O Duelo dos Nobres III

Capítulo 15 — O Sussurro da Traição e a Força do Amor

por Vitor Monteiro

Capítulo 15 — O Sussurro da Traição e a Força do Amor

O sol da manhã em Pernambuco era implacável, escaldante sobre a poeira levantada no engenho "Boa Vista". A tensão era quase palpável. Os homens de Dom Sebastião Vasconcelos, liderados por Cícero, formavam um semicírculo ameaçador diante da casa grande, seus rostos impassíveis, suas armas à mostra. Do outro lado, Rodrigo, com Isabela ao seu lado, comandava um grupo de trabalhadores que, embora em menor número e com armas rudimentares, exibiam uma determinação férrea.

"Já lhe disse, Cícero!" Rodrigo gritou, a voz ecoando na vastidão da propriedade. "Este engenho é meu. E não vou permitir que você o tome à força!"

Cícero sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos frios. "O senhor Vasconcelos não brinca em serviço, Alencar. Ele exigiu sua retirada, e se o senhor não acatar, teremos que tomar medidas drásticas."

Isabela deu um passo à frente, seu corpo protegendo instintivamente Rodrigo. "Senhor Cícero, por favor. Não alimente a ira de meu pai. Não há necessidade de violência. Podemos conversar."

Cícero a olhou com um misto de desprezo e algo que se assemelhava a pena. "Dona Isabela, sua lealdade deveria estar com a família Vasconcelos. Dom Sebastião é seu pai. Ele sabe o que é melhor para você e para a honra da família. Esta sua interferência só complica as coisas."

"Minha honra está em não permitir que a violência prevaleça," Isabela retrucou, sua voz firme, apesar da trepidação em seu coração. "E meu amor está com quem demonstra dignidade e caráter, não com quem impõe medo."

As palavras de Isabela atingiram Rodrigo como um bálsamo. Ele olhou para ela, a admiração estampada em seu rosto. Ela estava ali, desafiando seu próprio pai, defendendo o homem que amava e a terra que ele construíra.

Cícero, percebendo que as palavras não surtiriam efeito, fez um gesto com a cabeça para seus homens. "Muito bem. Se o senhor Alencar prefere a força bruta, que assim seja."

Os homens de Cícero começaram a avançar. Os trabalhadores do engenho, liderados por Manuel, o capataz, ergueram suas foices e facões, prontos para a defesa. Rodrigo sacou sua pistola, o metal frio em suas mãos.

"Protejam Isabela!" ele ordenou a Manuel, antes de se virar para enfrentar Cícero.

A luta começou. O clangor do metal contra metal ecoava pelo ar. Gritos de dor e fúria se misturavam ao som da batalha. Rodrigo lutava com a ferocidade de um leão encurralado, defendendo sua terra e a mulher que amava. Ele desarmou um homem, desferiu um golpe rápido em outro, mas o número de adversários era esmagador.

Enquanto a luta se desenrolava, Isabela, em vez de se esconder, pegou um pequeno porrete e se juntou aos trabalhadores mais próximos, defendendo-os com bravura inesperada. Ela não tinha a força de um guerreiro, mas sua determinação era inabalável.

No meio do caos, Cícero avançou diretamente contra Rodrigo. "O senhor Vasconcelos não tolerará sua insolência, Alencar!"

Os dois homens se enfrentaram, a antiga rivalidade entre suas famílias explodindo naquele confronto. Rodrigo era mais ágil, mas Cícero possuía uma força bruta impressionante. Eles trocavam golpes, a poeira subindo ao redor deles.

De repente, um grito ecoou. "Parem! Parem com isso!"

Todos os olhares se voltaram para a estrada que levava ao engenho. Uma carruagem luxuosa, puxada por cavalos negros, adentrava a propriedade, seguida por mais homens armados, mas com uniformes diferentes. À frente, em pé na carruagem, uma figura imponente, com o olhar severo e a vestimenta que denunciava sua alta posição.

Dom Sebastião Vasconcelos.

Ele desceu da carruagem com a agilidade de um homem muito mais jovem, sua presença emanando uma autoridade inquestionável. Seu olhar varreu o campo de batalha, fixando-se em sua filha, que defendia os trabalhadores com uma coragem que o pegou de surpresa.

"Isabela!" ele rugiu, a voz carregada de fúria e decepção. "O que você pensa que está fazendo? Abandonando sua família para defender um… um Alencar?"

Isabela não recuou. Ela encarou o pai, seus olhos brilhando com uma determinação recém-descoberta. "Eu não abandonei ninguém, pai. Eu estou defendendo o que é certo. E defendendo o homem que amo."

As palavras de Isabela atingiram Dom Sebastião como um soco no estômago. Amor? Por um Alencar? Ele nunca imaginaria que sua filha, a herdeira dos Vasconcelos, pudesse ter sentimentos tão profundos por um rival.

Cícero, aproveitando a distração, tentou um golpe traiçoeiro contra Rodrigo. Mas antes que pudesse agir, um dos homens de Dom Sebastião, um soldado com um distintivo que Rodrigo não reconheceu, o deteve com um golpe rápido.

"Um momento, Cícero," disse o soldado, sua voz calma, mas firme. "As ordens de Dom Sebastião são de intervir, não de provocar mais violência."

Dom Sebastião se aproximou de Rodrigo, seus olhos fixos nos dele. O conflito em seu rosto era visível – a fúria pelo desafio, a surpresa pela bravura de sua filha, e talvez, apenas talvez, um vislumbre de respeito pelo homem que ousava desafiá-lo.

"Alencar," Dom Sebastião disse, sua voz grave. "Você desafiou a honra dos Vasconcelos. Você seduziu minha filha e a fez desonrar nossa família."

"Senhor Vasconcelos," Rodrigo respondeu, mantendo o olhar firme, apesar da superioridade numérica e da ameaça latente. "Eu nunca desonrei ninguém. Amei sua filha, sim. E ela me ama. E esta terra que construí com meu suor é meu direito. Não sou um ladrão nem um covarde."

Dom Sebastião olhou para Isabela, que permanecia ao lado de Rodrigo, inabalável. A lealdade de sua filha para com o Alencar era um golpe naquilo que ele mais prezava: a unidade familiar e a reputação.

"Você se recusa a sair, Alencar?" Dom Sebastião perguntou, a voz tensa.

"Não. Eu não saio," Rodrigo respondeu.

Um silêncio carregado pairou no ar. Dom Sebastião encarou Cícero, que parecia confuso com a intervenção.

"Cícero," Dom Sebastião disse, sua voz baixa e gélida. "Você falhou em sua missão. Leve seus homens e retorne ao Rio. Eu cuido disso agora."

Cícero, contrariado, mas ciente da ordem, reuniu seus homens e partiu, lançando um último olhar de ódio para Rodrigo e Isabela.

Dom Sebastião se virou para sua filha. "Isabela. Você se envergonhou. Mas parece que sua escolha foi feita. Não posso mais tolerar essa afronta. Ou você retorna ao Rio comigo e se submete à minha vontade, ou se torna uma estranha para mim."

Isabela olhou para o pai, a dor em seus olhos misturada à firmeza. "Pai, eu te amo. Mas não posso renunciar a quem sou, nem ao homem que amo. Se isso significa me tornar uma estranha para você, que assim seja. Mas eu fico aqui."

Dom Sebastião a encarou por um longo momento, a batalha interna visível em seu rosto. A fúria pela desobediência de sua filha lutava contra o instinto de um pai. Finalmente, ele suspirou, um som de derrota.

"Muito bem," ele disse, sua voz rouca. "Você escolheu seu caminho. Mas não espere meu apoio. Os Vasconcelos não se associam a Alencares."

Ele se virou e entrou na carruagem, sem olhar para trás. O soldado que o acompanhara, no entanto, parou por um instante, olhando para Rodrigo e Isabela com um leve aceno de cabeça, um sinal sutil de algo mais, algo que poderia significar uma possível aliança inesperada, ou talvez, apenas um observador imparcial.

Quando a carruagem partiu, um silêncio pesado se instalou no engenho. A batalha havia terminado, mas a guerra estava longe de acabar. Rodrigo e Isabela se olharam, a exaustão estampada em seus rostos, mas também um novo senso de esperança. Eles haviam enfrentado a fúria do patriarca Vasconcelos e sobrevivido.

"Ele se foi," Isabela sussurrou, as lágrimas escorrendo livremente agora.

"Ele se foi," Rodrigo confirmou, abraçando-a com força. "Mas ele voltará. E nós estaremos prontos."

Eles sabiam que o caminho seria árduo. A traição de Cícero, a fúria de Dom Sebastião, a rivalidade secular entre as famílias – tudo isso pesava sobre eles. Mas naquele momento, sob o sol de Pernambuco, com a terra que Rodrigo construíra como testemunha, a força do amor que os unia era a única certeza que importava. O duelo dos nobres havia se transformado em uma batalha pessoal, e eles, juntos, estavam dispostos a lutar.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%