O Viajante do Tempo II
Capítulo 14 — A Fenda na Fortaleza
por Danilo Rocha
Capítulo 14 — A Fenda na Fortaleza
Ana Paula correu pela Chronos Corp., o eco de seus passos reverberando nos corredores estéreis. O laboratório, antes um lugar de descobertas científicas, agora parecia um labirinto de perigo, cada corredor uma potencial armadilha. A caixa de metal, contendo as provas irrefutáveis da traição de Elias Thorne e dos planos sombrios da Chronos Corp., estava firmemente presa sob seu braço. O confronto com Elias, o Elias do presente, tinha sido devastador. Ver a máscara cair, revelar a frieza calculista por trás da fachada de protetor, a deixara abalada, mas não quebrada.
“Ana Paula! Pare! Você não pode sair daqui com isso!”, a voz de Elias ecoava pelos corredores, carregada de uma fúria contida. Mas Ana Paula não parou. Ela sabia que ele não a deixaria escapar. Ele precisava silenciá-la, manter seus segredos enterrados no fluxo implacável do tempo.
Ela chegou a uma área que não conhecia bem, uma seção menos frequentada do complexo. As luzes eram mais fracas, o ar mais pesado. Precisava encontrar uma saída, um lugar onde pudesse se reagrupar e planejar seus próximos passos. A ideia de confiar em alguém parecia distante agora. A traição de Elias Thorne a ensinara uma lição dura: no jogo do tempo, a confiança era um luxo perigoso.
Enquanto corria, uma lembrança surgiu em sua mente. Elias, o Elias mais velho, o reflexo preso no tempo, havia dito algo sobre a Chronos Corp. ter falhado em seu futuro. Falhado? Como uma organização tão poderosa poderia falhar? A menos que… a menos que houvesse uma brecha, uma fraqueza em sua fortaleza temporal.
Ela virou uma esquina e se deparou com uma porta de metal maciço. Em cima dela, um painel de controle piscava com luzes vermelhas. Era uma saída de segurança, provavelmente bloqueada. Ana Paula tentou abri-la, mas estava trancada. Elias estava se aproximando. Ela podia ouvi-lo.
“Você não pode fugir, Ana Paula. O tempo está do nosso lado. Sempre esteve.”
Desesperada, Ana Paula olhou ao redor. Seus olhos pousaram em um pequeno duto de ventilação, quase escondido na parede. Não era ideal, mas era uma chance. Ela colocou a caixa com cuidado no chão e começou a escalar, suas mãos agarrando as grades frias e enferrujadas.
Conseguiu abrir a grade com dificuldade e se espremeu para dentro do duto. O espaço era apertado e escuro, e o som de Elias tentando abrir a porta atrás dela a impulsionava. Ela engatinhou, o metal raspando em suas roupas e pele, o ar rarefeito enchendo seus pulmões.
Finalmente, ela emergiu em outra área do complexo. Era uma sala de manutenção, cheia de ferramentas e equipamentos. A caixa ainda estava com ela. Ela se levantou, respirando fundo, tentando controlar o pânico.
Foi então que ela notou um terminal de computador antigo, coberto de poeira. Parecia fora de lugar, um vestígio de uma era tecnológica passada. Curiosa, Ana Paula se aproximou. O terminal estava conectado a uma rede interna da Chronos Corp. Se ela pudesse acessar os arquivos… talvez encontrasse algo que Elias Thorne não quisesse que ela visse.
Com as mãos trêmulas, ela começou a digitar. Ela não tinha senhas, mas Elias, em sua arrogância, talvez tivesse deixado algo acessível. Ela tentou combinações simples, datas importantes, nomes. Nada funcionou.
“Droga!”, exclamou, frustrada.
De repente, uma nova lembrança surgiu em sua mente: a gravação de sua mãe. Ela havia mencionado que os planos originais e os registros da manipulação temporal estavam escondidos em um lugar seguro, um lugar que Elias não encontraria. Seria possível que essa informação estivesse de alguma forma ligada a este terminal antigo?
Ela se lembrou de um detalhe na gravação: “Elias… ele nos traiu. Ele sabia de tudo. Ele nos entregou.” A palavra “entregou” soou diferente para ela agora. Não era apenas uma traição. Era uma entrega. Talvez a informação que ela procurava não estivesse escondida dele, mas sim por ele, como um último ato de desafio.
Ana Paula tentou uma nova abordagem. Em vez de procurar por arquivos sobre os planos de Elias e Aris, ela procurou por registros de atividades passadas de Elias Thorne, especificamente em torno de 1985. Ela digitou a data em um campo de busca.
O terminal zuniu e começou a exibir uma lista de logs. A maioria era codificada, inacessível. Mas um deles chamou sua atenção. Era um arquivo de áudio, marcado com a data de 12 de junho de 1985, o dia em que seus pais desapareceram. O nome do arquivo era simplesmente: “O Coração.”
Seu coração disparou. “O Coração.” Seria isso? A prova que ela procurava? Era possível que Elias Thorne, o jovem Elias, tivesse deixado para trás uma mensagem, uma pista, como um último gesto de remorso, mesmo enquanto os traía?
Ela clicou no arquivo. A música de 80’s que tocava no fundo da casa de seus pais pareceu ecoar em seus ouvuns. Mas desta vez, era diferente. A música era apenas um fundo para uma conversa. E a voz que falava… era a de Elias Thorne.
“Eu sinto muito, Ana Paula”, disse a voz jovem de Elias, carregada de uma tristeza que ela nunca teria imaginado. “Eu sei que isso vai te machucar. Mas eles me forçaram. Dr. Aris… ele tem o controle. Ele me prometeu poder, me prometeu um futuro. Mas eu não queria isso. Eu não queria machucar você ou seus pais.”
Ele fez uma pausa, respirando fundo. “Eu… eu escondi os registros. O verdadeiro propósito da Éter. Não é apenas viajar no tempo, mas controlá-lo. Dr. Aris quer reescrever a história para se tornar o soberano do tempo. Os planos originais… estão escondidos em um local que só eu sei. Um local que não tem nada a ver com a Chronos Corp. Um lugar seguro. Eu os registrei em um dispositivo de memória quântica. Está escondido dentro de uma antiga caixa de música que pertenceu a você, quando era criança. A caixa de música com a bailarina que você tanto amava.”
Ana Paula congelou. A caixa de música. Ela tinha uma caixa de música antiga, um presente de sua avó, que guardara desde a infância. A bailarina… ela se lembrou dela. Uma pequena bailarina de porcelana, que girava ao som de uma melodia delicada. Elias Thorne estava dizendo que a chave para desmascarar a Chronos Corp. estava escondida em seu próprio passado, em um objeto pessoal que ele havia manipulado.
“Eu também deixei um mapa temporal para o local”, continuou a voz de Elias. “Um mapa codificado, oculto em uma de suas canções favoritas da época. A melodia… a melodia te guiará até lá. Se você encontrar isso, Ana Paula, por favor, não confie mais em mim. Eu sou um homem que se perdeu. Mas você… você ainda pode encontrar o caminho de volta.”
O arquivo de áudio terminou. Ana Paula ficou parada, o coração batendo descompassado. Ela tinha a prova. A prova que sua mãe mencionou, e agora, a localização. A caixa de música. Uma canção.
Mas Elias Thorne, o do presente, a encontraria ali. Ela precisava sair. Precisava encontrar a caixa de música.
De repente, o terminal de computador emitiu um bipe agudo. Uma luz vermelha começou a piscar. Ela havia sido rastreada.
“Você não vai escapar, Ana Paula”, a voz de Elias, o do presente, soou através de um intercomunicador na sala. “Eu sei onde você está. E sei o que você encontrou.”
Ana Paula se levantou rapidamente, pegando a caixa de metal. Ela correu para fora da sala de manutenção, voltando para os corredores labirínticos da Chronos Corp. Elias estava se aproximando, seus passos ecoando em uma perseguição implacável.
Ela sabia que não poderia enfrentar Elias diretamente. Ele era mais forte, mais experiente em combates. Mas ela tinha algo que ele não tinha: a verdade. E um plano.
Ela corria em direção a uma área de treinamento de segurança, um lugar que Elias provavelmente não esperaria que ela fosse. Era um risco, mas ela precisava criar uma distração.
Chegando à área de treinamento, ela viu um simulador de combate temporal em pleno funcionamento. Era uma máquina complexa, projetada para replicar cenários temporais perigosos. Uma ideia ousada surgiu em sua mente.
Ela ativou o simulador, escolhendo um cenário de alta intensidade: uma simulação de uma batalha no futuro distante. As luzes da sala piscaram, e o som de explosões e lasers preencheu o ar. A máquina começou a gerar hologramas de soldados cibernéticos e naves de guerra.
Ana Paula sabia que essa era sua única chance. Ela precisava de tempo para encontrar a caixa de música. E para isso, precisava que Elias Thorne ficasse ocupado.
Enquanto Elias se aproximava, Ana Paula correu para o centro do simulador. Ela sabia que ele a veria. E ele não resistiria ao desafio.
“Você acha que pode fugir de mim, Ana Paula?”, a voz de Elias ressoou, agora mais próxima, vindo do corredor. “Você não tem para onde ir.”
Ana Paula sorriu friamente. “Você está enganado, Elias. Eu tenho exatamente para onde ir. E você… você está prestes a ter uma distração bem interessante.”
Quando Elias entrou na sala de treinamento, seus olhos se arregalaram ao ver o simulador em ação e Ana Paula parada no centro. Ele hesitou por um instante, mas a tentação de um desafio era forte demais.
“Isso é tolice, Ana Paula”, disse Elias, com um sorriso de escárnio. “Você não pode fugir de mim com um joguinho.”
“Não é um joguinho, Elias”, respondeu Ana Paula, enquanto se preparava para correr. “É a sua próxima batalha. E eu sugiro que você a vença.”
Com isso, ela correu para uma saída lateral, deixando Elias sozinho com os hologramas de combate temporal. Ela sabia que ele não resistiria. A arrogância dele seria sua ruína.
Agora, com o tempo ganho, Ana Paula precisava encontrar a caixa de música. Ela sabia que estava em sua antiga casa, um lugar que ela não podia mais visitar. Mas se Elias Thorne havia escondido a memória quântica lá, significava que ele sabia como acessá-la. E a informação sobre a canção… ela precisava lembrar qual era sua música favorita de 1985.
Ela se dirigiu para uma área mais isolada da Chronos Corp., um lugar onde poderia pensar em paz. A fenda na fortaleza da Chronos Corp. estava aberta. E ela estava determinada a usá-la para trazer a verdade à luz.