O Duelo dos Nobres III
Capítulo 14 — A Fúria do Patriarca e a Resistência do Coração
por Vitor Monteiro
Capítulo 14 — A Fúria do Patriarca e a Resistência do Coração
O luar banhava a paisagem pernambucana em um brilho prateado, iluminando os campos de cana-de-açúcar que se estendiam como um mar verde-escuro. Na varanda da casa grande do engenho "Boa Vista", Rodrigo e Isabela permaneciam sentados, o silêncio entre eles preenchido pela complexidade de seus sentimentos e pela gravidade da situação. A presença de Isabela ali, em meio à ameaça de seu próprio pai, era um misto de conforto e apreensão para Rodrigo.
"Eu não imaginei que ele mandaria Cícero tão rápido," Rodrigo disse, quebrando o silêncio. "E agora, sabendo que ele enviou mais homens… eu não posso simplesmente ignorar isso."
Isabela olhou para ele, seus olhos refletindo a luz pálida da lua. "Eu sei. E eu sinto muito por tudo isso, Rodrigo. Se eu soubesse que ele reagiria assim, talvez… talvez eu não tivesse fugido."
"Não diga isso, Isabela," Rodrigo a interrompeu, pegando sua mão. "Você não tem culpa. Seu pai é um homem que se alimenta de orgulho e de controle. Ele nunca aceitou que você escolhesse seu próprio caminho, e muito menos que escolhesse um Alencar." Ele apertou a mão dela. "Você veio aqui para me avisar, e eu agradeço por isso. Mais do que imagina. Sua coragem me inspira."
Um leve rubor coloriu as bochechas de Isabela. "Coragem? Ou imprudência? Não sei mais o que é o quê. Só sei que não posso ficar parada enquanto meu pai tenta destruir você." Ela suspirou. "Ele está obcecado com a ideia de que eu desonrei o nome Vasconcelos. Ele acredita que… que eu ainda o amo. E quer usar isso contra você."
Rodrigo a puxou para mais perto, abraçando-a. O perfume suave de suas flores e a familiaridade de seu abraço o envolveram. "Eu sei o que você sente, Isabela. Ou o que sentia. E eu também não esqueci. Mas agora, nossa prioridade é enfrentar seu pai. Não vou deixar que ele ouse machucar você ou a mim."
"E como faremos isso? Meu pai é um homem poderoso. Seus homens são leais e não hesitam em cumprir suas ordens," Isabela disse, a voz embargada pela preocupação.
"Ele pode ter homens, mas eu tenho esta terra. Tenho trabalhadores leais que acreditam em mim. E tenho você ao meu lado," Rodrigo declarou, sua voz firme, transbordando de uma determinação recém-encontrada. "Não vou ceder a ameaças. Este engenho é meu futuro, e a honra que busco aqui não é a honra vazia de Dom Sebastião, mas a honra de construir algo com dignidade."
Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Dom Sebastião Vasconcelos observava o navio que partia em direção a Pernambuco, seus homens a bordo, prontos para cumprir suas ordens. O sol da manhã, tímido ainda, tentava romper a névoa que pairava sobre a baía.
"Eles sabem o que fazer," disse ele a Cícero, que estava ao seu lado. "Se o Alencar não sair pacificamente, eles o farão sair. E se a minha filha insistir em se intrometer… bem, ela terá que aprender a lição da obediência. A família vem em primeiro lugar, sempre."
"E se ela se recusar a voltar para o Rio, senhor?" Cícero perguntou, cauteloso.
Dom Sebastião franziu o cenho. "Ela é minha filha. Ela me deve obediência. Se ela desafiar minha autoridade, ela se tornará uma estranha para mim. Não permitirei que uma única mulher abale o nome dos Vasconcelos." Seus olhos brilharam com uma fúria fria. "O Alencar precisa ser esmagado. E Isabela precisa entender seu lugar."
De volta a Pernambuco, a noite avançava. Rodrigo e Isabela ainda estavam na varanda, um turbilhão de pensamentos passando por suas mentes.
"Você sabe que não pode ficar aqui para sempre, Isabela," Rodrigo disse suavemente, após um longo silêncio. "Seu pai não vai desistir."
"Eu sei. Mas eu não posso voltar para o Rio agora. Não posso deixá-lo aqui sozinho," ela respondeu, sua voz firme. "Eu preciso estar aqui. Para te ajudar. Para tentar acalmar meu pai, se isso for possível."
"Acalmar meu pai é uma tarefa quase impossível," Rodrigo disse com um sorriso amargo. "Ele está cego pelo orgulho. Mas você tem razão. Precisamos estar juntos. Se ele enviar seus homens, teremos que estar preparados."
Na manhã seguinte, o sol raiou preguiçosamente sobre o engenho. Rodrigo, com Isabela ao seu lado, inspecionava os trabalhadores. Eles precisavam se organizar, se defender. Manuel, o capataz, um homem forte e leal, reuniu os homens.
"Senhores," Manuel disse, sua voz ressoando com autoridade. "O Senhor Rodrigo precisa de nossa ajuda. Há um homem poderoso que quer expulsá-lo desta terra. Mas este engenho é nosso agora. E não vamos permitir que ninguém nos tire de nossas casas."
Um murmúrio de concordância percorreu o grupo. Eles olhavam para Rodrigo com respeito e admiração. Ele havia chegado ali sem nada, mas com trabalho árduo e dignidade, havia conquistado seu lugar, e o deles.
"Eu não peço que lutem por mim," Rodrigo disse, olhando para cada rosto. "Peço que lutem por suas famílias, por seu futuro. Esta terra nos deu uma nova chance. E eu não vou permitir que ninguém a tire de nós."
Enquanto isso, o navio que levava os homens de Dom Sebastião se aproximava da costa pernambucana. Cícero, liderando o grupo, sentia a excitação do confronto. Ele sabia que Dom Sebastião não toleraria a insolência do Alencar.
"A ordem é clara," Cícero disse aos homens. "Precisamos expulsar Rodrigo Alencar desta terra. E se ele resistir… bem, a honra dos Vasconcelos precisa ser defendida."
O sol já estava alto quando os homens de Cícero chegaram ao engenho. A cena que encontraram os surpreendeu. Não era um único homem desprotegido, mas um grupo de trabalhadores organizados, liderados por Rodrigo e Isabela.
Cícero desmontou do cavalo, o olhar fixo em Rodrigo. "Senhor Alencar. Vim com uma proposta final. Dom Sebastião Vasconcelos exige que o senhor se retire de Pernambuco. Ele oferece uma quantia generosa em ouro para que o senhor recomece seus negócios em outro lugar."
Rodrigo deu um passo à frente, com Isabela ao seu lado. "Já disse ao senhor, e repito. Não tenho interesse em seu ouro. Este engenho é meu, e não sairei daqui."
Cícero soltou um sorriso irônico. "O senhor subestima o poder de Dom Sebastião. Ele não é um homem de propostas amigáveis."
"E eu não sou um homem de ceder a ameaças," Rodrigo rebateu, a voz firme.
De repente, Isabela se adiantou, parando entre Rodrigo e Cícero. "Senhor Cícero, por favor. Não precisa haver violência. Meu pai não precisa ir tão longe."
Cícero a olhou com um misto de desdém e surpresa. "Dona Isabela. O senhor Vasconcelos não a autorizou a interferir. Sua lealdade deve ser para com sua família."
"Minha lealdade é para com a justiça," Isabela declarou, sua voz forte e clara. "E eu não vou permitir que meu pai use a violência para conseguir o que quer."
Cícero riu, um som seco e desagradável. "A justiça de Dom Sebastião é a honra dos Vasconcelos. E a honra dele exige que o senhor Alencar saia daqui. Ou então…"
"Ou então o quê?" Rodrigo perguntou, dando um passo à frente, protegendo Isabela. "Vocês vão nos atacar? Vão machucar trabalhadores indefesos?"
"Nossas ordens são claras," Cícero disse, o olhar fixo em Rodrigo. "Dom Sebastião não tolerará mais essa insolência."
A tensão no ar era palpável. Os homens de Cícero, em número superior, começaram a avançar. Rodrigo e seus trabalhadores se prepararam para a defesa. A fúria do patriarca Vasconcelos havia chegado a Pernambuco, mas ele não esperava a resistência feroz de um homem com algo a perder e o coração de uma mulher que se recusava a se curvar. O duelo dos nobres estava prestes a se transformar em um confronto sangrento, e Isabela, no centro dessa tormenta, lutava não apenas por Rodrigo, mas por sua própria liberdade e dignidade.