Mundos Paralelos III
Mundos Paralelos III
por Danilo Rocha
Mundos Paralelos III
Autor: Danilo Rocha
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Capítulo 1 — O Sussurro do Desconhecido
O ar da noite em São Paulo era um abraço úmido e pesado, impregnado com o cheiro de chuva que se prometia e o persistente aroma de poluição. No alto do Edifício Altus, um dos poucos arranha-céus que ousavam rasgar o véu de nuvens em noites como essa, a vastidão urbana se estendia como um tapete cintilante de mil e uma promessas, e outras tantas desilusões. A janela panorâmica emoldurava a vista, um quadro vivo que mudava a cada segundo, mas para Helena, parecia apenas um lembrete constante de um mundo que ela sentia cada vez mais distante.
Ela alisou o tecido de seda do seu vestido azul-marinho, uma peça cara, elegante, mas que naquele momento parecia um disfarce inadequado. Sentada à mesa de mogno polido, em frente a uma taça de vinho tinto que ela mal tocara, Helena sentia o peso de um silêncio que não era preenchido nem pela música suave que emanava das caixas acústicas discretas, nem pelo burburinho distante da festa que acontecia a poucos metros dali. Era um silêncio que vinha de dentro, um eco de algo que se perdera, ou talvez nunca tivesse sido encontrado.
Os convidados circulavam, risadas e conversas animadas ecoando pelos corredores revestidos de mármore. Era a celebração anual da Chronos Corp, a empresa de tecnologia de ponta que Helena, por direito de sangue e por mérito próprio, liderava. Mas hoje, o brilho das joias, o tilintar das taças e os sorrisos forçados pareciam parte de um ritual arcaico, uma dança de sombras que a deixava cada vez mais exausta.
Seus olhos percorreram o salão principal, buscando um rosto conhecido, um refúgio naquela multidão. Viu seu tio, o Dr. Armando Valente, o homem que a acolheu e a guiou após a morte prematura de seus pais. Ele estava cercado por investidores, seu sorriso largo e confiante, o mestre das ilusões, como Helena às vezes o chamava em seus pensamentos mais sombrios. E lá estava ele, o motivo de sua inquietação: Dr. Leo Vargas, o brilhante e enigmático cientista que se tornara o braço direito de Armando e, por vezes, parecia ser o verdadeiro cérebro por trás da Chronos.
Leo era um enigma. Seus olhos escuros, profundos como poços sem fundo, podiam ser tanto penetrantes quanto distantes. Havia uma intensidade em seu olhar que desafiava as convenções, uma inteligência afiada que parecia ver através de todas as máscaras sociais. Ele se movia com uma graça silenciosa, uma aura de mistério que atraía e repelia na mesma medida. Helena o admirava, invejava sua dedicação incansável à ciência, mas algo nele a incomodava. Uma corrente subterrânea de segredos, talvez. Ou a sensação perturbadora de que ele sabia mais sobre o que realmente acontecia na Chronos do que ele deixava transparecer.
Ela se levantou e caminhou até a varanda, buscando o ar fresco que se misturava com a bruma da cidade. A noite estava carregada de uma energia peculiar, um presságio que ela não conseguia decifrar. Lembrou-se dos últimos meses, das noites em claro debruçada sobre relatórios, dos paradoxos científicos que desafiavam a própria lógica. A Chronos Corp não era apenas uma empresa de tecnologia; era um laboratório de fronteira, explorando os limites da física e da própria realidade. E o projeto mais ambicioso, o chamado "Projeto Nexus", era o cerne de tudo.
Um arrepio percorreu sua espinha. O Projeto Nexus era o legado de seus pais, um sonho que eles haviam perseguido com paixão antes de serem tragicamente levados. Helena sentia a responsabilidade de honrá-los, de levar essa obra adiante, mas às vezes se perguntava se não estava pisando em um terreno perigoso demais.
"Pensativa, Helena?"
A voz de Leo ecoou na varanda, baixa e suave, mas com um timbre que a fez sobressaltar. Ela se virou, encontrando-o parado a poucos passos, com as mãos nos bolsos do terno escuro, a silhueta recortada contra as luzes da cidade.
"Apenas apreciando a vista, Leo", respondeu, tentando soar casual. "E a companhia."
Ele sorriu, um sorriso sutil que não alcançou completamente seus olhos. "A vista daqui é impressionante. Mas o que realmente nos trouxe aqui, não é mesmo a paisagem."
Helena sentiu um aperto no peito. Ele sabia. Sabia que algo estava errado, ou pelo menos, que ela sentia que algo estava errado. "O que você quer dizer com isso, Leo?"
"Você parece distante hoje à noite, Helena. Há algo te preocupando. Algo mais do que as pressões habituais de comandar a Chronos." Ele se aproximou, parando ao seu lado, mas mantendo uma distância respeitosa. Seus olhos a estudavam com uma intensidade que a fez desviar o olhar. "É sobre o Nexus, não é?"
A pergunta a pegou desprevenida. Ela hesitou, buscando as palavras certas. "O Nexus é um projeto complexo, Leo. Sempre há desafios."
"Desafios são o nosso pão de cada dia. Mas o que você sente não é apenas um desafio técnico. É algo mais profundo. Uma intuição." Ele fez uma pausa, o silêncio carregado de um significado oculto. "Você sente que estamos nos aproximando de algo... perigoso."
Helena engoliu em seco. Ele estava descrevendo exatamente o que a atormentava. "Por que você diz isso? Você não compartilha dessa sensação?"
Leo suspirou, um som quase inaudível. "A ciência, Helena, é uma busca pela verdade. Às vezes, a verdade é belíssima e transformadora. Outras vezes, ela é... desconfortável. E o Nexus, como você bem sabe, é a nossa maior incursão em território desconhecido."
"Território desconhecido é onde a descoberta acontece", ela rebateu, tentando reafirmar sua própria convicção.
"E onde os perigos se escondem", Leo completou, sua voz agora tingida de uma preocupação genuína. "Eu observei seus pais, Helena. Sua paixão era inabalável. Mas eles também sentiam o peso do que estavam desvendando."
A menção de seus pais trouxe uma onda de dor e saudade. "Eles acreditavam que o Nexus poderia mudar o mundo para melhor. Que poderia nos dar uma nova compreensão sobre a nossa própria existência."
"E talvez eles estivessem certos", disse Leo, seus olhos fixos no horizonte escuro. "Mas a linha entre o avanço e a catástrofe é tênue. E no Projeto Nexus, essa linha parece se desvanecer a cada dia." Ele se virou para ela, seu olhar mais suave agora. "Seja o que for que você esteja sentindo, Helena, não está sozinha."
Aquele olhar, a sinceridade em sua voz, dissiparam um pouco do peso em seu peito. Talvez Leo não fosse apenas um colaborador, mas alguém que entendia a magnitude do que eles estavam construindo, e os riscos inerentes.
"Eu não tenho certeza do que estou sentindo, Leo", admitiu ela, sua voz embargada. "É como se algo estivesse prestes a acontecer. Um sussurro no limite da audição, um vislumbre na periferia da visão. Algo... diferente."
Leo estendeu a mão e, hesitando por um momento, tocou levemente o seu braço. O contato foi breve, mas eletrizante. "Continue ouvindo esse sussurro, Helena. Ele pode ser a chave. E quando você decidir o que fazer, saiba que minha lealdade está com você. E com o legado de seus pais."
As palavras de Leo ecoaram na mente de Helena enquanto ela voltava para a festa, o peso da noite ainda presente, mas agora misturado com uma centelha de esperança e um renovado senso de propósito. O sussurro do desconhecido era real, e ela estava determinada a desvendá-lo, custasse o que custasse.