A Rainha das Índias III
Capítulo 3 — A Sombra do Rei Ausente
por Caio Borges
Capítulo 3 — A Sombra do Rei Ausente
A viagem de volta para Pernambuco foi marcada por uma tempestade que se refletia no ânimo de dona Isabel. As palavras de D. Francisco ecoavam em sua mente, um coro de ameaças e promessas que a deixavam em um estado de permanente alerta. A Espanha, a aliança europeia, a conspiração contra D. Sebastião... tudo parecia um pesadelo complexo, cujos fios se entrelaçavam de forma perigosa.
Ao chegar ao engenho Olinda Dourada, o cenário familiar a envolveu com um conforto estranho. O cheiro de melaço, o canto dos pássaros, a vastidão verde dos canaviais – tudo parecia um refúgio seguro. Mas a calma era apenas superficial. A carta da Rainha D. Luísa, aguardando-a em sua escrivaninha, era um lembrete constante da urgência de sua missão em Lisboa.
Dona Helena, sua tia e companheira fiel, a recebeu com um abraço apertado. Uma mulher de cabelos brancos e olhar bondoso, Helena era o pilar de serenidade em meio à agitação de Isabel.
"Você voltou, minha querida," disse Helena, seus olhos demonstrando alívio e preocupação. "Parece que trouxe o peso do mundo em suas costas."
"E talvez eu tenha trazido, tia," respondeu Isabel, sentando-se em sua poltrona favorita. "Francisco me procurou. Em Salvador."
Helena a olhou com surpresa e um toque de apreensão. "Francisco? Depois de tantos anos?"
"Sim. E ele me trouxe notícias terríveis. Sobre a Espanha, e sobre a corte." Isabel contou a Helena tudo o que ouvira, desde a aliança com potências europeias até a insidiosa conspiração contra a sucessão de D. Sebastião. A cada palavra, a expressão de Helena tornava-se mais sombria.
"É inacreditável," Helena murmurou, as mãos entrelaçadas. "Que alguém ousasse tramitar contra o rei, e ainda mais, contra a Coroa Portuguesa."
"É o que Francisco diz. E ele me deu provas. Cartas, mapas. Coisas que eu preciso levar para Lisboa." Isabel suspirou. "Mas o mais perturbador é a possibilidade de que a Espanha aproveite essa instabilidade para atacar o Brasil. Eles cobiçam estas terras, e sabem que Portugal está vulnerável."
"E o que faremos, Isabel? Você precisa ir para Lisboa o mais rápido possível."
"Sim. Mas antes, preciso garantir que tudo aqui esteja em ordem. Que Dom Sebastião, o meu filho, esteja seguro e preparado."
O jovem Dom Sebastião, com seus dezessete anos, era um turbilhão de energia e ambição. Lindo como o pai, com os olhos azuis da família real e os cabelos louros que o distinguiam na pele morena dos brasileiros, ele era um espírito livre, apaixonado pela caça, pela equitação e pelos contos de cavalaria. Mas a responsabilidade de governar um engenho, de lidar com a complexidade da administração e a realidade da escravidão, ainda era algo distante para ele.
Isabel o encontrou no pátio, treinando com a espada contra um tronco de árvore, sua testa franzida em concentração. Ele era ágil e forte, mas a sua arte era mais um jogo do que uma prática séria.
"Sebastião," ela o chamou, sua voz firme.
Ele se virou, um sorriso radiante iluminando seu rosto. "Mãe! Que bom vê-la. Estava treinando para ser um grande guerreiro, como nos livros!"
Isabel sorriu, um misto de orgulho e preocupação. "Você já é um grande guerreiro, meu filho. Mas a guerra, às vezes, exige mais do que habilidade com a espada."
Ela se aproximou, colocando as mãos em seus ombros. "Preciso ir a Lisboa, Sebastião. A Rainha D. Luísa me chama. Há assuntos de estado que exigem minha presença."
O rosto de Sebastião caiu. "Ir para Lisboa? Mas você acabou de voltar!"
"Eu sei, meu amor. Mas é um dever que não posso ignorar. E você, enquanto isso, ficará aqui. Sob a guarda de sua tia Helena e de Manuel."
"Mas mãe, eu posso ir com você!" ele implorou, os olhos brilhando de esperança. "Eu quero ver Lisboa! Quero conhecer a corte!"
"Não, Sebastião. Este engenho precisa de você. Esta terra precisa de você. Você é o herdeiro de tudo isso. Precisa aprender a administrar, a cuidar das pessoas que dependem de nós." Ela o olhou com seriedade. "Você é jovem, e o mundo é complexo. Precisa de tempo para crescer, para aprender. Lisboa, neste momento, é um ninho de serpentes. Não é um lugar para um rapaz de sua idade."
Sebastião baixou a cabeça, resignado. Ele amava sua mãe, mas sentia uma frustração crescente com as limitações impostas a ele. Queria provar seu valor, queria ser mais do que apenas o filho da Rainha das Índias.
"Eu entendo, mãe," ele disse, sua voz baixa. "Eu cuidarei do engenho. Farei o meu melhor."
Isabel o abraçou forte. "Eu sei que fará. E quando eu voltar, conversaremos sobre o seu futuro. Sobre as suas aspirações."
De volta à sua escrivaninha, Isabel releu a carta da Rainha. D. Luísa, uma mulher de fé profunda e de temperamento forte, estava preocupada com a instabilidade política e com a crescente influência espanhola. Ela pedia o retorno de Isabel para que pudessem juntas traçar estratégias para proteger o império. Havia uma urgência velada nas palavras da Rainha, uma preocupação que ia além da diplomacia formal.
Isabel sabia que precisava ser rápida. A viagem para Lisboa era longa e perigosa. E o tempo que D. Francisco lhe dera para agir era escasso. Ela precisava convencer a Rainha, apresentar as provas de Francisco e, ao mesmo tempo, defender o Brasil de uma possível investida espanhola.
Naquela noite, enquanto o luar banhava os canaviais em um brilho prateado, Isabel reuniu Manuel e Helena em sua biblioteca. A sala, forrada de livros antigos e mapas, era seu santuário.
"Precisamos nos preparar," ela disse, sua voz firme. "A ameaça é real. A Espanha pode atacar a qualquer momento. Precisamos fortalecer as defesas de Pernambuco. E precisamos estar atentos a qualquer movimento suspeito na costa."
Manuel, o fiel capataz, assentiu com seriedade. "Farei o que for preciso, senhora. Mobilizarei os homens, reforçaremos as fortificações. Não deixaremos que os estrangeiros ponham os pés em nossa terra."
Helena, com sua sabedoria serena, acrescentou: "E eu cuidarei de Sebastião, Isabel. Ele aprenderá o que precisa aprender. E eu o manterei seguro."
Isabel olhou para eles, sentindo uma profunda gratidão. Eram a sua família, o seu porto seguro. Mas a responsabilidade que recaía sobre seus ombros era imensa. Ela era a Rainha das Índias, a protetora de um vasto império, e agora, a guardiã de um segredo perigoso que poderia abalar as fundações de Portugal.
Ela pegou uma das cartas que Francisco lhe dera. Era de um nobre português, escrevendo para um emissário espanhol, detalhando a fraqueza das defesas da colônia e propondo um plano de invasão. Os nomes nela citados eram de figuras proeminentes na corte, pessoas que ela conhecia, em quem confiara. A traição, como uma praga, se espalhava pelas entranhas do reino.
"O rei, D. Sebastião," ela murmurou, pensativa. "Dizem que ele é um rei forte, um futuro conquistador. Mas se ele for o alvo dessa conspiração... o que acontecerá com Portugal?"
Helena se aproximou e colocou a mão em seu ombro. "Você fará o que for preciso, Isabel. Você sempre fez. Sua força e sua inteligência nos guiarão."
Isabel assentiu, determinada. A Rainha das Índias estava prestes a embarcar em sua mais perigosa jornada. Uma viagem que a levaria de volta a Lisboa, para enfrentar as sombras do rei ausente e as conspirações que ameaçavam destruir tudo o que ela construíra. O destino de Portugal, e do Brasil, estava agora em suas mãos. E ela não vacilaria.
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