A Rainha das Índias III

Capítulo 2 — Sombras em Salvador

por Caio Borges

Capítulo 2 — Sombras em Salvador

Salvador, a primeira capital do Brasil, pulsava com a energia vibrante e caótica de um porto em expansão. O cheiro salgado do mar se misturava ao aroma exótico das especiarias, ao suor dos estivadores e ao perfume adocicado das flores tropicais. Em meio a essa sinfonia de aromas e sons, dona Isabel de Albuquerque desembarcou, escoltada por um pequeno grupo de homens leais, seus rostos impassíveis contrastando com a exuberância da cidade.

Ela se dirigiu para uma estalagem discreta, recomendada por um contato de confiança. As ruas de paralelepípedos estavam repletas de gente: mercadores de diversas nacionalidades, soldados em uniformes desgastados, escravos carregando fardos pesados, freiras em seus hábitos e nobres em vestes finas. A cidade era um caldeirão de culturas e ambições, um reflexo fiel do império em construção.

Dona Isabel, ainda vestida com as roupas de viagem, mantinha uma postura altiva, seus olhos verdes perscrutando a multidão com a agudeza de quem procura um fantasma. D. Francisco de Almeida. O nome reverberava em sua mente, trazendo à tona memórias de um amor ardente, de promessas quebradas e de uma saudade que o tempo, por mais que tentasse, não conseguia apagar.

Ao chegar à estalagem, foi recebida por um homem de aparência robusta, com barba grisalha e olhos atentos. Era o proprietário, um homem chamado Bartolomeu, conhecido por sua discrição e lealdade a quem pagasse bem.

"Dona Isabel de Albuquerque," ele disse, inclinando a cabeça com reverência. "É uma honra recebê-la. O seu aposento está preparado. E o seu... convidado, já aguarda."

Um arrepio percorreu a espinha de dona Isabel. "Ele já chegou?"

"Há algumas horas, senhora. Parece impaciente." Bartolomeu conduziu-a por um corredor estreito e sombrio até uma porta nos fundos, que levava a um pequeno jardim interno, um oásis de tranquilidade em meio ao burburinho da cidade.

Ao abrir a porta, ela o viu. D. Francisco de Almeida. Ele estava mais velho, os cabelos escuros agora com fios de prata nas têmporas, mas a mesma postura altiva e o mesmo olhar penetrante que ela nunca esquecera. Havia uma cicatriz fina cruzando sua sobrancelha esquerda, uma marca de batalhas que ela não conhecera. Ele estava bebendo vinho, um copo na mão, observando a entrada com uma expressão tensa.

Seus olhares se cruzaram. O tempo pareceu parar. A atmosfera carregada de segredos e ressentimentos se dissipou, substituída por uma corrente elétrica de emoção.

"Isabel," ele disse, sua voz grave e rouca, carregada de uma emoção que ele tentava disfarçar.

Ela deu um passo à frente, o coração batendo como um tambor selvagem. "Francisco."

Ele se aproximou, hesitando por um momento antes de estender a mão. Ela a pegou, sentindo a familiar aspereza de sua pele. Era um toque carregado de história, de amor e de dor.

"Você veio," ele disse, um sorriso irônico surgindo em seus lábios.

"Sua carta me intrigou," ela respondeu, tentando manter a compostura. "Dizer que tem notícias sobre a Espanha e o 'futuro'..."

Ele a puxou para um abraço inesperado, apertando-a com a força de quem teme perder algo precioso. Dona Isabel, por um instante, permitiu-se ser envolvida por aquela força, sentindo o cheiro familiar de couro e de mar que emanava dele. Era um abraço que falava de anos de ausência, de saudade reprimida.

"O futuro, Isabel," ele sussurrou em seu ouvido, sua voz embargada. "É o que me trouxe de volta. E o que pode nos custar tudo."

Ele a afastou suavemente, mas seus olhos não deixaram os dela. "Sente-se. Precisamos conversar. Longe dos ouvidos curiosos."

Eles se sentaram em um banco rústico de pedra, sob a sombra de uma mangueira frondosa. A luz filtrada pelas folhas criava um jogo de sombras em seus rostos.

"Conte-me," dona Isabel pediu, sua voz firme, mas com um toque de apreensão. "O que está acontecendo?"

D. Francisco tomou um gole de vinho, parecendo ponderar suas palavras. "A Espanha, Isabel. Eles não estão apenas cobiçando o Brasil. Eles estão tramando. Uma aliança com potências europeias descontentes com Portugal. O objetivo é claro: tomar as colônias, enfraquecer a Coroa e reaver o que eles consideram 'seus' por direito histórico."

Dona Isabel arregalou os olhos. "Uma aliança? Com quem?"

"Com os franceses, com alguns príncipes alemães. E, o mais preocupante, eles têm contatos dentro da própria corte portuguesa, traidores que vendem informações por ouro."

"Isso é grave, Francisco. E você sabe disso por quê?"

Ele a encarou com seriedade. "Eu estive nas Índias, Isabel. Vi de perto a astúcia dos nossos inimigos. E aqui, em Salvador, tenho minhas próprias fontes. Pessoas que me devem favores, que me alertaram sobre movimentações suspeitas. Navios de guerra espanhóis têm sido avistados em águas próximas à costa, disfarçados de mercadores. Há planos para invadir Salvador, Pernambuco... e depois avançar para o Rio de Janeiro."

Dona Isabel sentiu um frio na espinha. A ameaça era real. A Coroa portuguesa, fragilizada pela crise de sucessão e pelas intrigas políticas, parecia cega para o perigo iminente.

"Por que você não alertou a Coroa diretamente, Francisco?" ela perguntou, desconfiada.

Ele soltou uma risada amarga. "E quem me ouviria, Isabel? Eu sou um homem que caiu em desgraça. Que passou anos longe, buscando redenção em terras distantes. Eles me chamariam de louco, ou pior, de mentiroso." Ele olhou para ela, seus olhos cheios de uma intensidade que a fez estremecer. "Mas você, Isabel... você é a Rainha das Índias. Sua palavra tem peso. Sua influência na corte é inegável. Se você puder convencer a Rainha D. Luísa, talvez possamos evitar o desastre."

Ela o observou atentamente. Havia algo em seus olhos que a intrigava. Uma urgência que ia além da preocupação com o império. "E por que você me procurou, Francisco? Por que não a Rainha diretamente?"

Ele hesitou, seus olhos desviando por um momento. "Porque o que está em jogo é mais do que apenas o Brasil, Isabel. Há um plano maior, uma conspiração que vai além da expansão espanhola. Algo que afeta diretamente a sua posição... e a minha."

Ele se inclinou para mais perto, baixando a voz. "Estão dizendo que D. Sebastião, o nosso jovem rei, não é o verdadeiro herdeiro. Que ele foi substituído, ou que sua linhagem é duvidosa. E que, em caso de sua morte ou incapacidade, a Coroa deveria recair sobre uma linhagem mais 'legítima'."

Dona Isabel sentiu o sangue gelar. Aquilo era um absurdo. Uma heresia. "Isso é loucura, Francisco. D. Sebastião é o rei."

"Por enquanto," ele disse, a voz sombria. "Mas há forças poderosas trabalhando para mudar isso. Forças que se beneficiariam da sua queda, Isabel, pois você representa a estabilidade e a força que eles querem destruir. E o meu retorno, a minha conexão com você... isso pode ser usado contra nós."

Ela o encarou, tentando decifrar a verdade por trás de suas palavras. "Você voltou para me proteger? Ou para me usar?"

Um sorriso lento e sedutor surgiu em seus lábios. "Isabel, você sabe que eu nunca fui bom em separar meus sentimentos dos meus interesses. Mas desta vez, nossos interesses estão entrelaçados. Se a Espanha tomar o Brasil, se a Coroa for abalada por essa conspiração, ambos seremos arruinados." Ele estendeu a mão e acariciou seu rosto, um toque que ela sentiu em cada fibra de seu ser. "Eu voltei para você. Para o que tivemos. E para o que podemos ter novamente."

Aquele toque, aquela proximidade, reacendeu nela a chama do desejo, mas também a desconfiança. D. Francisco era um mestre em jogos de poder, e ela sabia que ele nunca agia sem um plano.

"Você fala de nos proteger, mas me traz aqui, para um encontro secreto, em uma cidade onde seus inimigos podem estar à espreita. Isso é mais um jogo, Francisco?"

"É a realidade, Isabel. O mundo lá fora é perigoso. E os nossos inimigos são astutos. Precisamos ser discretos. Precisamos confiar um no outro, como antes."

Ela suspirou, sentindo-se dividida entre a razão e a emoção. A ameaça era real, e Francisco, apesar de seus passados tormentos, era um homem experiente e com contatos. Talvez ele fosse a única pessoa que pudesse ajudá-la a desvendar essa teia de intrigas.

"Eu irei a Lisboa," ela disse, sua voz firme. "E levarei suas advertências à Rainha. Mas você, Francisco, precisa me dar provas. Algo concreto para que ela acredite em mim."

Um brilho de satisfação cruzou os olhos dele. "Tenho algo. Mapas, cartas interceptadas. Provas da movimentação espanhola. E nomes de alguns dos traidores em Portugal." Ele a olhou com intensidade. "Mas a sua presença em Lisboa é crucial. Eles a temem, Isabel. E se ela puder contar com você, com a sua lealdade... talvez possamos reverter a maré."

Ele pegou a mão dela novamente, apertando-a com força. "E depois, Isabel... depois que salvarmos o reino... podemos pensar em nós."

A promessa pairou no ar, carregada de paixão e de perigo. Dona Isabel sentiu o coração apertar. O amor que ela pensara ter enterrado ressurgira, mas agora estava envolto em sombras e conspirações. A Rainha das Índias, acostumada a navegar pelas águas traiçoeiras do poder, estava prestes a se lançar em um mar ainda mais perigoso: o mar de um amor antigo, que prometia tanto a salvação quanto a ruína.

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