O Viajante do Tempo II
Claro, vamos mergulhar novamente nas profundezas do tempo e do drama humano. Aqui estão os próximos capítulos de "O Viajante do Tempo II", com a intensidade e a paixão que o gênero pede.
por Danilo Rocha
Claro, vamos mergulhar novamente nas profundezas do tempo e do drama humano. Aqui estão os próximos capítulos de "O Viajante do Tempo II", com a intensidade e a paixão que o gênero pede.
Capítulo 11 — O Coração Pulsante de um Passado Esquecido
O ar na sala de controle da Chronos Corp. estava tão denso que se podia cortar com uma faca. O cheiro de ozônio, um subproduto da energia temporal em uso, pairava como um fantasma insistente. Ana Paula, com os olhos fixos nos monitores que cintilavam com dados complexos e gráficos em movimento, sentia o suor escorrer pela sua testa. A máquina, batizada de “Éter”, zumbia com uma potência assustadora, uma promessa de maravilhas e perigos. Ao seu lado, Dr. Elias Thorne, com seus cabelos brancos desgrenhados e uma expressão de quem viu demais, mas ainda ansiava por ver mais, gesticulava freneticamente para um dos cientistas.
“Ajuste a frequência de ressonância em 0.7 Giga-hertz! Precisamos estabilizar o vórtice antes que ele colapse!”, a voz de Elias soava rouca, carregada de urgência.
Ana Paula, apesar da tensão que lhe apertava o peito, conseguia manter a calma exterior. Seu treinamento, sua dedicação à ciência, a impulsionavam. Mas hoje era diferente. Hoje, o objetivo não era uma expedição de rotina, uma observação fria do passado. Hoje, ela estava ali por um motivo pessoal, um que a consumia desde que descobrira a verdade sobre seus pais. A verdade sobre Elias Thorne.
“Dr. Thorne”, disse ela, sem desviar os olhos da tela, “os cálculos estão convergindo. A janela de oportunidade se fecha em menos de dez minutos.”
Elias se virou para ela, seus olhos cansados, mas ainda brilhantes com uma inteligência afiada, encontraram os dela. “Eu sei, Ana Paula. E você sabe que esta é a sua chance. A sua única chance de… confrontar tudo.”
O Confronto. A palavra ecoou na mente de Ana Paula. Confrontar o homem que roubou o tempo de sua família, o homem que, segundo as poucas pistas que encontrou, era o responsável pela tragédia que a lançou em um orfanato, sozinha. E agora, ela estava prestes a usar a mesma tecnologia que ele ajudou a criar para ir atrás dele. Não para vingança, mas para entender. Para buscar a verdade que lhe foi negada por tantos anos.
“Eu estou pronta”, respondeu ela, a voz firme, mas com uma ligeira trepidação.
A Éter começou a emitir um brilho intenso, azul-cobalto, que preencheu a sala. O chão tremia sob seus pés. Os instrumentos registravam picos de energia sem precedentes. O ar se ionizou, fazendo os pelos de seus braços se eriçarem.
“Iniciando sequência de salto temporal”, anunciou a voz sintetizada da máquina. “Destino: Rio de Janeiro, 1985. Data exata: 12 de junho.”
1985. O ano em que seus pais desapareceram. O ano que ela, uma criança de apenas sete anos, guardava como um pesadelo distante, cheio de vultos, gritos abafados e a sensação avassaladora de abandono. Agora, ela voltaria a esse tempo, não como a vítima, mas como a investigadora.
Enquanto a luz azul se tornava insuportável, Ana Paula sentiu uma pontada de dúvida. E se Elias Thorne, o verdadeiro Elias Thorne, a encontrasse lá? E se a Chronos Corp. estivesse observando cada movimento seu, esperando que ela tropeçasse em suas próprias armadilhas temporais? Ela havia agido nas sombras, usando os recursos da corporação com a ajuda de Elias, o atual Elias, que, apesar de seus protestos iniciais, acabou cedendo à necessidade de Ana Paula em buscar suas origens. Ele alegava que sua participação era para garantir que ela não se perdesse no tempo, mas ela sentia que havia mais ali, uma culpa que ele tentava expiar.
“Ana Paula, lembre-se do protocolo”, disse Elias, sua voz soando distante agora, como se viesse do fundo de um poço. “Seja discreta. Não altere eventos cruciais. E, acima de tudo, cuide-se.”
Ela assentiu, mas suas palavras foram engolidas pelo rugido crescente da Éter. O laboratório se dissolveu em uma miríade de cores e formas distorcidas. Sentiu como se seu corpo estivesse sendo esticado e comprimido simultaneamente, uma sensação nauseante de desintegração e reconstituição. Era a viagem no tempo. Uma experiência que desafiava toda a lógica, toda a física conhecida.
Quando a luz diminuiu e a sensação de vertigem cedeu, Ana Paula abriu os olhos. O cheiro de ozônio se dissipou, substituído por um aroma familiar, embora há muito tempo esquecido: maresia e o doce perfume das flores de ipê, misturados com a fumaça dos escapamentos dos carros. Ela estava em uma rua movimentada, o sol forte do meio-dia batendo em seu rosto. As roupas que ela usava, um conjunto discreto de jeans e uma blusa simples, eram adequadas para a época, graças à pesquisa meticulosa de Elias.
Olhou ao redor. Carros antigos, modelos que ela só vira em fotos, circulavam pela avenida. As pessoas vestiam roupas coloridas, e a música que ecoava de um carro aberto era um ritmo que ela reconheceu como um sucesso da década de 80. Era o Rio de Janeiro de 1985. O Rio de Janeiro de sua infância.
Seu coração batia descompassado, uma mistura de euforia e medo. Ela estava aqui. No passado. O passado de sua família. Respirou fundo, tentando controlar a avalanche de emoções que ameaçava derrubá-la. Elias havia lhe dado um endereço: o antigo lar de seus pais. Uma casa simples, em um bairro que, na época, era tranquilo e arborizado.
Com passos firmes, ela começou a caminhar, misturando-se à multidão. Cada esquina virada era um passo em direção ao desconhecido, à verdade. Ela sabia que a Chronos Corp. tinha um olho no passado, mas ela esperava que sua viagem fosse indetectável. Que ela pudesse encontrar o que procurava sem acionar nenhum alarme temporal.
Enquanto caminhava, uma imagem surgiu em sua mente: o rosto de seus pais, sorrindo em uma fotografia desbotada que guardara por anos. A lembrança era um bálsamo e uma ferida aberta. Ela se perguntou se, ao chegar ao passado, seria capaz de vê-los novamente, mesmo que de longe. Se seria capaz de entender por que foram levados, por que ela foi deixada para trás.
A rua que levava à casa de seus pais era exatamente como Elias descrevera. As árvores frondosas, o silêncio pontuado pelo canto dos pássaros. E lá estava ela, a casa. Uma construção modesta, com um jardim bem cuidado, repleto de flores coloridas. O portão estava entreaberto.
Ana Paula hesitou por um momento. Estava prestes a invadir um pedaço da história alheia, o pedaço que era seu por direito. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A casa parecia tão normal, tão pacífica. Quem poderia imaginar que, por trás daquelas paredes, um segredo terrível se escondia?
Ela empurrou o portão suavemente e entrou no jardim. O aroma das rosas era inebriante. Caminhou devagar em direção à porta da frente, o coração martelando no peito como um tambor desgovernado. A cada passo, sentia a presença de uma energia diferente, uma energia temporal que não era natural, mas que emanava da própria estrutura da casa. Era a assinatura da Éter, ou algo relacionado a ela.
Chegando à porta, ela ergueu a mão para tocar a madeira, mas parou. Uma voz familiar ecoou de dentro da casa, uma voz que a fez congelar no lugar. Era a voz de Elias Thorne. Mas não o Elias Thorne que a ajudara a viajar no tempo. Era um Elias Thorne mais jovem, com uma entonação diferente, mais fria, mais calculista.
“A manipulação está completa, Dr. Aris”, disse a voz de Elias. “O dispositivo está ativo e o temporal de contenção está pronto. Eles não terão chance de escapar desta vez.”
Dr. Aris. Aquele nome… Ana Paula o havia visto em alguns documentos antigos, um dos fundadores da Chronos Corp., um cientista brilhante, mas recluso. E Elias… o que ele estava fazendo ali? O que ele estava planejando com aquele Dr. Aris?
Uma onda de desespero a atingiu. Ela não estava apenas investigando seu passado. Ela havia tropeçado em algo muito maior, algo que envolvia os próprios fundadores da Chronos Corp., e a presença de Elias, o mais jovem, em um momento tão crucial.
Ela se agachou junto à janela, espiando pela fresta. A sala era escura, mas ela conseguia distinguir duas figuras em pé, perto de uma mesa. Uma delas era Elias, mais jovem, impecavelmente vestido, com um brilho frio nos olhos. A outra figura, o Dr. Aris, era um homem mais velho, com um rosto anguloso e um olhar penetrante.
“Excelente, Elias”, disse Dr. Aris, sua voz com um sotaque estrangeiro que Ana Paula não conseguia identificar. “A sua lealdade é admirável. Com a Éter em nossas mãos, e o temporal de contenção ativo, teremos controle absoluto sobre o fluxo do tempo. Ninguém poderá interferir em nossos planos. A Chronos Corp. será o novo destino da humanidade, guiada por nós.”
O coração de Ana Paula afundou. Controle absoluto? Planos? Ela não podia acreditar no que estava ouvindo. O Elias Thorne que ela conhecia, o Elias que a ajudou, poderia ter tido um papel tão central em um plano tão sombrio? Ou seria este Elias uma versão completamente diferente, separada pela linha do tempo?
Ela precisava saber mais. Precisava entender o que havia acontecido com seus pais. Mas a presença deles ali, a conversa sobre a Éter e o temporal de contenção, a deixava em um estado de alerta máximo. Ela estava no meio de um evento crucial, um evento que poderia ter sido o catalisador para a tragédia de sua família.
Com cuidado, ela se afastou da janela, tentando não fazer nenhum barulho. A missão de Ana Paula havia mudado drasticamente. Não era mais apenas uma busca por respostas pessoais. Era uma corrida contra o tempo para desvendar uma conspiração que parecia envolver a própria fundação da Chronos Corp. E ela estava sozinha, no passado, sem saber em quem confiar. O coração pulsante de um passado esquecido agora batia com a ameaça iminente de um futuro controlado por mentes sombrias.