Mundos Paralelos II

Capítulo 22 — O Fragmento da Realidade

por Alexandre Figueiredo

Capítulo 22 — O Fragmento da Realidade

Os dias que se seguiram ao despertar de Aurora foram um turbilhão de sensações. A euforia inicial de tê-la de volta, sã e salva, dava lugar a uma rotina cautelosa de recuperação. Aurora, embora fisicamente mais forte a cada dia, ainda lutava contra os resquícios da sua jornada dimensional. Sonhos vívidos e fragmentados a assombravam durante o sono, ecos do abismo e das luzes que a haviam consumido. Lucas permanecia ao seu lado, um pilar de apoio inabalável, lendo para ela, conversando sobre o passado, sobre o futuro, tentando ancorá-la na realidade que eles compartilhavam.

"Você está com fome?", Lucas perguntou, trazendo uma bandeja com um caldo reconfortante e frutas frescas. A luz do sol da manhã filtrava pelas janelas do laboratório, que agora parecia menos um hospital e mais um refúgio.

Aurora assentiu, um sorriso fraco brincando em seus lábios. "Estou começando a me sentir humana de novo. Obrigada, meu amor." Ela pegou a colher e levou o caldo à boca, saboreando o calor que se espalhava por seu corpo. "O que o doutor Arnaldo disse sobre o que aconteceu comigo?"

Lucas sentou-se na beira da cama, a expressão séria. "Ele disse que você entrou em um estado de dissociação profunda. Sua consciência se fragmentou para tentar suportar a exposição a energias que nosso cérebro não consegue processar. Ele acredita que você esteve em um 'limbo' entre as dimensões."

"Um limbo...", Aurora repetiu, o olhar perdido. "Eu senti isso. Uma sensação de estar em lugar nenhum, mas em todos os lugares ao mesmo tempo. Era... avassalador." Ela parou, uma lembrança súbita a atingindo. "Lucas, eu vi algo. Um fragmento. Uma imagem que não consigo tirar da cabeça."

Lucas se inclinou para frente, o coração acelerado. "Que imagem, Aurora? O que você viu?"

"Era... um lugar. Um planeta diferente. O céu era de um tom de violeta profundo, e havia duas luas, uma prateada e outra de um vermelho vibrante. E a arquitetura... era como nada que eu já tivesse visto. Estruturas flutuantes, feitas de um material que parecia cristal vivo. E havia... pessoas. Ou algo parecido com pessoas. Eram esguias, com peles que brilhavam suavemente, e seus olhos... eram como estrelas."

Os olhos de Lucas se arregalaram. Aquilo não era um delírio qualquer. Era detalhado, vívido. "Um planeta violeta com duas luas? E seres de luz?"

"Sim", Aurora confirmou, a voz ganhando um tom de urgência. "E havia algo mais. Uma sensação. Uma emoção. Era... uma saudade. Uma saudade profunda, como se aquele lugar fosse um lar perdido. E junto com a saudade, havia um aviso. Uma urgência."

Arnaldo, que acabara de entrar no quarto, ouviu as últimas palavras de Aurora e se aproximou, o olhar fixo nela. "Um aviso? Que tipo de aviso?"

Aurora fechou os olhos, concentrando-se. "Era como se eles estivessem nos alertando. Sobre uma ameaça. Algo que se aproxima. Algo que pode destruir ambos os nossos mundos."

"Destruir ambos os mundos?", Arnaldo repetiu, incrédulo. "De onde vem essa ameaça?"

"Eu não sei", Aurora admitiu, a frustração em sua voz. "A imagem se desfez. O sentimento era avassalador, mas os detalhes se perderam. Era como tentar segurar água com as mãos."

Arnaldo franziu a testa, pensativo. "Um planeta em outra dimensão... seres de luz... uma ameaça iminente. Isso se alinha com algumas das teorias mais radicais sobre a interconexão das realidades. Se Aurora realmente testemunhou isso, então a situação é mais grave do que imaginávamos."

"O que isso significa, doutor?", Lucas perguntou, a voz carregada de preocupação.

"Significa que a 'sombra' que Aurora sentiu, o 'chamado do abismo' que a atraiu, pode não ter sido apenas um evento isolado. Pode ter sido um prenúncio. Uma advertência de outra realidade sobre um perigo que transcende as barreiras dimensionais." Arnaldo olhou para Aurora com renovado respeito. "Aurora, você não apenas sobreviveu à experiência, você trouxe de volta uma informação vital. Um fragmento de uma outra realidade, uma mensagem de alerta."

"Mas como isso nos ajuda?", Aurora perguntou, sentindo-se impotente. "Eu não sei onde fica esse planeta, nem quem são esses seres, nem qual é essa ameaça."

"Nós precisamos descobrir", Arnaldo declarou, com uma determinação que contagiou a todos. "Se essa ameaça é real, e pode afetar a Terra, então precisamos nos preparar. E você, Aurora, é nossa principal fonte de informação. Precisamos tentar acessar essas memórias novamente. De forma segura, é claro."

Lucas olhou para Aurora, que, apesar de sua fragilidade, demonstrava uma força interior que o enchia de admiração. "Você está disposta a tentar, Aurora?"

Aurora o olhou nos olhos, um misto de medo e coragem em seu olhar. "Eu lutei tanto para voltar. Para não me perder. Se eu vi algo que pode nos salvar, ou nos alertar, então eu preciso tentar. Eu preciso me lembrar."

Arnaldo assentiu. "Vamos retomar os experimentos, mas com uma abordagem diferente. Precisamos estimular sua mente de forma controlada, guiá-la de volta a esses fragmentos de memória sem arriscar a sua sanidade. Usaremos novas técnicas de neurofeedback, combinadas com projeções sensoriais que imitam as energias que você descreveu."

Nos dias seguintes, o laboratório se tornou um centro de intensa pesquisa. Arnaldo e Lucas trabalharam lado a lado, configurando equipamentos complexos, revisando dados, e, acima de tudo, apoiando Aurora. Ela passava horas em sessões guiadas, conectada a máquinas que monitoravam suas ondas cerebrais e estimulavam áreas específicas do seu córtex.

O processo era exaustivo. Havia momentos em que Aurora mergulhava em paisagens alienígenas, sentia a brisa violeta em seu rosto, ouvia os sussurros de vozes desconhecidas. Em outras vezes, a experiência era angustiante, a sensação de perigo era tão real que ela acordava ofegante, o coração disparado. Lucas estava sempre presente, segurando sua mão, sussurrando palavras de conforto, puxando-a de volta para a realidade com o calor do seu toque.

Uma noite, durante uma sessão particularmente intensa, Aurora começou a descrever algo diferente. "Há uma estrutura", ela sussurrou, os olhos fechados, a voz tensa. "Um artefato. Parece uma esfera de luz pulsante, no centro de uma cidade de cristal. E eu sinto... uma conexão. É como se essa esfera fosse um farol. Ou um portal."

Arnaldo observava os monitores com fascínio. "Uma esfera de luz pulsante? Um portal? Aurora, você consegue se aproximar?"

"Eu... eu estou tentando", ela gemeu, o esforço visível em seu rosto. "A energia é forte. Me atrai. Mas há algo... uma barreira. Algo que me impede de chegar mais perto."

De repente, uma imagem clara surgiu na tela do monitor principal, capturada pelas projeções sensoriais que Arnaldo estava utilizando para visualizar o que Aurora estava experimentando. Era a imagem que ela descrevia: uma cidade de cristal cintilante, com estruturas etéreas que desafiavam a gravidade, e no centro, uma esfera de luz azul intensa, pulsando suavemente.

"É real", Arnaldo sussurrou, maravilhado. "É um portal. Ou algo muito parecido com isso."

Lucas olhou para a imagem, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. "Um portal para onde, Aurora?"

Aurora abriu os olhos, exausta, mas com um brilho de descoberta neles. "Eu não sei. Mas sinto que é importante. Que a resposta está lá. A resposta sobre a ameaça." Ela olhou para Lucas, a determinação agora mais forte do que o medo. "Lucas, nós precisamos ir até lá."

A ideia era audaciosa, perigosa. Viajar para uma dimensão desconhecida, através de um portal misterioso, sem saber o que os aguardava. Mas a ameaça que Aurora havia pressentido, o eco do abismo que ela sentira, era real. E o fragmento da realidade que ela trouxera consigo era a prova. A próxima etapa da jornada estava clara, embora repleta de perigos inimagináveis. Eles precisavam encontrar aquele portal.

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