Mundos Paralelos II
Capítulo 10 — O Reino de Umbra
por Alexandre Figueiredo
Capítulo 10 — O Reino de Umbra
A transição foi brutal. Sofia sentiu seu corpo sendo esticado, comprimido, como se fosse moldado por forças invisíveis. A escuridão a engolfou, uma escuridão tão profunda que parecia ter substância, uma ausência de luz que era, paradoxalmente, mais palpável do que qualquer coisa que ela já havia experimentado. O som penetrante que ecoara no laboratório cessou, substituído por um silêncio absoluto, um silêncio que parecia sussurrar segredos antigos.
Quando a sensação de desorientação diminuiu, Sofia abriu os olhos. Ou melhor, tentou abri-los. A visão, tal como a conhecia, parecia ter se tornado inútil. Não havia luz, mas também não havia escuridão total. Era uma penumbra perpétua, um estado intermediário onde as formas eram indistintas, mas perceptíveis. Era como se a própria realidade estivesse feita de sombras.
Ela olhou para sua mão, a que fora tocada pela entidade sombria. Estava translúcida, quase etérea. E a entidade... ela estava ao seu lado, agora mais definida, mas ainda envolta em uma aura de melancolia. A forma era vagamente humana, mas suas extremidades pareciam se dissolver em névoa, e onde deveria haver um rosto, havia apenas um vazio que parecia carregar o peso de mil eras.
"Onde... onde estou?", perguntou Sofia, a voz soando estranhamente abafada, como se estivesse falando através de um véu.
A entidade não respondeu com palavras, mas com uma série de tons baixos e ressonantes que Sofia, surpreendentemente, conseguiu compreender em um nível intuitivo. Era como se a linguagem tonal que ela e Dr. Vance vinham estudando tivesse se tornado sua própria forma de comunicação.
“Em Umbra”, soou a "voz" em sua mente, um eco de tons melancólicos. “O lugar onde a luz é esquecida e a sombra é… abraçada.”
Sofia olhou ao redor. As paisagens eram difíceis de discernir, compostas por formas sombrias que se contorciam e mudavam. Não havia chão sólido sob seus pés, mas uma superfície que parecia ceder suavemente, como areia movediça de escuridão. As "árvores" eram formas retorcidas que pareciam sugar a pouca luminosidade que existia, e o "céu" era uma abóbada de tons mais escuros ainda, onde silhuetas distantes flutuavam como espectros.
"Você me trouxe aqui", disse Sofia, mais para si mesma do que para a entidade. "Você me chamou."
“Procurei… esperança”, ressoou a voz mental. “Uma ressonância. Uma luz… em um mar de… des-luz.”
Sofia sentiu uma pontada de tristeza. Essa entidade, esse ser de Umbra, estava tão perdido quanto ela estava em sua busca por Lucas. "Você perdeu alguém?", perguntou ela, sua voz tingida de compaixão.
A entidade projetou uma imagem em sua mente, uma imagem mental feita de tons e sentimentos. Era a imagem de um ser luminoso, radiante, que se desvanecia em um turbilhão de escuridão. Uma perda imensa, insuportável.
"É por isso que você me chamou", disse Sofia, entendendo agora a profunda melancolia que emanava da entidade. "Você viu em mim a mesma dor, a mesma busca. Você achou que eu poderia ajudá-lo a encontrar o que perdeu."
“Você… veio”, a voz soou com um toque de surpresa. “Muitos sentem a dor, mas poucos ousam cruzar. Poucos… ousam abraçar a sombra para buscar a luz que falta.”
Sofia sentiu um misto de orgulho e receio. Ela havia cruzado um limiar, não apenas dimensional, mas existencial. Estava agora imersa em um mundo onde a lógica e a física de seu universo não se aplicavam.
"Eu estou procurando por meu irmão", disse ela, a voz carregada de esperança. "Lucas. Ele desapareceu há dois anos. Eu acredito que ele pode ter atravessado para cá, ou que esta dimensão esteja conectada de alguma forma à sua pesquisa."
A entidade projetou outra imagem mental. Desta vez, era uma figura tênue, quase transparente, movendo-se em meio às formas sombrias. A figura parecia emitir um leve brilho, uma luz fraca que lutava contra a escuridão. Sofia sentiu um arrepio. Era um brilho fraco, mas inconfundível. Parecia… familiar.
"É ele?", perguntou ela, a voz embargada. "Você viu meu irmão?"
A entidade emitiu uma série de tons que pareciam indicar incerteza, mas também um reconhecimento de algo que já havia sido visto.
“Ele… está aqui. Preso. Buscando… uma saída. Um caminho de volta. Mas a… des-luz… é forte. Engole… a luz.”
Sofia sentiu o coração acelerar. Lucas estava aqui. Vivia em Umbra, lutando contra a escuridão. A entidade a havia trazido para ajudá-lo, para ser a luz que ele precisava.
"Eu preciso encontrá-lo", disse ela, com uma determinação renovada. "Você pode me mostrar onde ele está?"
A entidade projetou uma direção, uma série de tons que indicavam um caminho a ser seguido. Era um percurso através das paisagens sombrias e mutáveis de Umbra.
“O caminho é perigoso. A des-luz… tem suas próprias criaturas. E o tempo… aqui… é diferente. O que é um instante para você… pode ser uma eternidade para ele.”
Sofia assentiu, aceitando o desafio. Ela não podia voltar atrás agora. Ela havia cruzado o limiar, e seu objetivo era claro: encontrar Lucas.
Ela começou a caminhar, guiada pela entidade sombria. Cada passo era uma luta contra a superfície instável, contra a sensação de ser sugada pela escuridão. As formas sombrias ao seu redor pareciam observá-la, suas silhuetas mutáveis, mas seus "olhos" – se é que podiam ser chamados assim – pareciam fixos nela.
De repente, um som diferente ecoou na penumbra. Era um som agudo, metálico, seguido por um grito.
“Cuidado!”, soou a voz mental da entidade. “A criatura da sombra!”
Da escuridão à frente, emergiu uma forma grotesca. Era uma massa informe de sombras sólidas, com múltiplos apêndices que se contorciam e garras afiadas que brilhavam com um brilho opaco. Seus "olhos" eram poços de escuridão profunda, que pareciam sugar toda a esperança.
A entidade sombria se colocou entre Sofia e a criatura, projetando uma série de tons defensivos. Mas a criatura era feroz, atacando com uma velocidade surpreendente.
Sofia sentiu o medo tomá-la, mas então se lembrou do que a havia trazido até ali. A busca por Lucas. A esperança de um reencontro. Ela olhou para sua mão, a mão translúcida que parecia absorver a pouca luz ambiente.
"Eu não sou apenas uma espectadora", murmurou ela. "Eu tenho que lutar."
Ela se concentrou, tentando evocar a "luz" que ela sentia dentro de si, a luz de seu amor por Lucas, a força de sua determinação. Ela projetou essa luz mentalmente, direcionando-a para a criatura sombria.
Para sua surpresa, a luz teve um efeito. A criatura recuou, sibilando, como se a luz fosse dolorosa para ela. A entidade sombria aproveitou a oportunidade e emitiu uma série de tons poderosos, uma "onda sonora" que atingiu a criatura com força, fazendo-a se dissipar nas sombras.
A entidade se virou para Sofia, projetando um sentimento de gratidão. “Você… tem luz. Uma luz que… a sombra teme.”
Sofia sentiu uma nova esperança surgir. Talvez ela não estivesse completamente indefesa em Umbra. Talvez, de alguma forma, ela pudesse usar sua própria essência, sua própria "luz", para navegar naquele mundo de escuridão.
"Obrigada", disse ela, genuinamente grata. "Vamos. Precisamos encontrar meu irmão."
Guiada pela entidade, Sofia continuou sua jornada através do labirinto de sombras. A cada passo, ela se sentia mais conectada a esse mundo estranho e assustador. A escuridão de Umbra não era mais apenas a ausência de luz, mas um reino de possibilidades, um lugar onde o amor e a esperança podiam, de fato, encontrar um caminho. E, em seu coração, ela sabia que a figura tênue que vira, o brilho fraco lutando contra a escuridão, era Lucas. E ela não descansaria até encontrá-lo e trazê-lo de volta para a luz.