O Viajante do Tempo II

O Viajante do Tempo II

por Danilo Rocha

O Viajante do Tempo II

Autor: Danilo Rocha

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Capítulo 1 — O Eco de um Amanhã Esquecido

O ar de São Paulo, em 2042, era uma mistura acre de poluição industrial e o perfume adocicado e artificial dos aromatizantes de ambiente espalhados pelas ruas. Era um perfume que tentava mascarar a podridão subjacente, uma prática que Elara sabia bem demais. Ela ajustou o colarinho da jaqueta de couro sintético, o tecido ligeiramente pegajoso em sua pele. O reflexo no vidro de um edifício espelhado mostrava uma mulher com olhos fundos, cercados por olheiras que denunciavam noites em claro, e um cabelo escuro, preso num rabo de cavalo desalinhado. Tinha vinte e oito anos, mas sentia o peso de cem em seus ombros cansados.

Ela esperava, como esperava todas as terças-feiras, a carona de sempre. Um sedã elétrico preto, com vidros fumê, que aparecia pontualmente às 19h03. Não era um encontro romântico, nem um compromisso de trabalho. Era um ritual. Um eco de um futuro que ela tentava incansavelmente reescrever, mas que, de alguma forma, parecia se recusar a ser apagado.

O carro deslizou pela avenida, um sussurro silencioso contra o rugido do tráfego da metrópole. A porta traseira se abriu antes mesmo que ela chegasse perto. Lá dentro, o silêncio era quase palpável, quebrado apenas pelo zumbido suave dos sistemas internos. Sentado no banco do motorista, com as mãos firmes no volante, estava Elias. A luz fraca do painel banhava seu rosto em tons azulados, acentuando as linhas de preocupação em sua testa e o cansaço em seus olhos. Elias era o âncora de Elara. Seu porto seguro em meio à tempestade temporal em que se encontrava. Ele era o único que sabia. O único que a entendia.

"Pronta?", a voz de Elias era grave, tingida por uma melancolia familiar.

Elara entrou, o couro do banco frio contra sua pele. "Pronta para mais uma tentativa de consertar o que o meu eu passado quebrou?" Um sorriso fraco brincou em seus lábios.

Elias soltou um suspiro baixo. "Não foi apenas você, Elara. O tempo é um rio traiçoeiro. E algumas pedras… bem, elas mudam o curso de todos."

O carro partiu, deslizando para o fluxo de tráfego. Elara observava as luzes da cidade passarem, cada prédio, cada sinal de neon, um lembrete do mundo que ela amava e que estava em perigo. Um perigo que ela, de certa forma, havia desencadeado. A viagem no tempo. Uma invenção deslumbrante, um milagre da ciência. E uma maldição. A primeira viagem de Elara, uma expedição curiosa ao passado para testemunhar um evento histórico, deu terrivelmente errado. Um pequeno deslize, uma interação não intencional, e as linhas do tempo se bifurcaram, criando um futuro sombrio que ela agora lutava para evitar.

"Você ainda pensa nele?", perguntou Elias, a pergunta flutuando no ar denso do carro.

Elara desviou o olhar para a janela. A pergunta atingiu um ponto sensível. Ele. O homem que era a razão de sua dor e, ao mesmo tempo, a fonte de sua força. Liam. O arquiteto da máquina do tempo. O homem que acreditou nela mais do que ela mesma. O homem que ela havia perdido.

"O tempo todo", respondeu Elara, a voz embargada. "Como não pensar? Ele foi… ele é a razão pela qual tudo isso começou. E a razão pela qual eu não desisto."

Liam havia morrido em sua linha do tempo original, vítima de uma doença agressiva. A viagem de Elara ao passado, pensou ela, seria sua última chance de vê-lo novamente, de se despedir. Mas o destino, cruel e irônico, interveio. Ela o encontrou em um momento crucial de sua pesquisa, um momento em que sua intervenção, por menor que fosse, alterou a trajetória de sua vida. E, consequentemente, a dela.

"O que você acha que ele pensaria se soubesse?", Elias a olhou, os olhos cheios de uma compaixão que Elara raramente permitia ver.

"Ele me odiaria. Ou me perdoaria. Liam era um mistério até para si mesmo. Mas eu acho que ele entenderia o desespero de querer voltar atrás. O desejo de consertar um erro." Elara apertou as mãos, os nós dos dedos brancos. "O erro não foi a viagem em si, Elias. O erro foi eu ter… me apaixonado por ele na linha do tempo errada."

A linha do tempo em que Elara agora vivia era um reflexo distorcido de sua realidade original. As cidades eram mais cinzentas, a tecnologia avançava de forma desigual, e a opressão velada do governo se tornava cada vez mais sufocante. A descoberta de Liam sobre a viagem no tempo havia sido suprimida, seus estudos confiscados, e a própria máquina, uma maravilha de engenharia quântica, tornada um segredo de estado. Elara, com seu conhecimento íntimo da máquina e do potencial destrutivo que ela carregava, era agora uma fugitiva, operando nas sombras com a ajuda de Elias, um ex-colega de Liam que também se sentia responsável.

"Amanhã é a inauguração do novo centro de pesquisa da Chronos Corp.", disse Elias, mudando de assunto. "O mesmo lugar onde Liam e eu trabalhávamos."

O estômago de Elara deu um nó. A Chronos Corp. A corporação que surgiu das cinzas da pesquisa de Liam, agora a guardiã – ou a carcereira – da tecnologia de viagem no tempo. O prédio era um monólito de vidro e aço que se elevava sobre a cidade, um símbolo de poder e controle.

"Então é lá que vamos tentar acessar os arquivos originais de Liam?", perguntou Elara, o tom de voz adquirindo um fio de aço.

"Sim. Se conseguirmos desativar os sistemas de segurança por tempo suficiente, podemos ter uma chance de encontrar os dados brutos. As equações que provam que a alteração aconteceu. Provas que ninguém pode ignorar." Elias suspirou. "Mas vai ser arriscado. A segurança deles é… impenetrável."

"Nada é impenetrável quando o futuro está em jogo", Elara murmurou, olhando para o céu noturno pontilhado de luzes artificiais. O eco de um amanhã esquecido, um futuro que ela se recusava a aceitar, ecoava em seu coração. Ela sentia o peso da responsabilidade, a dor da perda, mas acima de tudo, sentia uma determinação inabalável. Ela voltaria. Ela consertaria. Ela não pararia até que o verdadeiro Liam, o Liam que ela amou, pudesse viver em um futuro digno dele.

O carro parou em frente a um prédio residencial discreto. "Descansa, Elara. Amanhã vai ser um longo dia." Elias a olhou com um sorriso gentil.

Elara assentiu, o peso do mundo em seus ombros. "Obrigada, Elias. Por tudo."

Ela saiu do carro, o ar frio da noite tocando seu rosto. As luzes da cidade pareciam zombar dela, um espetáculo de opulência que ela sabia ser frágil. Ela caminhou em direção à entrada do prédio, cada passo um eco no silêncio. Ela era a viajante do tempo, a guardiã de um futuro incerto, e sua jornada estava longe de terminar. O eco de um amanhã esquecido era um chamado, e ela estava pronta para respondê-lo.

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