixo em Rodrigo, como se pudesse decifrar seus pensamentos. "Ele tem um ar… ameaçador, senhor. E disse que tem uma mensagem urgente para o senhor."
Rodrigo sentiu um arrepio. Dom Sebastião. O nome que pairava como uma nuvem negra sobre sua família há gerações. A rivalidade entre Alencar e Vasconcelos era antiga, alimentada por disputas de terras, orgulho ferido e, em última instância, pelo amor de uma mulher que fora o centro do conflito entre as duas famílias no passado. Isabela Vasconcelos. O pensamento dela o atingiu como um golpe.
"Deixe-o esperar na varanda da casa grande," Rodrigo ordenou, a voz firme, tentando mascarar a inquietação. "Vou encontrá-lo em um momento."
Ele desmontou, acariciou o pescoço do cavalo e caminhou em direção à casa grande. A construção, embora rústica, possuía a imponência de tempos passados. A varanda ampla, com seus pilares de madeira, era um convite ao descanso, mas naquele momento, parecia um palco para um confronto iminente. Um homem corpulento, vestido com um traje escuro que destoava do calor tropical, esperava-o, os braços cruzados sobre o peito largo. Seus olhos, frios e calculistas, fixaram-se em Rodrigo assim que ele se aproximou.
"Senhor Rodrigo Alencar?" A voz do homem era grave, com um tom de autoridade que não admitia réplicas.
"Sou eu," Rodrigo respondeu, mantendo o olhar firme. "E o senhor quem é, e o que deseja em minha propriedade?"
"Meu nome é Cícero. Sou um homem de confiança de Dom Sebastião Vasconcelos. E venho com um recado, e uma proposta." Cícero deu um passo à frente, o olhar penetrante. "Dom Sebastião está ciente de seu retorno ao Brasil e de sua presença em Pernambuco. Ele considera sua proximidade com esta região uma afronta. A antiga rixa entre nossas famílias, como o senhor bem sabe, não terminou."
Rodrigo sentiu o sangue ferver. Afronta? Ele estava ali para construir seu futuro, não para reavivar velhas mágoas. "Eu não tenho interesse em reavivar qualquer rixa, senhor Cícero. Vim para trabalhar e viver em paz."
Cícero soltou um riso seco, desprovido de humor. "Paz? Dom Sebastião não conhece essa palavra quando se trata dos Alencar. Ele deseja que o senhor se retire de Pernambuco. Imediatamente. E para isso, ele está disposto a oferecer uma compensação. Uma quantia generosa em ouro para que o senhor recomece seus negócios em terras mais distantes. Terras onde o nome dos Vasconcelos não tenha influência."
A proposta era audaciosa, quase insultuosa. Rodrigo sentiu a raiva borbulhar, mas a manteve sob controle. Ele sabia do poder dos Vasconcelos, mas não se deixaria intimidar. "Agradeço a oferta, senhor Cícero, mas minha decisão está tomada. Este engenho é meu, e pretendo ficar. O ouro de Dom Sebastião não me interessa."
Os olhos de Cícero se estreitaram. "O senhor subestima o poder de Dom Sebastião. Ele não é um homem de propostas amigáveis. Ele deseja distância, e se não obtê-la pacificamente, ele tomará as medidas necessárias."
"Que medidas são essas, senhor Cícero?" Rodrigo perguntou, a voz carregada de desafio.
Cícero sorriu, um sorriso sombrio que não alcançava seus olhos. "Medidas que garantam a honra dos Vasconcelos. Dom Sebastião tem homens leais e dispostos a cumprir suas ordens. E ele não tem medo de sujar as mãos, ou as de outros." Ele deu um passo para trás, como se o aviso fosse suficiente. "Pense bem em minha proposta, senhor Alencar. A alternativa é… desagradável. E a honra é um preço alto demais a se pagar. Especialmente quando se trata de uma dívida antiga."
Cícero se virou e caminhou em direção ao cavalo que o aguardava, deixando Rodrigo sozinho na varanda, o eco de suas palavras ressoando em sua mente. Dívida antiga. Honra. Ele sabia a quem Cícero se referia. Isabela.
Enquanto isso, a quilômetros de distância, na costa alagoana, Isabela Vasconcelos sentia o peso da decisão em seus ombros. A carta de sua mãe a trouxera de volta à realidade, mas o medo de que seu pai pudesse realmente prejudicar Rodrigo a impulsionava a agir. Ela sabia que a rivalidade entre os Vasconcelos e os Alencar era antiga e profundamente enraizada, mas a ideia de seu pai usar métodos violentos a assustava.
De volta ao Rio, em seu suntuoso casarão em Santa Teresa, Dom Sebastião Vasconcelos recebia um homem com um sorriso satisfeito. "E então, Cícero? O que o jovem Alencar disse?"
Cícero, agora em sua própria casa, desfrutava de um copo de vinho, o brilho nos olhos denunciando o prazer com a notícia que trazia. "Ele foi arrogante, senhor. Recusou sua oferta de ouro e disse que pretende ficar em Pernambuco."
Dom Sebastião deu uma gargalhada seca. "Arrogante, é? Ele não aprendeu nada com o passado. Acha que pode desafiar um Vasconcelos? Que tolo. Ele acha que a terra em Pernambuco é um santuário, mas logo descobrirá que minhas influências chegam mais longe do que ele imagina."
"E a moça, senhor? E Dona Isabela?" Cícero perguntou, com uma pitada de curiosidade.
"Isabela é uma ingênua," Dom Sebastião respondeu, a voz fria como gelo. "Ela ainda pensa que pode controlar seus desejos. Mas ela é uma Vasconcelos, e a honra da família está acima de tudo. Se ela acredita que pode se aliar a um Alencar novamente, ela está muito enganada. Ela logo entenderá o seu lugar."
Ele se levantou, caminhando até a janela, observando a cidade que se estendia abaixo. "O Alencar precisa ser expulso de Pernambuco. E se ele não sair por bem, faremos com que ele saia por mal. Prepare seus homens, Cícero. Vamos dar uma lição ao jovem Alencar. Uma lição que ele jamais esquecerá. E se Isabela se colocar no caminho… bem, ela terá que aprender a obedecer à sua família."
O sol começava a se pôr em Pernambuco, pintando o céu de tons alaranjados e roxos. Rodrigo, ainda na varanda da casa grande, observava o horizonte, a preocupação crescendo em seu peito. A ameaça de Cícero não era um mero jogo de intimidação. Ele conhecia a reputação dos Vasconcelos, e sabia que Dom Sebastião não brincava em serviço.
De repente, o som de cascos de cavalo se aproximando o fez levantar a cabeça. Uma figura solitária emergia da poeira, aproximando-se rapidamente. À medida que a figura se tornava mais nítida, Rodrigo sentiu o coração dar um salto. A silhueta elegante, os cabelos escuros que dançavam ao vento… era Isabela.
Ela parou bruscamente a poucos metros dele, o rosto pálido, os olhos arregalados. O tempo pareceu parar. Ali, sob o céu de Pernambuco, seus olhares se cruzaram novamente, carregados de uma mistura de surpresa, dor e uma faísca de algo que o tempo e a distância não conseguiram apagar. O encontro inesperado, sob a sombra do conflito iminente, prometia um turbilhão de emoções e decisões difíceis. O duelo dos nobres estava longe de terminar, e agora, os caminhos de Isabela e Rodrigo se cruzavam novamente, em um cenário de perigo e paixão reavivada.