Amor em Tempos de Guerra 56
Capítulo 23 — O Mistério do Porto
por Vitor Monteiro
Capítulo 23 — O Mistério do Porto
A noite caíra sobre Recife, trazendo consigo o murmúrio suave das ondas e o brilho fantasmagórico das lamparinas a óleo que pontilhavam as ruas. Ana Clara, vestida com um elegante vestido de seda azul-marinho, sentia a textura do tecido contra sua pele, um lembrete do luxo que ela tanto prezava, mas que agora parecia trivial diante da urgência da situação. Ao seu lado, Dona Eulália, imponente em seu xale de renda preta, guiava-a por entre a multidão que se reunia na praça principal, em frente ao teatro, onde um evento beneficente para arrecadar fundos para as tropas holandesas em luta contra os portugueses estava sendo realizado.
"Por que estamos aqui, tia Eulália?", perguntou Ana Clara, sua voz um sussurro entre o burburinho das conversas. "Miguel não é holandês. E eu não quero ajudar os inimigos de Portugal."
"Não é uma questão de ajudar os holandeses, Aninha", explicou Dona Eulália, seu olhar perspicaz varrendo os rostos ao redor. "É uma questão de informação. E de encontrar pessoas que possam nos ajudar a encontrá-la. Miguel confiou a mim um recado. Algo sobre um certo 'Mercador Sombrio' e um navio que partiu misteriosamente do porto há duas semanas. Ele suspeitava de algo, mas não teve tempo de investigar."
Ana Clara arregalou os olhos. "Mercador Sombrio? Que nome é esse? E que navio?"
"Exatamente o que precisamos descobrir. Miguel disse que esse mercador era um indivíduo de má reputação, que lidava com mercadorias proibidas e, possivelmente, com informações valiosas para os inimigos. O navio, ele não sabia o nome, mas sabia que partiu sob o manto da noite, sem registros oficiais. Algo muito suspeito, não acha?"
Eles adentraram o salão principal do teatro, um espetáculo de luzes, cores e tecidos luxuosos. Músicos tocavam uma melodia animada, enquanto convidados, vestindo o que havia de mais fino em trajes, conversavam e riam, alheios às intrigas que se desenrolavam nas sombras. Ana Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela não gostava daquele ambiente, da superficialidade que parecia reinar.
"Miguel me disse para procurar um homem chamado Capitão Bartolomeu. Ele disse que Bartolomeu é um velho lobo do mar, com um olho em cada lado da cabeça, e que ele sabe de tudo o que acontece no porto. Ele também disse para eu ter cuidado, pois Bartolomeu é imprevisível e perigoso." Dona Eulália fez uma pausa, seus olhos encontrando os de Ana Clara. "E ele disse que eu deveria confiar em você, minha flor. Que sua inteligência e sua discrição seriam fundamentais."
Ana Clara sentiu um misto de orgulho e apreensão. Miguel depositava uma confiança imensa nela, e ela não podia falhar. "Onde encontramos esse Capitão Bartolomeu?"
"Ele não costuma frequentar esses eventos. É um homem do povo, que prefere a companhia de marinheiros e contrabandistas aos nobres e mercadores. Mas eu sei onde encontrá-lo. Há uma taverna, na beira do porto, chamada 'A Âncora Quebrada'. É o seu esconderijo."
O trajeto até a taverna foi silencioso. A luz da lua iluminava o caminho, mas a escuridão que emanava da taverna parecia engolir tudo. O cheiro de cerveja velha, suor e fumaça de cachimbo pairava no ar. A música alta e as gargalhadas rudes ecoavam do interior. Ana Clara sentiu um nó no estômago. Aquele era um mundo completamente diferente do que ela conhecia.
Ao entrarem, todos os olhares se voltaram para elas. Duas mulheres, vestidas impecavelmente, adentrando um antro de vadios e marinheiros. Dona Eulália, porém, manteve a compostura, seus olhos procurando o dono do lugar.
"Com licença!", chamou Dona Eulália, sua voz ecoando pela taverna. "Procuramos o Capitão Bartolomeu."
Um homem corpulento, com um rosto marcado por cicatrizes e uma barba grisalha que cobria metade de seu peito, levantou-se de uma mesa no canto. Ele tinha um olhar penetrante, que parecia analisar cada detalhe. Um olho azul-celeste, límpido e atento, e outro, turvo e cego, que lhe dava um ar sinistro. Era ele, sem dúvida.
"Sou eu", disse ele, sua voz rouca e grave, como o ranger de um navio antigo. "O que duas damas como vocês querem num lugar como este?"
Dona Eulália se aproximou, sem demonstrar qualquer receio. "Capitão Bartolomeu, viemos em busca de informações. Um amigo nosso, Miguel de Alencar, pediu que o procurássemos."
O nome de Miguel pareceu despertar algo no capitão. Seu olho bom se estreitou levemente, e ele observou Ana Clara com mais atenção. "Miguel de Alencar, é? Um homem de palavra. O que ele quer saber?"
"Ele está preocupado com um navio que partiu do porto há duas semanas, sob o manto da noite, sem registros. Ele suspeita que o dono seja um homem conhecido como 'Mercador Sombrio'."
O capitão soltou uma risada baixa e gutural. "Ah, o Mercador Sombrio... Esse é um fantasma que assombra os mares. Ninguém sabe seu nome verdadeiro, ninguém sabe de onde ele veio, mas todos sabem que ele trafica o que há de mais perigoso e valioso. E sim, um navio dele partiu sem alarde. Um brigue, chamado 'O Sussurro da Noite'."
"O Sussurro da Noite...", repetiu Ana Clara, anotando mentalmente. "Para onde ele foi?"
"Essa é a questão, mocinha", respondeu Bartolomeu, seu olho bom fixo em Ana Clara. "Ele partiu com destino incerto. Dizem que rumo às Índias, outros dizem que para o outro lado do Atlântico. Mas o que eu sei é que ele levava uma carga especial. Algo que muitos cobiçam."
"Que tipo de carga?", perguntou Dona Eulália.
Bartolomeu hesitou por um momento, seus olhos perscrutando a taverna, como se temesse ser ouvido. Então, ele se inclinou sobre a mesa. "Dizem que ele levava ouro, joias... mas alguns sussurram que era algo mais valioso. Informações. Documentos secretos que podem mudar o rumo de uma guerra."
Ana Clara sentiu um calafrio. Documentos secretos. Seria isso que Miguel temia? Seria essa a razão pela qual ele precisava saber para onde o navio fora? "E o senhor sabe quem comprou essa carga?", perguntou ela, a voz tensa.
"Eu sei quem encomendou a viagem", disse Bartolomeu, com um sorriso maroto. "Um homem de poucas palavras e muitas ações. Um homem que se esconde nas sombras, assim como seu apelido sugere. Mas ele não era o único interessado. Havia outro. Um homem que ofereceu uma quantia ainda maior para interceptar aquele navio."
"Quem?", perguntou Ana Clara, a esperança misturada ao medo.
"Esse é o x da questão, não é?", disse Bartolomeu, levantando-se. "Ele se apresentou como um representante do Vice-Rei. Mas, pela sua descrição, pelas suas vestes e pelo seu jeito, ele não me pareceu um homem de confiança. Pareceu um lobo em pele de cordeiro. E ele partiu no dia seguinte ao navio do Mercador Sombrio. Em um navio mais rápido, um galeão forte."
Um galeão. Um representante do Vice-Rei. O coração de Ana Clara disparou. Ela se lembrou das conversas sobre um possível acordo entre o Vice-Rei e os holandeses, um acordo que Miguel desconfiava profundamente. "O senhor sabe o nome desse galeão?"
Bartolomeu deu de ombros. "Nomes vêm e vão, mocinha. O que importa é o que eles levam e para onde vão. Mas eu posso dizer algo com certeza. Esse homem... ele não parecia querer o que estava no navio. Ele parecia querer impedir que chegasse ao seu destino. E ele estava disposto a tudo para conseguir."
Ana Clara e Dona Eulália trocaram olhares. A situação era mais complexa do que imaginavam. Miguel não estava apenas preocupado com a partida de um navio, mas sim com uma trama que envolvia interesses poderosos e perigosos. A partida do navio do Mercador Sombrio não era apenas um evento isolado, mas parte de uma guerra de informações que poderia decidir o futuro de Pernambuco e do Brasil. E eles estavam no meio dela.
"Capitão Bartolomeu", disse Ana Clara, sua voz firme e decidida. "Obrigada por sua ajuda. O senhor nos deu informações valiosas. Se houver algo que possamos fazer para recompensá-lo..."
Bartolomeu riu novamente. "Miguel de Alencar é um amigo. E amigos ajudam amigos. Mas se quiserem me ajudar, é simples. Descubram para onde esse galeão foi. E quem é realmente esse 'representante do Vice-Rei'. Essa informação pode valer ouro para mim. Ou para quem me pagar mais." Ele piscou com seu olho bom. "Agora, se me dão licença, tenho outros assuntos a tratar. E vocês, damas, deveriam voltar para casa antes que o amanhecer as pegue em um lugar como este."
Enquanto saíam da taverna, Ana Clara sentiu um misto de exaustão e adrenalina. O porto, antes um lugar de beleza e tranquilidade, agora se revelava um labirinto de segredos e perigos. Mas ela não iria recuar. Miguel precisava dela. E ela precisava dele. A luta pela verdade e pelo futuro havia apenas começado.