O Duelo dos Nobres III

O Duelo dos Nobres III

por Vitor Monteiro

O Duelo dos Nobres III

Autor: Vitor Monteiro

Capítulo 16 — O Grito Silencioso da Floresta

O sol, implacável em sua jornada celeste, derramava seus raios quentes sobre a vastidão verdejante da Mata Atlântica, pintando de ouro e esmeralda a exuberante paisagem que se estendia até onde a vista alcançava. O cheiro úmido da terra recém-chovida misturava-se ao perfume adocicado das flores silvestres e ao aroma penetrante das folhas em decomposição, compondo uma sinfonia olfativa que apenas a floresta sabia orquestrar. Mas, para Isabela, aquele paraíso natural era agora um palco de angústia e apreensão. Cada farfalhar de folhas, cada canto de pássaro, cada sombra que se movia entre as árvores parecia um prenúncio de desgraça.

Enquanto se embrenhava mais fundo na mata, escoltada apenas por um dos mais leais escravos de sua família, o jovem e robusto Benício, Isabela sentia o peso do mundo sobre seus ombros. A notícia da ascensão de seu pai, o temido Coronel Amaro, a uma posição de ainda maior poder dentro da corte portuguesa era um golpe devastador. Não era a ambição do pai que a afligia, mas a forma como ele a utilizava como peão em seu jogo de poder, trocando-a, como se fosse uma mercadoria valiosa, por alianças e privilégios. E o preço dessa ascensão, ela sabia, seria seu próprio destino, selado pelo casamento com o visconde cruel e manipulador, que a olhava como um troféu a ser exibido, não como uma mulher a ser amada.

O visconde. A simples menção mental do nome era suficiente para gelá-la até os ossos. Seu olhar insidioso, seus sorrisos calculistas, a maneira como suas mãos calejadas pareciam querer possuir tudo o que tocavam – tudo nele a repelia com uma violência quase física. E agora, com o poder de seu pai ampliado, ele se sentia ainda mais seguro em seus planos, mais confiante em sua vitória.

"Dona Isabela, a senhorita está pálida como o lírio", Benício disse, sua voz grave e protetora, interrompendo os pensamentos sombrios que a assombravam. Ele se moveu com a agilidade de um felino, seus olhos atentos varrendo os arredores. "O sol está forte. Talvez devêssemos procurar a sombra de uma árvore maior."

Isabela assentiu, a garganta seca. "Benício, você tem certeza de que ninguém nos seguiu?" Sua voz era um sussurro, quase inaudível na imensidão da floresta.

"Tenho a certeza que posso ter, sinhá. Meus olhos viram o sol nascer e se pôr por muitos anos nesta terra. Sei quem anda pelas trilhas e quem se esconde. Nenhum dos homens do visconde se atreveu a vir tão longe. Eles temem a floresta tanto quanto temem o senhor de engenho que a defende."

O "senhor de engenho" a que Benício se referia era, claro, João Pedro, o homem que se tornara o centro de seu universo, a única esperança em meio à escuridão que a cercava. Sua imagem, forte e decidida, com os olhos que prometiam paixão e proteção, era um bálsamo para sua alma atormentada. Ela se lembrava de seu último encontro, sob o véu estrelado da noite, o beijo que selou seus corações em um pacto silencioso, desafiando as convenções e os poderes que tentavam separá-los.

"E o senhor de engenho?", Isabela perguntou, a voz embargada pela emoção. "Ele sabe do que meu pai fez?"

Benício hesitou por um momento, seu olhar fixo em uma trilha sinuosa que se perdia entre árvores centenárias. "Ele sabe que a senhorita correu perigo. Ele sabe que o visconde quer o seu mal. Mas o que o Coronel Amaro tramou em Lisboa... isso é algo que nem mesmo os olhos mais atentos puderam ver."

A menção de Lisboa fez Isabela tremer. A capital do reino, um lugar de intrigas e ambições desmedidas, onde seu pai se movia com a astúcia de uma serpente. Ela sabia que a ascensão dele não era fruto do acaso, mas de negociações sombrias, de promessas feitas e talvez de traições cometidas. E ela era apenas mais uma peça nesse tabuleiro de xadrez real.

"Precisamos ir para a fazenda de João Pedro", Isabela declarou, a voz ganhando um tom de urgência. "Ele é o único que pode me proteger agora."

"A fazenda está longe, sinhá", Benício ponderou, consultando o sol que começava a baixar no horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados e rosados. "E a noite na floresta pode ser perigosa. Há animais selvagens e, mais perigoso ainda, homens sem honra que se aproveitam da escuridão."

"Não tenho medo, Benício. O medo que sinto de meu pai e do visconde é muito maior do que qualquer perigo que a noite possa trazer. Eu confio em você, e confio em João Pedro. Ele não me deixará cair nas mãos deles."

Benício percebeu a determinação inabalável nos olhos de Isabela. A jovem que ele vira crescer, de menina travessa a mulher apaixonada, possuía uma força interior que o surpreendia a cada dia. Ele sabia que, apesar de sua delicadeza aparente, havia nela um espírito indomável, capaz de desafiar as leis e os homens mais poderosos.

"Sim, sinhá", ele respondeu, com um nó na garganta. "Seguiremos para a fazenda dele. Que Deus nos guie por este caminho."

E assim, sob a luz crepuscular que filtrava pela copa das árvores, Isabela e Benício adentraram a floresta, seguindo um caminho sinuoso que os levaria para longe do perigo iminente, mas também para um futuro incerto. Cada passo era um ato de fé, um grito silencioso contra a opressão, um ato de amor que desafiava a própria morte. A floresta, testemunha de seus medos e esperanças, os envolvia em seu abraço místico, guardando seus segredos e guiando seus destinos. A noite caía, e com ela, novas batalhas estavam prestes a serem travadas, não apenas nos campos de batalha, mas nos corações daqueles que ousavam amar em tempos de guerra.

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