Cap. 12 / 17

Mundos Paralelos

Capítulo 12 — Os Ecos da Memória Perdida

por Alexandre Figueiredo

Capítulo 12 — Os Ecos da Memória Perdida

O silêncio no laboratório era mais pesado que o metal frio das bancadas. As luzes de emergência projetavam sombras dançantes, e o zumbido constante dos equipamentos parecia um lamento baixo. Helena, ainda sob o choque da aparição etérea de Gabriel, sentia uma mistura de pânico e uma resolução crescente. A voz dele, distorcida, mas inconfundível, ecoava em sua mente, cada palavra gravada a ferro em sua alma.

“Armando, precisamos analisar tudo que captamos. Cada segundo daquela transmissão. Preciso saber de onde veio, o que significa.” Helena sentou-se diante de um dos consoles secundários, os dedos voando sobre o teclado com uma precisão febril. “Ele disse que o portal é uma armadilha. Isso não pode ser uma coincidência. As flutuações que detectamos… elas estão se intensificando perto do meu experimento.”

Dr. Armando Costa, com uma expressão de quem carrega o peso de eras, observava os dados que Helena ia recuperando. “As assinaturas energéticas são anômalas, Helena. Extremamente anômalas. É como tentar analisar uma música com um equipamento feito para medir o calor. Não estamos preparados para isso.” Ele parou, os olhos fixos em um gráfico em particular. “Espere. Há um padrão aqui. Um padrão de ressonância. Ele… ele está reagindo à sua frequência. Ou você à dele.”

“Ou ambos”, sussurrou Helena, sentindo um arrepio gelar a espinha. “Dr. Costa, se há uma conexão… se Gabriel tem algo a ver com isso… e se a minha teoria estiver certa… e se ele não estiver apenas de outro mundo, mas sim conectado a ele de uma forma fundamental?” A ideia a assustava e fascinava. Gabriel, com sua intensidade avassaladora, sua melancolia crônica, os fragmentos de memória que pareciam vir de um tempo distante.

“As memórias de Gabriel sempre foram fragmentadas, Helena. Ele nunca falou muito sobre seu passado. Apenas que viveu muito tempo sozinho.” Armando se aproximou, a preocupação estampada em seu rosto envelhecido. “Você o ama, eu sei. Mas você também sabe que há partes dele que você não entende. E se essa aparição for uma manifestação de… algo que ele carrega dentro de si?”

“Ou algo que o capturou”, retrucou Helena, a voz firme. “Ele me avisou. A última coisa que ele faria seria me enganar. Havia medo na voz dele, Armando. E desespero. Ele estava tentando me proteger.” Ela se virou para o cientista, os olhos brilhando com uma mistura de lágrimas não derramadas e determinação. “Preciso ir mais fundo. Preciso tentar estabelecer um contato mais… direto.”

“Helena, é perigoso! Se aquela transmissão era uma forma de comunicação, pode ter sido monitorada. E se eles estiverem nos observando agora?” A voz de Armando era um apelo. Ele via a obsessão tomando conta dela, uma paixão que, assim como a de Gabriel, poderia ser destrutiva.

“Eu sei os riscos, Dr. Costa. Mas não posso simplesmente esperar. Se algo aconteceu com Gabriel, ou se ele está tentando me alcançar, preciso tentar entendê-lo. E se o portal é uma armadilha… o que mais ele pode ser?” Helena voltou-se para o console principal, os dedos pairando sobre os controles. “Preciso reconfigurar os emissores de frequência. Tentar encontrar a ressonância exata que gerou aquela imagem. Se pudermos recriar as condições…”

Enquanto Helena trabalhava, Armando observava os gráficos. As anomalias energéticas continuavam. Algo estava lá fora, pulsando, tentando se comunicar. Ou tentando atrair. Ele sabia que não podia impedi-la. A busca por Gabriel era mais forte que qualquer protocolo de segurança. E, no fundo, ele também sentia a atração do desconhecido, a promessa de uma descoberta que transcendia a ciência como a conheciam.

De repente, um dos monitores secundários, que estava em modo de espera, acendeu. Uma imagem estática, como uma fotografia antiga e desbotada, apareceu. Era uma mulher. Uma mulher com um sorriso doce, olhos gentis e um vestido que parecia de outra época. Helena congelou. A mulher era incrivelmente parecida com ela. Mais jovem, sim, mas era inegavelmente ela.

“Quem é essa?”, perguntou Armando, confuso.

“Eu… eu não sei”, gaguejou Helena, o coração batendo descompassado. “Ela se parece comigo. Mas… mais velha? Mais nova? Não sei. É como um reflexo distorcido.”

A imagem tremeu novamente, e então um som começou a emanar do alto-falante. Era uma melodia suave, uma canção de ninar. Uma canção que Helena conhecia. Uma canção que sua mãe costumava cantar para ela quando era criança. Uma canção que ela pensou ter esquecido.

Lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Helena. As memórias, antes fragmentadas, agora inundavam sua mente como um rio transbordando. Sua mãe, um sorriso caloroso, o cheiro de lavanda, as noites frias onde a canção a trazia conforto. Mas por que aquela imagem, aquela canção, surgia agora?

“O que está acontecendo?”, perguntou Helena, a voz embargada. “Essa música… eu a ouvia quando criança.”

Armando observava os dados em seu monitor. “Há uma sobreposição de frequências, Helena. A sua própria assinatura bioelétrica… ela está se misturando com a energia externa. É como se o seu passado estivesse sendo… acessado.”

“Acessado por quem? Por quê?”, Helena olhou para a imagem da mulher, uma estranha familiaridade a invadindo. Havia algo naquela mulher, algo em seus olhos, que a lembrava de Gabriel. Uma tristeza profunda, velada.

A imagem estática tremulou mais uma vez e mudou. Agora mostrava um laboratório diferente, mais antigo, com equipamentos que Helena não reconhecia. E no centro, uma figura em pé, de costas para a câmera. A figura era alta, esguia. E Helena sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao perceber a silhueta familiar. Era Gabriel. Mas ele parecia mais jovem, mais… desolado.

“Gabriel…”, sussurrou Helena.

“Essa não é a nossa tecnologia, Helena”, disse Armando, a voz tensa. “Isso é… de outra época. Ou de outro lugar.”

De repente, a figura de Gabriel se virou. A câmera, de baixa qualidade, focou em seu rosto por um instante fugaz. Seus olhos, embora não fossem violeta como na transmissão, tinham um brilho incomum, uma melancolia que Helena nunca tinha visto nele. E ele parecia estar segurando algo. Algo pequeno e brilhante.

A imagem desapareceu tão rápido quanto surgiu, substituída por um ruído branco ensurdecedor. Helena cobriu os ouvidos, o coração disparado. As memórias, as visões, a canção de ninar… tudo parecia interligado. Era como se a outra realidade estivesse não apenas tentando se comunicar com ela, mas também acessando seus próprios ecos internos.

“Dr. Costa”, disse Helena, a voz firme apesar da confusão. “Essa mulher na foto… ela é a minha mãe, não é?”

Armando assentiu lentamente. “Eu acredito que sim, Helena. E se essa conexão está sendo feita… é porque a sua própria estrutura bioelétrica, sua essência… é a chave para abrir essa porta. Talvez seja por isso que Gabriel está tão ligado a você. Talvez ele esteja tentando chegar até você.”

Helena olhou para o console, a imagem de Gabriel em sua mente. Ele parecia estar sofrendo. E o aviso… “Não confie neles.” Quem eram “eles”? Aqueles que estavam monitorando aquela frequência? Aqueles que queriam usar o portal?

“Eu preciso tentar novamente, Armando”, disse Helena, a voz carregada de emoção. “Eu preciso saber. Eu preciso saber o que aconteceu com Gabriel. E com a minha mãe. Se essa outra realidade tem algo a ver com o meu passado… então é lá que eu preciso ir.”

Armando colocou a mão em seu ombro. “Helena, a paixão que você sente por Gabriel está te cegando. Mas eu entendo. E se essa é a única maneira de encontrá-lo, de encontrar as respostas que você busca… eu vou ajudá-la. Mas teremos que ser cuidadosos. Muito cuidadosos.”

Helena assentiu, um misto de esperança e medo tomando conta dela. Os ecos do passado, os sussurros do outro lado, a busca por Gabriel… tudo se fundia em uma única e avassaladora necessidade de descobrir a verdade. A canção de ninar ainda ressoava em sua mente, um lembrete doce e doloroso de um tempo perdido. E em algum lugar, naquele labirinto de realidades, Gabriel a esperava. Ou a atraía. A linha entre o amor, a perda e o desconhecido estava prestes a se tornar ainda mais tênue.

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