Mundos Paralelos
Capítulo 14 — O Labirinto das Verdades Cruzadas
por Alexandre Figueiredo
Capítulo 14 — O Labirinto das Verdades Cruzadas
A luz do amanhecer filtrava pelas janelas do laboratório, tingindo o ambiente de tons dourados e rosados, um contraste suave com a intensidade da noite anterior. Helena, ainda sentada diante do console principal, sentia o cansaço pesar em seus ombros, mas sua mente estava estranhamente clara. A aparição de Gabriel, o aviso, a música de sua mãe, o símbolo misterioso… tudo se encaixava em um quebra-cabeça complexo e perigoso.
“Dr. Costa, o símbolo. Eu sei que eu o conheço”, Helena disse, a voz rouca de sono e excitação. “Eu estava olhando em nossos arquivos de pesquisa de antigas civilizações, pensando em padrões geométricos e sua relação com energias. E então eu o vi. Em textos antigos sobre alquimia e cosmologia. Ele aparece em alguns manuscritos como o ‘Selo de Orion’ ou a ‘Chave de Andrômeda’.”
Armando se aproximou, os olhos curiosos. “Selo de Orion? Chave de Andrômeda? Isso sugere uma origem cósmica, Helena. E se Gabriel veio de uma dessas constelações?”
“Ou se esse símbolo é um ponto de conexão entre nosso universo e outros. Gabriel disse que o portal é uma armadilha. E que ele tentaria me encontrar do ‘lado certo’. Talvez esse símbolo seja o ‘lado certo’. Talvez seja um ponto de entrada seguro, ou uma forma de navegar por essas realidades paralelas.” Helena sentia uma febre de descoberta a percorrendo. “E se a minha mãe… se ela também tinha algum conhecimento sobre isso? Por que aquela música, aquela imagem, surgiu exatamente quando eu estava me conectando com Gabriel?”
Armando puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela. “As memórias são poderosas, Helena. Especialmente as da infância, as associadas a emoções fortes. A canção de sua mãe era um gatilho emocional. E a energia que você estava emitindo, combinada com a frequência de Schumann, pode ter acessado não apenas a sua memória, mas a sua própria assinatura de DNA, que pode conter ecos de seus ancestrais. Se sua mãe sabia sobre isso, pode ter sido passado para você geneticamente.”
Helena estremeceu com a ideia. Era como se seu passado, sua família, estivessem intrinsecamente ligados àquela busca cósmica. “Mas por que Gabriel se tornaria um intermediário? Por que ele está envolvido nessa história de universos paralelos e armadilhas?”
“Isso é o que precisamos descobrir, Helena. O Gabriel que conhecemos é um enigma. Um gênio atormentado, sim, mas com lampejos de conhecimento e habilidades que sugerem mais do que apenas inteligência. Se ele é de outro mundo, ou tem uma conexão profunda com ele, então suas motivações podem ser diferentes. E o aviso dele… ‘não confie neles’… isso é crucial.”
De repente, a porta do laboratório se abriu com estrondo. Um homem alto e de semblante sério, vestindo um uniforme escuro e impecável, entrou. Era o Agente Silva, um representante de uma agência governamental de segurança que vinha monitorando o trabalho de Helena e Armando há meses, sob o pretexto de “colaboração e proteção”.
“Dra. Helena, Dr. Costa”, disse Silva, a voz polida, mas com um tom de autoridade inquestionável. “Tivemos um aumento incomum na atividade energética nas últimas horas. Nossos sensores captaram anomalias significativas vindas desta instalação. Recebemos ordens para investigar.”
Helena e Armando trocaram um olhar. Eles sabiam que o Agente Silva e sua equipe estavam observando. Mas agora, parecia que eles estavam interessados em algo mais do que apenas monitoramento.
“Agente Silva, estamos conduzindo pesquisas de ponta em física teórica”, disse Armando, com um sorriso forçado. “Alguns experimentos podem gerar picos de energia temporários.”
Silva caminhou lentamente pelo laboratório, seus olhos percorrendo os monitores e os equipamentos com uma intensidade calculista. Ele parou diante do monitor principal, onde o símbolo agora estava em repouso.
“Picos de energia que projetam símbolos que parecem ter relevância em círculos ocultos e estudos de astronomia avançada?”, Silva questionou, a voz fria. “Com licença, Dra. Helena, mas minhas informações indicam que sua pesquisa vai muito além de física teórica. Estamos falando de exploração interdimensional, não estamos?”
O ar se tornou denso. Helena sentiu um nó na garganta. Eles sabiam. Ou pelo menos, suspeitavam de muito mais do que eles deixavam transparecer.
“Agente Silva, nossa pesquisa é confidencial”, Helena disse, tentando manter a calma. “Estamos trabalhando em teorias que ainda não foram totalmente comprovadas.”
“Teorias que podem ter implicações em segurança nacional, Dra. Helena. E global”, Silva rebateu, seus olhos fixos nos dela. “Se há a possibilidade de acesso a outras realidades, o governo tem o direito e o dever de estar ciente. E de controlar esse acesso. Principalmente se um indivíduo como Gabriel Varella está envolvido.”
O nome de Gabriel pairou no ar como uma sentença. Helena sentiu um calafrio. Agente Silva sabia sobre Gabriel. E talvez, soubesse mais do que ela.
“Gabriel Varella é um colega e amigo”, Helena disse, a voz firme. “Ele tem sido de grande ajuda em nossa pesquisa.”
“Um amigo que desapareceu misteriosamente há semanas e que, segundo nossos relatórios, tem um histórico questionável envolvendo tecnologia de ponta e… tráfego de informações de alto nível”, Silva retrucou, um leve sorriso nos lábios. “Ele não é apenas um amigo, Dra. Helena. Ele é uma peça chave em tudo isso. E nós queremos saber o papel dele. E o seu. E o do Dr. Costa.”
Armando deu um passo à frente. “Agente Silva, a busca por conhecimento não pode ser subjugada pelo medo. Estamos explorando os limites do universo. E se Gabriel está envolvido, é porque essa pesquisa o tocou de alguma forma. Não podemos simplesmente descartá-lo ou detê-lo.”
“Detê-lo? Dr. Costa, nós não queremos deter ninguém. Queremos entender. E controlar. Principalmente se há a chance de que essa tecnologia possa cair em mãos erradas. E acredite, Dra. Helena, há muitas mãos erradas tentando alcançar esse símbolo que você tanto admira.” Silva apontou para o monitor. “Esse ‘Selo de Orion’ que você mencionou… ele não é apenas uma chave, é um marcador. Um marcador para aqueles que buscam poder sobre outras realidades. E se Gabriel está lhe dizendo para ter cuidado, é porque ele sabe quem está atrás disso. E eles não são seus amigos.”
Helena sentiu um aperto no peito. As palavras de Gabriel sobre a armadilha e sobre ‘eles’ ganhavam um novo e aterrorizante significado. O Agente Silva, com sua polidez fria e suas ameaças veladas, parecia ser um desses ‘eles’.
“Você sabe quem são ‘eles’?”, Helena perguntou, a voz baixa e carregada de desconfiança.
Silva deu um pequeno riso. “Digamos que há organizações com interesses… globais. E eles veem o que você está fazendo aqui como uma oportunidade única. Uma oportunidade de controle. Se você insistir em continuar por conta própria, sem a nossa supervisão… bem, isso seria um risco muito grande. Para todos nós.”
Ele deu um passo para trás, um olhar de advertência final. “Mantenham os canais de comunicação abertos, Dra. Helena. E não tentem nada drástico sem nos informar. A segurança de todos depende disso.”
Com isso, o Agente Silva se virou e saiu do laboratório, deixando para trás um rastro de apreensão e desconfiança. Helena olhou para Armando, os olhos cheios de preocupação.
“Ele sabe sobre Gabriel. Ele sabe sobre o símbolo. Ele está nos observando, Armando. E o que ele disse… ‘eles não são seus amigos’… ele está falando dele mesmo? Ou de outro grupo?”
Armando suspirou. “É difícil dizer, Helena. O governo pode querer controlar essa tecnologia por motivos de segurança, ou pode haver facções dentro dele que buscam o mesmo poder que esses outros grupos. A verdade é que, quanto mais nos aproximamos da verdade sobre Gabriel e esses mundos paralelos, mais perigoso se torna o jogo.”
Helena olhou para o símbolo na tela. Era a chave, o mapa, o aviso. E agora, parecia ser um alvo. “Gabriel disse que o portal é uma armadilha. Mas ele também disse que vai tentar me encontrar do lado certo. Se o símbolo é a chave, talvez possamos usá-lo para chegar ao ‘lado certo’. Para encontrar Gabriel. E para evitar que ‘eles’… quem quer que sejam… usem isso para fins destrutivos.”
A paixão por Gabriel, a necessidade de desvendar os mistérios de sua própria família, a urgência de proteger o conhecimento que estavam descobrindo… tudo se fundiu em uma determinação implacável. O Agente Silva e seus jogos de poder não a deteriam. Ela encontraria Gabriel, mesmo que tivesse que decifrar o labirinto das verdades cruzadas que se estendia entre os mundos.