O Viajante do Tempo II
Capítulo 12 — O Labirinto de Ecos e Reflexos
por Danilo Rocha
Capítulo 12 — O Labirinto de Ecos e Reflexos
Ana Paula recuou para a sombra das árvores, o corpo tenso como uma corda de violino prestes a arrebentar. As palavras de Elias Thorne, o Elias mais jovem, e do Dr. Aris ecoavam em sua mente, um coro sinistro que pintava um quadro aterrador. Controle absoluto. Manipulação. Temporal de contenção. Cada termo era uma facada em sua esperança de apenas encontrar respostas.
Ela se sentia presa em um pesadelo, uma intrusa em um momento que não deveria ter presenciado. A casa que deveria ser o refúgio de sua infância agora era um palco para um crime contra o próprio tempo. A presença de Elias ali, agindo em conluio com um dos fundadores da Chronos Corp., era um golpe devastador. Como poderia o homem que a guiara até ali, que lhe oferecera uma chance de reencontrar seu passado, estar envolvido em algo tão vil?
“Não é possível…”, murmurou para si mesma, a voz embargada. “Ele não pode ser… ele não pode ser o mesmo homem.”
Mas a linha do tempo era traiçoeira. As múltiplas versões de uma pessoa existiam. A viagem no tempo não era apenas sobre visitar o passado, mas sobre a possibilidade de encontrar ecos distorcidos de si mesmo, ou de outros. Elias era um viajante do tempo. Ele possuía a tecnologia. Poderia ter planejado tudo?
O desespero ameaçou consumi-la. Ela estava sozinha, desarmada, em um tempo que não era o seu, diante de uma ameaça que ela mal conseguia compreender. A Chronos Corp., a organização que ela acreditava ser um bastião da ciência, parecia ter nascido de ambições sombrias.
Precisava pensar. Precisava agir. A discrição era a palavra de ordem, mas como ser discreta quando se tropeça em uma conspiração tão monumental? Seus pais… eles eram vítimas desse plano? Eles tentaram impedir algo? A ideia acendeu uma pequena faísca de esperança em meio à escuridão. Talvez a razão do desaparecimento deles estivesse ligada a essa descoberta.
Com o coração ainda acelerado, Ana Paula começou a circular a casa, mantendo-se escondida. Precisava de mais informações. Precisava encontrar alguma pista, qualquer coisa que pudesse ligar seus pais a esse evento, ou que pudesse explicar o papel de Elias Thorne. A casa parecia emanar uma energia fria, uma aura de segredo e poder.
Ela encontrou uma janela na parte de trás da casa, parcialmente escondida por um arbusto de jasmim. A cortina estava entreaberta. Com cuidado, ela espiou para dentro. Era um escritório, repleto de livros antigos e mapas. Em uma mesa, havia um dispositivo metálico complexo, semelhante a um relógio de bolso gigante, com engrenagens girando lentamente. Era um protótipo da Éter? Ou algo ainda mais antigo?
Enquanto observava, a porta do escritório se abriu e Dr. Aris entrou, sozinho. Ele parecia absorto em pensamentos, mexendo em um dos papéis espalhados pela mesa. Ana Paula se encolheu, tentando não fazer nenhum barulho.
Dr. Aris pegou um pequeno diário de capa preta e começou a folheá-lo. Ele parou em uma página e um sorriso cruel curvou seus lábios. Ele pegou uma caneta e fez uma anotação. Ana Paula se esforçou para ver o que ele escrevia, mas a escrita era ilegível.
De repente, um som distante a fez sobressaltar. Era o barulho de um carro se aproximando. Elias Thorne, o jovem, voltava. Aris rapidamente fechou o diário e guardou-o em uma gaveta.
Ana Paula sabia que não podia ficar ali. O risco de ser descoberta era muito alto. Ela se afastou da janela e recuou para a rua, o labirinto de ecos e reflexos do passado a envolvendo em sua complexidade.
O que ela deveria fazer agora? Voltar para o presente e relatar tudo a Elias, o Elias que a ajudou? Mas como confiar nele? Ou deveria tentar encontrar seus pais, mesmo que isso significasse interferir em um momento tão perigoso?
Ela decidiu que precisava de tempo para pensar. Precisava encontrar um lugar seguro para se esconder e analisar a situação. Lembrou-se de que Elias havia lhe dado um pequeno dispositivo de rastreamento, um que ele alegava ser para sua segurança, caso ela se perdesse. Poderia usá-lo para enviar uma mensagem codificada, sem que a Chronos Corp. soubesse.
Encontrando um beco discreto, Ana Paula retirou o dispositivo do bolso. Era pequeno e discreto, parecendo um chaveiro comum. Ela ativou o modo de emergência, que enviaria uma mensagem pré-programada para Elias, o Elias do presente. O texto dizia simplesmente: “Encontrei algo. Preciso de ajuda. Protocolo de contingência Alfa.”
Com a mensagem enviada, ela se sentiu um pouco mais aliviada, mas a incerteza pairava como uma nuvem escura. Ela estava em 1985, mas não podia se dar ao luxo de ficar ali por muito tempo. Os eventos que acabara de testemunhar eram muito perigosos.
Decidiu que sua melhor aposta era tentar encontrar alguma pista sobre seus pais. Se eles tentaram impedir Elias e Aris, talvez houvesse alguma evidência em algum lugar. Talvez em sua antiga casa.
Retornou à casa dos pais, mas desta vez, com uma abordagem mais cautelosa. A porta dos fundos estava destrancada. Ela entrou sorrateiramente, o coração batendo descompassado. A casa estava escura e empoeirada, como se estivesse vazia há algum tempo. Mas a energia temporal que emanava dela era palpável.
Começou a vasculhar os cômodos, procurando por qualquer coisa fora do lugar. No quarto de seus pais, encontrou um armário embutido. Ao abri-lo, notou que uma das pranchas do fundo parecia solta. Com um esforço, ela a removeu. Atrás dela, havia um pequeno compartimento secreto.
Dentro do compartimento, ela encontrou uma caixa de metal antiga. Ao abri-la, seus olhos se encheram de lágrimas. Lá dentro, havia fotografias de seus pais, sorrindo, felizes. Havia também cartas, escritas com a caligrafia de sua mãe, e um pequeno medalhão que ela reconheceu como sendo de sua avó.
Mas o que realmente chamou sua atenção foi um pequeno gravador de áudio, do tipo antigo, e uma fita cassete. Hesitante, Ana Paula pegou o gravador e apertou o play.
Uma voz suave e familiar preencheu o silêncio. Era a voz de sua mãe.
“Se você está ouvindo isso, meu amor, significa que algo deu muito errado”, disse a voz, embargada pela emoção. “Eu e seu pai descobrimos o plano deles. O plano de controle. Elias Thorne e o Dr. Aris… eles querem reescrever a história. Não podíamos deixar. Tentamos impedi-los. Mas eles são poderosos. Elias… ele nos traiu. Ele sabia de tudo. Ele nos entregou.”
As palavras de sua mãe foram como um choque elétrico. Elias Thorne, o homem que a ajudara, o homem que ela acreditara estar tentando redimir seus erros, havia sido o responsável pela traição de seus pais. A dor da revelação era quase insuportável.
“Nós tentamos esconder a prova”, continuou a voz de sua mãe. “Escondemos os planos originais da Éter e os registros da manipulação temporal. Estão… estão em um lugar seguro. Um lugar que Elias não encontrará. Por favor, meu amor, se você um dia encontrar isso, saiba que nós te amamos mais do que tudo. E que lutamos por um futuro onde a verdade prevaleça. Não confie em Elias Thorne. Ele é apenas um peão em um jogo muito maior.”
A gravação terminou, deixando Ana Paula em um silêncio ensurdecedor. Elias Thorne a havia enganado. Ele a usara como uma ferramenta para seus próprios fins, enquanto, secretamente, ele era o arquiteto da tragédia de sua família. A Chronos Corp. não era apenas uma empresa de tecnologia; era um instrumento de poder nas mãos de homens sem escrúpulos.
Ela fechou a caixa, o coração pesado de tristeza e raiva. A busca por seus pais havia revelado uma verdade terrível, mas também lhe dera um propósito renovado. Ela não estava mais apenas procurando respostas; ela estava em uma missão para expor a verdade e impedir que Elias e Aris concretizassem seus planos.
A fita cassete continha a prova. A prova que poderia mudar tudo. Mas onde estariam esses “planos originais” e “registros da manipulação temporal”? Onde Elias Thorne não encontraria? A última frase de sua mãe ecoava em sua mente: “Não confie em Elias Thorne. Ele é apenas um peão em um jogo muito maior.” Peão? Isso significava que havia alguém acima dele?
Enquanto Ana Paula se preparava para sair da casa, sentiu uma presença. Uma sombra se moveu no canto do olho. Ela se virou rapidamente, mas não havia nada. Apenas o ar imóvel e o cheiro de poeira. Era apenas o seu medo, ou a Chronos Corp. já estava ciente de sua presença ali?
Precisava sair de 1985. Precisava voltar ao presente e confrontar Elias Thorne. Mas agora, ela sabia a verdade sobre ele. E essa verdade era uma arma poderosa. Ela era uma viajante do tempo em um labirinto de ecos e reflexos, e a saída estava em desvendar a teia de mentiras que a Chronos Corp. havia tecido através do tempo. A batalha pela verdade estava apenas começando.