Mundos Paralelos
Capítulo 15 — O Portal Sussurrante
por Alexandre Figueiredo
Capítulo 15 — O Portal Sussurrante
O laboratório, antes um refúgio de pesquisa e descoberta, agora se sentia como um campo de batalha. A visita do Agente Silva havia deixado um rastro de desconfiança e urgência. Helena sentia o olhar invisível sendo lançado sobre eles, a constante ameaça de que seus progressos fossem usurpados ou suprimidos. Mas o símbolo, o misterioso Selo de Orion, era uma promessa. Uma promessa de um caminho, de uma conexão segura.
“Eu analisei os padrões de energia em torno do símbolo quando ele apareceu, Dr. Costa”, Helena disse, os dedos deslizando rapidamente sobre o teclado. “Há uma ressonância específica, uma frequência harmônica que não corresponde a nada que tenhamos registrado antes. É como se fosse uma assinatura vibracional única, capaz de abrir um canal, um túnel, sem gerar as flutuações caóticas que detectamos anteriormente.”
Armando, com um mapa estelar projetado em um dos monitores, estudava as constelações. “Orion… a constelação que abriga a nebulosa de Orion. Um berçário estelar. E Andrômeda… nossa galáxia vizinha. Se o símbolo é uma chave, pode ser para um ponto de acesso específico no espaço-tempo. Ou talvez… um mapa para encontrar esse ponto.”
“Gabriel disse para não abrir o portal, mas para ir para o ‘lado certo’. Se o símbolo é a chave, podemos estar falando de abrir um portal diferente. Um portal que ele mesmo criou, ou que o protege. E se ele tentará me encontrar do outro lado, talvez esse seja o ponto de encontro.” Helena sentia a adrenalina correr em suas veias. A paixão por Gabriel, o anseio por desvendar o mistério de sua família, a necessidade de proteger essa descoberta de mãos gananciosas… tudo a impulsionava.
“Mas como ativamos esse portal? O símbolo está na tela, mas não faz nada. Precisamos de um catalisador?”, perguntou Armando.
Helena olhou para a foto em sua mesa, a imagem de sua mãe sorrindo. A canção de ninar. A sua própria assinatura bioelétrica. “A nossa conexão. A minha essência. A canção. Gabriel sentiu a minha música. Ele disse que eu sou forte. Acredito que a chave não é apenas o símbolo, mas a força emocional e a ressonância que podemos criar em torno dele.”
Ela se levantou, caminhando até o centro da sala, onde o símbolo estava projetado em uma tela de energia. Ela fechou os olhos, lembrando-se da voz de sua mãe, do calor de seu abraço, da melodia que a acalmava. Ela começou a cantarolar, a canção de ninar ganhando vida novamente, mais forte, mais clara. Armando se juntou a ela, murmurando a melodia, como se as notas fossem um feitiço ancestral.
Enquanto cantavam, Helena concentrou toda a sua energia, toda a sua paixão, em direção ao símbolo. Ela visualizou Gabriel, o amor que sentia por ele, o desejo de protegê-lo. Ela sentiu uma corrente de energia emanando dela, envolvendo o símbolo. Os monitores começaram a piscar, mas desta vez, de uma forma diferente. As flutuações eram suaves, rítmicas, sincronizadas com a melodia.
O símbolo na tela começou a brilhar, as linhas se expandindo, a girar. O ar ao redor dele tornou-se visivelmente distorcido, como se estivesse sendo aquecido. E então, com um sussurro suave, um som que parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo, um portal começou a se formar. Não era um buraco negro de energia caótica, mas sim uma ondulação translúcida, um véu cintilante que revelava um vislumbre de um céu estrelado diferente.
“Conseguimos…”, sussurrou Helena, maravilhada.
Armando observava a cena com uma mistura de fascínio e apreensão. “É… é real. O portal. Mas Helena, Gabriel nos alertou sobre uma armadilha. E o Agente Silva… ele disse que esses símbolos são marcadores. Se abrirmos esse portal, eles saberão.”
Helena olhou para o portal, para o vislumbre de outro universo. Ela sentiu a atração, a promessa de reencontrar Gabriel. “Eu preciso ir, Armando. Ele está do outro lado. E se eu não for agora… quem sabe quando terei outra chance? Ou se teremos. Eles podem estar vindo.”
“Mas a armadilha…”, insistiu Armando.
“Eu vou ter cuidado. Gabriel me disse para ir para o lado certo. E eu confio nele. E confio no meu instinto.” Helena sentiu a paixão por Gabriel arder em seu peito. Ela sabia que era arriscado, mas a ideia de deixá-lo esperando, ou pior, de vê-lo cair nas mãos daqueles que ele temia… era insuportável. “Dr. Costa, você tem que ficar. Monitore tudo. Se eu não voltar, você tem que expor isso. Tem que expor o que eles estão fazendo.”
Armando a segurou pelo braço, seus olhos sérios. “Helena, se você for… eu vou com você.”
Helena sorriu, grata pela sua lealdade. “Não, Armando. Você é a nossa âncora aqui. Você precisa estar seguro. E precisa garantir que, se algo acontecer comigo, a verdade venha à tona.” Ela pegou um pequeno dispositivo que havia construído, um comunicador de frequência adaptada. “Eu vou tentar me manter em contato. E se eu puder, vou guiá-lo para o ‘lado certo’.”
Ela se virou para o portal, a respiração acelerada. O véu cintilante parecia convidá-la, sussurrando promessas e perigos. O amor por Gabriel era a força motriz, a coragem que a impulsionava. Ela deu um último olhar para Armando, um olhar de adeus, de esperança, de amor.
“Até breve, Armando.”
E com essas palavras, Helena deu um passo adiante, atravessando o véu translúcido do portal. Por um instante, ela sentiu uma desorientação avassaladora, como se seu corpo estivesse sendo desfeito e refeito. Cores e sons que ela nunca tinha experimentado antes inundaram seus sentidos. E então, tudo ficou claro.
Ela estava em um lugar diferente. O céu era de um tom violeta profundo, pontilhado por estrelas que brilhavam com uma intensidade incomum. A paisagem era alienígena, mas estranhamente familiar, como um sonho distante. E diante dela, em pé, com um sorriso que iluminou todo o seu ser, estava Gabriel.
Mas ele parecia diferente. Seus olhos brilhavam com uma luz serena, e ele exalava uma aura de paz que Helena nunca tinha visto nele antes. Ele estendeu a mão para ela.
“Helena. Você veio. Eu sabia que viria.”
Helena correu para ele, o coração disparado. Ela se jogou em seus braços, sentindo o calor e a segurança que tanto ansiava. O beijo que compartilharam foi um reencontro não apenas de amantes, mas de almas que haviam cruzado o abismo entre os mundos.
“Gabriel… você está bem?”, Helena sussurrou, sem soltá-lo.
Gabriel a afastou gentilmente, apenas o suficiente para olhá-la nos olhos. “Estou melhor agora que você está aqui. Mas estamos em perigo, Helena. O portal que eles criaram… é uma armadilha para atrair aqueles com grande potencial energético. Eu fui um deles. E agora… eles querem você. Mas não se preocupe. Você está no lado certo. E juntos, podemos encontrar uma maneira de deter tudo isso.”
Ele apontou para o horizonte, onde uma estrutura imponente, feita de luz e cristal, brilhava sob o céu violeta. “Aquele é o meu lar. O meu verdadeiro lar. E é lá que podemos encontrar as respostas que precisamos. Mas precisamos nos apressar. Eles logo saberão que você atravessou.”
Helena olhou para a estrutura, depois para Gabriel, o amor e a determinação renovados em seus olhos. Ela havia atravessado o véu, deixado seu mundo para trás, movida pela paixão e pela esperança. Agora, uma nova jornada começava, um labirinto de novas realidades onde o amor, o perigo e a busca pela verdade a levariam a caminhos inimagináveis. O portal sussurrante havia cumprido seu papel, mas a verdadeira aventura, a luta contra as sombras que ameaçavam os mundos, estava apenas começando.