A Rainha das Índias III
A Rainha das Índias III
por Caio Borges
A Rainha das Índias III
Autor: Caio Borges
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Capítulo 1 — O Chamado da Conquista Escarlate
O sol implacável do Nordeste beijava a terra com uma intensidade que parecia queimar até a alma. Em Pernambuco, a terra vermelha, outrora o coração pulsante da cana-de-açúcar, agora chorava com a escassez e a incerteza. No engenho Olinda Dourada, a herança de dona Isabel de Albuquerque, a Rainha das Índias, era um fardo pesado e um farol de esperança em igual medida. As notícias que chegavam do Velho Continente eram um turbilhão de intrigas, promessas e ameaças. A Coroa Portuguesa, enfraquecida e dividida, olhava para suas colônias com um misto de desespero e ambição. E no centro de tudo isso, uma mulher forjada na adversidade, com a força de um furacão e a beleza enigmática de uma sereia do Atlântico, estava prestes a ser chamada de volta ao palco principal de seus triunfos e tormentos.
Dona Isabel, aos seus quarenta e poucos anos, ainda exibia uma beleza que desafiava o tempo e a dureza da vida em terras tropicais. Seus cabelos, outrora negros como a noite, agora pontilhados de fios prateados como a espuma do mar, eram presos em um coque elaborado, mas sempre com algumas mechas rebeldes escapando para emoldurar um rosto marcado por rugas finas de preocupação e riso. Seus olhos, de um verde profundo e penetrante, guardavam a sabedoria de quem vira impérios nascerem e caírem, de quem aprendera a arte da diplomacia nas cortes mais traiçoeiras e a arte da sobrevivência no coração selvagem do Brasil.
Sentada em sua varanda de madeira escura, com vista para os canaviais que se estendiam até onde a vista alcançava, ela observava o movimento dos escravos que trabalhavam com a diligência imposta pela necessidade. O cheiro doce e pesado do melaço pairava no ar, um lembrete constante da riqueza que o engenho um dia produziu, e que agora lutava para sustentar. Uma carta selada com o brasão real repousava em suas mãos. O pergaminho, amarelado pelo tempo e pelo transporte marítimo, emanava um ar de urgência.
"Senhora," a voz grave de Manuel, seu fiel capataz, a tirou de seus devaneios. Ele se aproximou com o respeito que a cercava, mas sem a subserviência que ela detestava. Manuel era um homem forte, de pele curtida pelo sol e olhar sagaz, que vira em dona Isabel uma líder justa e implacável.
"Manuel," ela respondeu, sua voz carregada de uma melancolia que contrastava com a firmeza habitual. "A Coroa me chama."
Ele a olhou com apreensão. "Para onde, senhora? O reino precisa de sua sabedoria aqui, mais do que nunca."
"Para Lisboa," ela disse, o tom baixo, quase um sussurro. "Dizem que a situação é... delicada. A Espanha continua a cobiçar nossas terras, e os holandeses... ah, os holandeses são uma ameaça que não podemos subestimar." Ela apertou a carta em suas mãos, os nós dos dedos brancos. "Parece que a Rainha D. Luísa me quer por perto. Para aconselhar, para... comandar, talvez."
Um suspiro escapou de Manuel. Ele sabia o que aquilo significava. A vida de dona Isabel era tecida com fios de poder e perigo. Ela fora uma das maiores artífices da expansão portuguesa nas Índias, uma mulher que navegara por mares traiçoeiros e reinos exóticos, que conquistara a confiança de sultões e a lealdade de guerreiros. Mas essa fama também a tornara um alvo.
"Lisboa," ele murmurou, com um gosto amargo. "Aquela cidade de pedra e fumaça. Não se parece em nada com o nosso sol e a nossa terra."
Dona Isabel sorriu, um sorriso triste e resignado. "O meu lugar, Manuel, parece estar sempre onde a luta é mais acirrada. Seja nas selvas da Índia, seja nas cortes da Europa, ou aqui, defendendo o que é nosso." Ela se levantou, caminhando até a beirada da varanda e contemplando o horizonte. "O Brasil me deu muito. Me ensinou a amar esta terra. Mas as minhas origens, a minha vida, estão ligadas a outro lugar."
O peso da responsabilidade parecia esmagá-la. Ela era a guardiã de um legado, a protetora de um povo que, em sua maioria, era formado por escravos que trabalhavam em condições desumanas. Ela lutava para manter o engenho funcionando, para alimentar aqueles que dela dependiam, mas a ameaça externa e a instabilidade política em Portugal exigiam sua atenção total.
"E o jovem Dom Sebastião?", perguntou Manuel, referindo-se ao filho de dona Isabel, um rapaz de dezessete anos que crescia sob a sua tutela, herdando a beleza do pai e a força da mãe, mas ainda imaturo para as responsabilidades que o aguardavam.
Um lampejo de preocupação atravessou os olhos de dona Isabel. "Ele fica. Sob a sua guarda e a de Dona Helena. Precisa aprender a governar esta terra. Precisa se preparar." Ela olhou para Manuel com uma seriedade que o fez sentir o peso da sua confiança. "Ele é o futuro deste engenho, Manuel. E talvez, um dia, o futuro deste pedaço de Brasil."
Naquele momento, um garoto correndo chegou, ofegante, com outra missiva nas mãos. Era um mensageiro de Recife. Dona Isabel pegou o envelope, sentindo um arrepio na espinha. Aquele não era o selo real. Era algo diferente, algo mais pessoal. Ela o abriu com cuidado. A letra era elegante, mas apressada.
"É de D. Francisco," ela disse, o nome saindo com um misto de surpresa e relutância. D. Francisco de Almeida, o homem que fora seu amor ardente e seu maior tormento. O homem que a deixara para trás em busca de glória nas Índias, e que agora parecia ter retornado ao Brasil.
Manuel percebeu a mudança em seu semblante. "O que ele diz, senhora?"
Dona Isabel leu em silêncio por alguns instantes, seus olhos percorrendo as linhas com uma mistura de emoção contida. Um leve rubor subiu por suas faces. "Ele... ele está em Salvador. Diz que tem notícias importantes sobre a Espanha e... sobre o futuro." Ela levantou os olhos, encarando o horizonte com uma nova intensidade. "E pede para que eu o encontre. Em segredo."
Manuel franziu a testa. "D. Francisco? Depois de tanto tempo?"
"Sim," ela respondeu, sua voz soando um pouco mais forte agora. "Parece que o passado, como um rio caudaloso, insiste em voltar a desaguar." Ela dobrou a carta e a guardou em seu vestido. "Manuel, prepare uma pequena comitiva. Apenas o essencial. Vou para Salvador."
"Salvador? Mas a sua partida para Lisboa..."
"A Coroa terá que esperar um pouco mais," ela o interrompeu, um brilho de determinação nos olhos. "Há assuntos em terra que precisam ser resolvidos antes. Assuntos que só D. Francisco e eu podemos discutir." Ela olhou para os canaviais, para o sol que começava a se pôr, pintando o céu de tons escarlates e dourados. "A conquista escarlate de que ele fala... talvez não seja apenas uma metáfora."
Ela sentiu a velha chama reacender em seu peito. Uma mistura de apreensão e excitação. D. Francisco. O homem que roubara seu coração e a deixara com a alma em frangalhos. Ele voltava? E com que intenções? A Rainha das Índias, acostumada a governar impérios, sentiu-se pela primeira vez, como uma jovem novamente, com o coração batendo descompassado por um amor antigo, um amor que prometia tanto perigo quanto paixão.
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