A Rainha das Índias III

Capítulo 5 — O Encontro Proibido

por Caio Borges

Capítulo 5 — O Encontro Proibido

A noite em Lisboa caíra como um manto pesado e escuro, tingindo as ruas de uma penumbra que parecia abrigar todos os segredos da cidade. Em um beco estreito e esquecido, longe dos olhares curiosos e das patrulhas da guarda, um encontro clandestino estava prestes a acontecer. Dona Isabel de Albuquerque, sob o véu da escuridão e disfarçada com um manto escuro, esperava com o coração em disparada. A missiva de D. Francisco, recebida naquela manhã, lhe dera as coordenadas: um velho armazém abandonado perto do rio Tejo, um lugar conhecido por seu silêncio e pela falta de movimento.

O eco de seus próprios passos na pedra molhada parecia amplificar a tensão que a envolvia. Ela sentia o cheiro salgado do rio, misturado ao odor rançoso de peixe e de dejetos. Aquele não era o ambiente da corte, nem o ar puro de Pernambuco. Era um lugar onde a podridão se escondia, onde a sujeira se acumulava.

Ao se aproximar do armazém, avistou uma figura solitária parada na entrada, a silhueta recortada contra a pouca luz que filtrava das janelas sujas. Era ele. D. Francisco de Almeida.

Ela hesitou por um instante, o passado e o presente se chocando em sua mente. Anos de ausência, de mágoas, de amores não ditos. E agora, o perigo iminente que os unia novamente.

"Francisco," ela chamou, sua voz um sussurro rouco.

Ele se virou, e a pouca luz revelou o seu rosto. Havia uma expressão de cansaço, mas também de uma determinação feroz em seus olhos. A cicatriz em sua sobrancelha parecia ainda mais marcada na penumbra.

"Isabel," ele respondeu, sua voz grave carregada de emoção. Ele se aproximou, e a distância entre eles diminuiu, carregada de uma eletricidade palpável. "Você veio."

"Eu disse que viria," ela respondeu, tentando manter a compostura. "E trouxe as provas que você pediu. O que mais você descobriu?"

Ele a puxou para dentro do armazém, a porta pesada rangendo em protesto. O interior era sombrio e empoeirado, com caixas velhas empilhadas e teias de aranha cobrindo as vigas de madeira. O cheiro de mofo e de maresia era forte.

"Os traidores estão prestes a agir, Isabel," ele disse, sua voz baixa e urgente. "O grupo que mencionei, liderado pelo Conde de Viana, está planejando apresentar a petição à Rainha D. Luísa amanhã, durante a audiência pública. Eles alegarão que D. Sebastião é incapaz de governar e que a Espanha tem um direito legítimo ao trono português."

Isabel sentiu um frio na espinha. Amanhã? Tão rápido?

"Mas as provas que você me deu..."

"Não são suficientes para convencê-los, Isabel. Eles têm seus próprios apoiadores na corte, pessoas que não hesitarão em distorcer os fatos. Precisamos de algo mais. Algo que exponha a verdade de uma vez por todas." Ele a encarou, seus olhos escuros buscando os dela na escuridão. "E é aí que você entra."

"Eu?"

"Sim. Você tem em suas mãos, ou melhor, em sua posse, documentos que provam a traição do Conde de Viana em relação ao Brasil. Cartas que ele enviou a emissários espanhóis, detalhando a fraqueza das defesas das nossas colônias e propondo planos de invasão."

Isabel assentiu, lembrando-se das cartas que trouxera de Pernambuco. "Sim, eu tenho."

"Essas cartas, se apresentadas no momento certo, podem expor a verdade sobre o Conde e seus aliados. Podem mostrar que a sua preocupação com a Espanha não é apenas uma desculpa para tomar o poder, mas sim uma aliança com o inimigo." Ele deu um passo à frente, sua proximidade a envolvendo como um abraço quente. "Mas precisamos ser estratégicos. Não podemos simplesmente apresentar essas cartas sem um plano. Eles as descartariam como falsificações."

"O que você propõe, Francisco?"

"Amanhã, durante a audiência, o Conde de Viana apresentará sua petição. Ele tentará desacreditar D. Sebastião e a Rainha. Nesse momento, quando o debate estiver em seu auge, você deverá apresentar as suas cartas. Não à Rainha diretamente, mas ao Conselho. E eu estarei lá para dar testemunho. Para confirmar a autenticidade dos documentos e a gravidade da traição."

A ousadia do plano a assustou, mas a necessidade era premente. Se eles não agissem, a Espanha poderia tirar proveito da desestabilização, e o Brasil, seu amado Brasil, estaria em perigo.

"É arriscado, Francisco. Se o plano falhar..."

"Se falhar, seremos presos, exilados, ou pior. Mas se tivermos sucesso, poderemos salvar Portugal e proteger nossas colônias." Ele a segurou pelos braços, sua voz carregada de uma urgência que a tocou profundamente. "Eu voltei por você, Isabel. Por tudo o que tivemos. E por tudo o que podemos ter novamente. Mas para isso, precisamos lutar. Precisamos vencer essa batalha."

A declaração dele a desarmou. O amor que ela pensara ter superado ressurgiu com força, misturado à adrenalina do perigo. Ela o olhou nos olhos, buscando a verdade em seu semblante. Havia uma sinceridade ali, uma paixão que ela reconhecia.

"Eu confio em você, Francisco," ela disse, sua voz embargada. "Eu confio em nós."

Um sorriso lento e sedutor surgiu em seus lábios. Ele a puxou para perto, seus corpos se tocando, e o beijo que se seguiu foi um turbilhão de emoções. Era um beijo carregado de saudade, de desejo, de esperança e de medo. Um beijo que selava um pacto perigoso, um pacto de amor e de luta em meio às sombras de Lisboa.

Ele a afastou suavemente, seus olhos brilhando na penumbra. "Amanhã, Isabel. Amanhã, vamos lutar. Pelo nosso futuro. E pelo futuro de Portugal."

Quando Isabel retornou ao seu aposento, a cidade adormecida parecia ainda mais sinistra. As palavras de D. Francisco, o beijo que haviam trocado, a magnitude do que estava em jogo, tudo a deixava em um estado de exaltação e apreensão. A Rainha das Índias, que navegara por mares revoltos e enfrentara impérios, estava prestes a embarcar na batalha mais perigosa de sua vida, uma batalha que não seria travada com espadas e canhões, mas com a verdade e a coragem, em um salão repleto de lobos disfarçados de cordeiros. O destino de um reino, e de um amor proibido, pairava no ar, aguardando o alvorecer.

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