Amor em Tempos de Guerra 56
Amor em Tempos de Guerra 56
por Vitor Monteiro
Amor em Tempos de Guerra 56
Autor: Vitor Monteiro
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Capítulo 11 — O Pesadelo da Traição e a Fuga Desesperada
A madrugada em Ouro Preto era de um silêncio denso, quase palpável, quebrado apenas pelo murmúrio distante de algum córrego e pelo latido rouco de um cão vadio. Mas para Mariana, aquele silêncio era um prenúncio aterrador. A notícia, trazida por um mensageiro sujo e ofegante, a atingiu como um golpe físico. Seu coração, que momentos antes transbordava da alegria da verdade finalmente revelada sobre Ana Paula e o legado que agora lhe pertencia, despencou em um abismo de terror.
"Senhora Mariana… a Coroa… eles sabem…" O mensageiro mal conseguia articular as palavras, a fumaça do medo em seus olhos refletindo a urgência da situação. "A tropa do Capitão Almeida… invadiu a fazenda do seu pai… nesta noite… a casa… está em chamas."
Mariana cambaleou, a mão levada instintivamente à garganta, como se pudesse conter o grito que ameaçava rasgar seu peito. A fazenda do pai. O lugar onde nascera, onde aprendera os segredos da terra, onde tantas memórias de infância e adolescência a ligavam a um passado de relativa paz, antes da guerra e das intrigas a arremessarem em seu turbilhão. A fazenda onde Ana Paula, sua mãe, vivera seus últimos dias. E agora, em chamas.
"Não… não pode ser…" Sua voz era um fio, embargado pela incredulidade e pelo pânico crescente. "O que querem? Por quê?"
O mensageiro, um homem de meia-idade com o rosto marcado pelo sol e pela dureza da vida, abaixou a cabeça, a resignação pesando em seus ombros. "Dizem que o ouro… o que foi levado de Vila Rica… está escondido lá. E que a senhora… está envolvida na fuga."
O ouro. Aquele ouro que ela e André haviam lutado tanto para recuperar, que representava a salvação para muitos e a condenação para outros. Aquele ouro que agora, ironicamente, se tornava o pretexto para a destruição de tudo o que ela amava. E a menção de seu envolvimento… era a confirmação do que ela mais temia: a traição de alguém próximo, alguém que a observava, que aguardava o momento certo para entregar seus segredos ao inimigo.
André, que ouvira a conversa de longe, irrompeu no quarto com a agilidade de um selvagem. Seus olhos, geralmente tão cheios de ternura e determinação ao fitá-la, agora ardiam com uma fúria fria. Ele a segurou pelos braços, seus dedos apertando com uma força que a fez estremecer.
"Mariana! O que ele disse?" Sua voz era baixa, mas carregada de uma urgência que cortava o ar.
"A fazenda, André… está em chamas. A tropa… eles invadiram." As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Mariana, quentes e amargas. "Eles procuram o ouro… e acham que eu… que eu o escondi lá."
André fechou os olhos por um instante, a testa franzida em profunda concentração. Ele sabia que o tempo era o inimigo mais implacável naquele momento. A fazenda era um lugar de refúgio, mas também de fácil acesso para aqueles que conheciam a região. E se a Coroa mandou uma tropa, não seria uma força qualquer. Seria uma demonstração de poder, destinada a esmagar qualquer resistência.
"Precisamos sair daqui. Agora." Ele a soltou, seus olhos correndo pelo quarto, avaliando as possibilidades. "Não podemos ficar aqui. Eles virão atrás de você. Para você é perigoso demais."
Mariana balançou a cabeça, a negação instintiva gritando em seu interior. "Mas meu pai! Ele está lá! E as pessoas que trabalham na fazenda!"
"O seu pai…" André hesitou, a dor em seus olhos refletindo o peso da cruel realidade. "Se eles invadiram com a intenção de destruir, o seu pai… ele pode já não estar mais entre nós, Mariana. Não podemos pensar no que já passou. Precisamos pensar em sobreviver. Em você."
A verdade fria de suas palavras atingiu Mariana com a força de um punhal. Seu pai. O homem forte e gentil que a criara. Seria possível que ele tivesse sucumbido à brutalidade daqueles homens? A ideia a apavorava mais do que o fogo que consumia sua casa.
"Mas e o André? E você?" Ela o olhou, o desespero em sua voz. "Eu não posso ir sozinha."
"Você não vai sozinha." André agarrou sua mão, seus dedos entrelaçados com os dela, um pacto silencioso em meio ao caos. "Eu vou com você. E o mensageiro… ele também. Ele conhece os caminhos."
O mensageiro assentiu, a determinação substituindo o medo em seu olhar. "Eu sei um caminho seguro, senhora. Através das matas. Longe das estradas principais."
Mariana olhou para André, a confiança em seus olhos crescendo a cada segundo. Ele era seu porto seguro, a rocha em meio à tempestade. A imagem de Ana Paula, sua mãe, seu exemplo de força e resiliência, surgiu em sua mente. Ela não podia desistir. Tinha que ser forte. Pelo legado de sua mãe, por si mesma, por aqueles que a amavam.
"Certo." Ela respirou fundo, a voz firme, apesar do tremor interno. "Vamos. O que você precisar, André. Eu farei."
André apertou sua mão. "Precisamos ser rápidas. Não leve nada que não seja essencial. Roupas, o medalhão… e qualquer coisa que possa provar sua identidade, caso precise." Ele se virou para o mensageiro. "Você tem cavalos? Precisamos de dois. Um para mim e um para a senhora. E um para você."
"Tenho dois bons cavalos prontos. O meu e o de um companheiro que ficou para trás. Podemos nos apressar." O mensageiro, cujo nome ela ainda não sabia, já demonstrava uma lealdade inesperada.
Enquanto se vestiam rapidamente, Mariana pegou o medalhão de Ana Paula, o metal frio em sua mão. Era a única lembrança física de sua mãe, um símbolo de seu amor e de sua força. Ela o guardou em um pequeno saco de couro, junto com alguns documentos que provavam sua linhagem e a posse de terras que Ana Paula havia deixado para ela.
A saída da casa foi um borrão de som e movimento. O silêncio da madrugada era agora um pesadelo. O crepitar das chamas parecia cada vez mais próximo, um eco macabro da violência que se abatera sobre sua família. Montaram nos cavalos rapidamente. André, com Mariana à sua frente, ambos envoltos em mantas escuras. O mensageiro, um vulto experiente, os guiou para a escuridão da mata.
Cada galho que raspava em seus rostos, cada som de animal na floresta, era motivo de apreensão. O medo era constante, um nó na garganta que ameaçava sufocá-los. Mariana sentia o corpo de André firme atrás dela, sua mão protegendo-a, guiando o cavalo. Era um consolo no meio daquele terror.
"Para onde vamos?" Ela perguntou, a voz abafada pela manta.
"Para a vila de São João del Rei. É um lugar seguro, com gente que não se alinha com a Coroa. Tenho contatos lá. E é longe o suficiente de Ouro Preto para nos dar algum tempo." André respondeu, a voz firme, tentando transmitir a ela a segurança que ele mesmo lutava para manter.
A fuga era desesperada, uma corrida contra o tempo e contra a crueldade humana. A fazenda de sua família, antes um refúgio, agora era um espetáculo de destruição. E com ela, levava não apenas a memória de sua infância, mas também a promessa de um futuro que, naquele momento, parecia mais incerto do que nunca. O legado de Ana Paula, que deveria ser um caminho de paz e prosperidade, agora se revelava um fardo perigoso, marcado pela ganância e pela violência. A sombra do medalhão, que antes representava esperança, agora pairava sobre eles como um aviso sombrio.