Amor no Espaço III
Capítulo 12 — O Sussurro nas Entrelinhas do Tempo
por Danilo Rocha
Capítulo 12 — O Sussurro nas Entrelinhas do Tempo
O ar da Terra, mesmo filtrado e climatizado pelos sistemas de segurança da estação de pesquisa, parecia pesado para Elias Thorne. Ele observava as imagens de Lara descendo nas profundezas de Xylos, a cada segundo sentindo a angústia aumentar. Os dados sobre a anomalia energética eram perturbadores. Era como se o próprio espaço-tempo estivesse se contorcendo ao redor daquele planeta esquecido.
“Capitã Rostova, a assinatura energética que detectamos em Xylos… ela se parece com os resíduos de um evento temporal. Algo que não compreendemos completamente, mas que vimos em pequena escala em nossos laboratórios.” Elias esfregou as têmporas, o cansaço gravado em seu rosto. “Lara está correndo um risco imenso.”
Eva assentiu, os olhos fixos na tela principal onde Lara agora se movia com urgência de volta à superfície. “Eu entendo sua preocupação, Doutor. Mas ela é uma cientista brilhante. E está lá por uma razão. Nosso dever é dar a ela o suporte necessário e a segurança que pudermos.” A voz de Eva era firme, mas Elias podia sentir a tensão subjacente em sua equipe. O desconhecido era sempre um inimigo formidável.
Enquanto isso, a bordo da “Estrela Cadente”, Alex se sentia impotente. Ver Lara em perigo, a centenas de anos-luz de distância, e ser capaz apenas de observar, era uma tortura. Seus dedos tamborilavam nervosamente na consola, seus olhos fixos no feed de vídeo. A cada passo que Lara dava para cima, ele sentia um alívio momentâneo, seguido por uma nova onda de ansiedade.
“Lara, você está bem? O que está acontecendo?” A voz de Alex soava quase desesperada em seu comunicador.
“Estou… estou bem, Alex. Mas… algo me seguiu. Ou algo foi despertado.” A voz de Lara estava ofegante, mas havia uma clareza em sua determinação. “Aquela… esfera. Ela não é apenas um registro. É uma chave. E eu acho que a acionei.”
A revelação fez Elias ofegar. “Uma chave? Lara, o que você quer dizer com isso?”
“Eu não sei, Elias. Mas as imagens que vi… não eram apenas sobre o passado. Havia algo sobre o futuro também. Uma… uma convergência. E um aviso.” Lara hesitou. “Eles não estavam apenas registrando sua história. Eles estavam tentando nos alertar sobre algo. Algo que está vindo.”
De volta à superfície de Xylos, o céu violeta parecia mais sombrio. Lara emergiu do túnel, o traje espacial coberto de poeira cinzenta. O vento uivava com mais força, e ela sentiu uma presença, sutil mas inegável, pairando no ar.
“Alex, a nave! Precisamos decolar imediatamente!”
“Entendido, Lara! A nave está pronta. Os propulsores estão aquecidos.” A voz de Alex trazia um tom de urgência. “O que você sentiu lá embaixo?”
“É difícil descrever. Uma… uma interferência. Como se o tempo estivesse se distorcendo ao meu redor por um breve momento. E aquela figura… ela parecia… real.” Lara se apressou em direção à nave de pouso, seus passos ecoando na solidão desolada.
Enquanto Lara se dirigia à nave, uma pequena unidade de exploração autônoma, enviada por Elias para coletar amostras, começou a exibir leituras bizarras. Seus sensores, projetados para analisar matéria e energia, registravam flutuações temporais.
“Doutor Thorne, unidade 7 está relatando anomalias temporais locais,” informou o técnico a bordo da “Estrela Cadente”. “As leituras são inconsistentes, mas sugerem distorções significativas em um raio de aproximadamente cinquenta metros ao redor da unidade.”
Elias olhou para a tela, a testa franzida em preocupação. “Cinquenta metros? Isso é… isso é muito mais do que o previsto. Lara, você está sentindo alguma coisa?”
Lara, já dentro da nave, olhou para fora, para a paisagem desolada. A poeira que o vento levantava parecia se mover de forma estranha, às vezes rápida demais, às vezes lenta demais. “Sim, Elias. Sinto que o tempo não está… linear. É como se estivesse piscando.”
A nave de pouso decolou, perfurando o céu violeta de Xylos. No momento em que a nave alcançou a órbita, uma onda de energia, invisível mas poderosa, emanou da superfície do planeta. A “Estrela Cadente” tremeu violentamente.
“O que foi isso?!” Eva exclamou, segurando-se na consola.
“A fonte da energia… ela está se espalhando,” Elias disse, sua voz tensa. “Não é apenas em Xylos. A anomalia está se propagando. E a natureza dela… não é espacial. É temporal.”
Ele voltou seus olhos para os dados que Lara havia transmitido da esfera. Havia algo ali, nas entrelinhas dos complexos símbolos e imagens. Uma mensagem codificada, não em linguagem, mas em padrões de energia. Ele ativou os algoritmos de decodificação mais avançados.
“Elias, o que você está fazendo?” Eva perguntou, observando os complexos cálculos que apareciam na tela.
“Estou tentando entender o aviso de Lara. Aquela esfera… ela não era apenas um registro. Era um dispositivo de alerta. E a mensagem… é sobre algo que transcende o tempo e o espaço. Uma entidade. Uma força. Algo que eles chamavam de ‘O Tecelão do Tempo’.”
Os olhos de Elias se arregalaram à medida que os dados se desdobravam. “O Tecelão do Tempo… ele não cria o tempo, ele o manipula. Ele se alimenta de eventos significativos, de pontos de inflexão na história cósmica. E o artefato que estamos buscando… ele é uma ferramenta para controlá-lo. Ou para nos defender dele.”
A nave de Lara se acoplou à “Estrela Cadente”. A primeira coisa que Lara fez ao sair foi procurar por Elias. Ela o encontrou na ponte, com uma expressão de profunda preocupação.
“Elias, o que está acontecendo? Aquela energia…”
“É o Tecelão do Tempo, Lara. Ou, mais precisamente, ele está sendo atraído para cá. E Xylos era um ponto focal. A esfera que você encontrou era um sistema de alerta, projetado para avisar aqueles que pudessem entender.”
“Mas por que agora? E por que nós?”
“Talvez o artefato tenha nos sintonizado com essa frequência. Ou talvez a sua própria existência, a de vocês, represente um ponto de inflexão. Algo que o atrai.” Elias olhou para Lara, seus olhos transmitindo a gravidade da situação. “A missão mudou, Lara. Não estamos mais apenas procurando um artefato. Estamos tentando evitar um desastre cósmico. O Tecelão do Tempo pode reescrever a realidade. E se ele nos vir como uma ameaça… ele pode simplesmente nos apagar da existência.”
Lara sentiu um arrepio gelado percorrer sua espinha. A aventura espacial romântica que ela imaginara havia se transformado em algo muito mais sombrio e perigoso. As lembranças das imagens na esfera voltaram à sua mente: o ciclo de criação e destruição. O Tecelão do Tempo era o motor desse ciclo.
“Precisamos encontrar o artefato. E rápido,” Lara disse, sua voz agora firme, determinada. “Precisamos entender como ele se relaciona com o Tecelão do Tempo. Se é uma arma, uma defesa… ou algo mais.”
Alex se aproximou, sua mão pousando gentilmente no ombro de Lara. “Nós faremos isso, Lara. Juntos.”
Na vastidão do espaço, a ameaça de algo que manipulava a própria trama do tempo era um inimigo que nenhum protocolo de combate ou estratégia militar poderia prever. A busca pelo artefato havia se tornado uma corrida contra o próprio tempo, com o destino de incontáveis realidades em jogo. O eco silencioso de Xylos havia se transformado em um sussurro aterrorizante nas entrelinhas do tempo.