O Fim do Mundo II

Capítulo 2 — O Mensageiro e a Dúvida

por Danilo Rocha

Capítulo 2 — O Mensageiro e a Dúvida

O sol de setembro, embora tímido em sua ascensão, conseguia perfurar as nuvens de poluição que cobriam São Paulo, lançando um brilho alaranjado e doentio sobre os arranha-céus. Para Helena, aquele sol parecia um escárnio. A noite havia sido um turbilhão de pensamentos, de imagens fragmentadas da voz etérea e do padrão estelar gravado em sua mente. Ela mal dormira, e quando o fez, os sonhos foram povoados por constelações que dançavam em um céu negro e profundo.

O cubo metálico repousava sobre a mesa de centro de sua sala, um objeto silencioso e enigmático que desafiava qualquer explicação lógica. Helena o pegara diversas vezes durante a noite, mas ele permanecia inerte, frio. Era como se o evento da madrugada tivesse sido uma ilusão criada pela sua própria mente ansiosa. Mas o peso daquele objeto em sua mão, a sensação inegável do calor e da voz em sua mente, eram reais demais para serem ignorados.

A reunião de emergência estava marcada para as dez da manhã, no centro de pesquisa da corporação Aethelburg, uma gigante da tecnologia e da exploração espacial que, nos últimos anos, havia se tornado a principal financiadora de pesquisas científicas no Brasil. O prédio, um monólito de vidro e aço no coração da Vila Olímpia, era um símbolo da ambição humana em alcançar as estrelas. Helena sentiu um aperto no estômago ao pensar em ter que relatar o que havia acontecido. Como ela explicaria a chegada de um objeto alienígena e uma voz telepática a um conselho de cientistas e executivos que valorizavam dados concretos e provas irrefutáveis?

Ela tomou um banho rápido, a água quente parecendo não conseguir lavar o frio que a envolvia. Vestiu o seu melhor traje, um tailleur cinza discreto, mas elegante, tentando projetar uma imagem de controle e profissionalismo que ela estava longe de sentir. Um último olhar para o cubo. A tentação de levá-lo era grande, mas ela decidiu deixá-lo ali, um segredo guardado em sua casa. Talvez fosse mais seguro assim.

O trânsito na Marginal Pinheiros era um pesadelo previsível. Carros autônomos deslizavam em um fluxo organizado, mas a quantidade era sufocante. Helena pegou um transporte público de alta velocidade, sentindo-se observada. Seria sua própria paranoia? Ou algo mais?

Ao chegar ao prédio da Aethelburg, foi recebida por seguranças impecáveis em seus uniformes escuros. Seu crachá de acesso foi escaneado, e ela foi conduzida por corredores imaculados até uma sala de reuniões no trigésimo andar. A vista da cidade era deslumbrante, mas para Helena, parecia um ninho de formigas agitadas, alheias ao drama que se desenrolava nas alturas.

Na sala, os rostos familiares e alguns novos a aguardavam. Dr. Elias Thorne, o diretor de pesquisa da Aethelburg, um homem de cabelos grisalhos e olhar penetrante, estava sentado à cabeceira da mesa. Ao seu lado, Dra. Isabella Rossi, uma bioengenheira renomada, com uma beleza fria e calculista. E também o General Silva, representante do governo na área de defesa espacial, um homem de poucas palavras e muitas insígnias.

“Helena, que bom que chegou”, disse Thorne, sua voz grave e sem rodeios. “Por favor, sente-se.”

Ela obedeceu, sentindo todos os olhares sobre si.

“Como sabem, fomos convocados aqui para discutir as leituras anômalas que o Observatório de Valinhos registrou nas últimas semanas”, começou Thorne. “Leituras que, até então, não conseguíamos categorizar.” Ele fez uma pausa, olhando para Helena. “Helena, você foi a primeira a detectar a anomalia. E, segundo os nossos dados, a última a registrar qualquer coisa significativa.”

Helena respirou fundo. Era a hora.

“Sim, Dr. Thorne”, ela começou, sua voz mais firme do que esperava. “As leituras são… sem precedentes. Uma assinatura energética desconhecida, que não se alinha com nenhum fenômeno astrofísico conhecido. Ela se manifestou de forma intermitente, mas com uma intensidade crescente.”

“E você tem alguma teoria?”, perguntou o General Silva, a voz áspera.

“Teorias são especulações, General. O que temos são dados”, respondeu Helena, com um toque de frieza. “No entanto, as características da anomalia sugerem uma origem artificial. Algo deliberado.”

Um burburinho percorreu a sala. Isabella Rossi arqueou uma sobrancelha, um leve sorriso de ceticismo brincando em seus lábios.

“Artificial?”, repetiu Rossi, com um tom de incredulidade. “Artificial como, Dra. Helena? De uma civilização avançada que decidiu nos mandar um postal?”

Helena ignorou a ironia. “É uma possibilidade que não podemos descartar. A complexidade da assinatura, a forma como ela se manifesta… é tudo muito organizado.”

“Organizado como?”, insistiu Thorne, inclinando-se para frente. “Fale-nos o que você realmente viu, Helena. O que os dados não dizem.”

E então, Helena decidiu arriscar. Ela não podia mentir. E, de alguma forma, sentia que eles precisavam saber.

“Ontem à noite… algo aconteceu”, começou ela, a voz diminuindo um pouco. “Um objeto foi deixado na porta do meu apartamento.”

O silêncio na sala era palpável. Thorne a olhava com uma intensidade renovada, e até mesmo Isabella Rossi parecia ter perdido seu ar de superioridade.

“Um objeto?”, repetiu Thorne. “Que tipo de objeto?”

“Um cubo metálico. Perfeito, liso. E… ele emitiu uma luz. Uma luz que formou um padrão estelar. Um padrão que eu… que eu reconheci. Era a representação da anomalia que estávamos rastreando.”

O General Silva soltou um riso seco, sem humor. “Isso é ridículo. Uma criança brincando de ficção científica?”

“General, eu sou uma cientista”, retrucou Helena, sentindo o rubor subir em suas bochechas. “Eu trabalho com fatos. E aquele objeto, e o padrão que ele exibiu, são fatos. E mais do que isso”, ela hesitou, olhando para Thorne. “Eu… eu recebi uma comunicação. Direta na minha mente.”

A sala explodiu em murmúrios. Isabella Rossi riu abertamente. “Telepatia? Helena, você bebeu algo ontem à noite que não era água?”

“Dra. Rossi, com todo o respeito, eu sei o que ouvi. E sei o que vi. Acreditem ou não, isso é o que aconteceu.” Helena sentiu-se exposta, vulnerável. Mas a verdade era tudo o que ela tinha.

Thorne levantou uma mão, pedindo silêncio. Seu olhar estava fixo em Helena, avaliando. Ele era um homem que lidava com o desconhecido, mas mesmo para ele, aquilo era um salto.

“Você disse que o padrão estelar era familiar”, disse Thorne, mudando de assunto sutilmente. “Familiar como?”

Helena hesitou. Era a parte mais perturbadora. “É… é o nosso sistema solar. Mas com uma diferença. Uma estrela que não existe. Ou que… que não deveria existir.”

O olhar de Thorne se tornou mais sombrio. Ele trocou um olhar rápido com o General Silva, um entendimento tácito passando entre eles.

“Uma estrela que não deveria existir?”, repetiu Thorne. “Você pode descrever?”

Helena fechou os olhos por um instante, tentando reconstruir a imagem em sua mente. “Era um ponto de luz intenso, de uma cor… um azul vibrante, quase como um safira. E estava posicionado de forma que… que mudava toda a dinâmica orbital do nosso sistema. Era como se… como se fosse um substituto. Ou um complemento.”

“Um substituto? Para quê?”, perguntou Rossi, sua voz perdendo um pouco do seu tom sarcástico.

“Eu não sei”, admitiu Helena. “Mas a forma como o mapa estelar foi desenhado, os caminhos de energia que ele indicava… tudo apontava para essa estrela. E para um destino.”

“Que destino?”, o General Silva perguntou, sua voz soando mais tensa.

“A Terra”, respondeu Helena, a voz um sussurro. “O padrão indicava a Terra. E a mensagem que recebi… foi ‘Não tema. Este é apenas o começo.’”

Thorne se recostou na cadeira, pensativo. O ceticismo inicial parecia ter dado lugar a uma preocupação palpável.

“Uma estrela azul. Um padrão estelar que indica a Terra. E uma mensagem de boas-vindas. Isso é… desconcertante”, murmurou Thorne. “General, sua equipe tem alguma informação sobre anomalias energéticas recentes ou padrões incomuns em observações militares?”

O General Silva franziu a testa. “Nossas observações de longo alcance captaram algumas flutuações estranhas, mas nada que pudéssemos identificar. Pensamos que eram falhas nos sensores ou fenômenos atmosféricos raros. Nada que se assemelhasse a uma estrela nova.”

“E quanto a você, Isabella?”, perguntou Thorne. “Algum avanço em seus projetos de detecção de vida extraterrestre que possa explicar isso?”

Isabella Rossi balançou a cabeça. “Nossos bio-sensores são projetados para detectar assinaturas biológicas, não eventos cosmológicos. Mas… se Helena estiver certa sobre uma origem artificial, talvez possamos adaptar nossos equipamentos. A anomalia energética que ela descreve pode ter uma componente que nossos sensores podem captar.”

Thorne olhou para Helena. “Helena, eu acredito em você. Ou pelo menos, acredito que você viu e ouviu algo que a perturbou profundamente. E essa perturbação pode ser a chave. Você pode nos mostrar esse cubo?”

Helena assentiu. Ela sentia que, para superar o ceticismo, precisava apresentar provas. Mas uma dúvida ainda a corroía. Ela havia contado a verdade, mas estava preparada para as consequências? E, mais importante, o que ela realmente queria que acontecesse? Ela buscava respostas, mas estava pronta para o que essas respostas pudessem revelar?

“Sim, Dr. Thorne. Eu posso.”

A porta da sala de reuniões se abriu, e um guarda de segurança, a quem Helena não reconheceu, entrou com uma caixa lacrada. Dentro dela, repousava o cubo metálico, agora silencioso e inerte. Um objeto de um mundo distante, posado ali, no centro da ambição humana, um prenúncio de um futuro incerto. O mensageiro havia entregado sua carga, e agora, Helena, a cientista que buscava a verdade nas estrelas, se via no centro de um mistério que poderia mudar o destino da humanidade para sempre. A dúvida era um veneno lento, mas a esperança de uma resposta, por mais assustadora que fosse, a impulsionava para frente.

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