O Viajante do Tempo II
Capítulo 15 — A Melodia do Passado
por Danilo Rocha
Capítulo 15 — A Melodia do Passado
Ana Paula se refugiou em uma sala de descanso pouco utilizada, um pequeno santuário de calma em meio ao caos da Chronos Corp. A adrenalina da fuga ainda pulsava em suas veias, mas a urgência da missão a mantinha focada. A fenda na fortaleza, aberta pela traição e pelo desespero de Elias Thorne, agora era sua única esperança. Ela tinha a prova física em uma caixa de metal, mas a chave para decifrar o segredo da Éter e expor a Chronos Corp. estava em um local inesperado: sua própria infância.
A caixa de música. A bailarina. A melodia.
Ela fechou os olhos, tentando evocar a lembrança de 1985, do Rio de Janeiro que ela mal conhecia, mas que guardava as raízes de sua existência. A música favorita de sua mãe… que música era? A voz de sua mãe, em sua última gravação, havia falado sobre uma canção.
Ana Paula vasculhou sua memória. As rádios tocavam incessantemente. As cores vibrantes das roupas, os carros antigos, as danças frenéticas. Uma música específica começou a ressoar em sua mente, uma balada melancólica que sua mãe costumava cantarolar enquanto a embalava. “Tempo Perdido”, da Legião Urbana. Sim, era essa! A melodia suave, com suas letras sobre a efemeridade da vida e a ânsia por um futuro melhor, se encaixava perfeitamente.
“Tempo Perdido”, Ana Paula sussurrou, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. A melodia da canção, ela sabia, continha o mapa temporal codificado. Mas como acessá-lo? Elias havia dito que a melodia a guiaria.
Ela precisava encontrar a caixa de música. Mas como chegar lá? Voltar a 1985 não era uma opção, não sem o consentimento de Elias ou sem correr o risco de criar um paradoxo ainda maior. A Chronos Corp. a monitorava de perto.
Foi então que ela lembrou-se do dispositivo de rastreamento que Elias Thorne, o do presente, lhe dera. Ele a havia enganado, mas o dispositivo em si era uma ferramenta. Poderia ela usá-lo para acessar a Chronos Corp. de uma forma que Elias não esperava?
Com o dispositivo em mãos, Ana Paula voltou ao laboratório. A sala estava silenciosa agora, o simulador de combate temporal provavelmente mantendo Elias ocupado. Ela se conectou a um dos terminais de computador, usando o dispositivo de rastreamento para criar um acesso temporário, mascarando sua presença.
Ela precisava encontrar o endereço da caixa de música. Elias havia falado sobre um local seguro, um lugar que não tinha a ver com a Chronos Corp. Mas ele havia deixado a pista em sua antiga casa. Se ele a havia escondido ali, era porque ele tinha acesso a ela, ou a alguém que a tivesse.
Ana Paula começou a procurar por registros de Elias Thorne relacionados a atividades pessoais, não corporativas. Ela sabia que a Chronos Corp. monitorava tudo, mas talvez houvesse lacunas em sua vigilância, especialmente em relação aos fundadores.
Após horas de busca incessante, ela encontrou algo. Um registro antigo, datado de alguns anos antes de 1985, sobre a aquisição de um imóvel para um “residente especial”. O endereço era o mesmo da casa de seus pais. Elias Thorne, o jovem, havia comprado a casa onde eles viviam. A intenção de Elias de esconder a caixa de música lá fazia sentido. Era um lugar com significado emocional, um lugar onde ele acreditava que ela, ou seus pais, poderiam tê-la escondido.
Agora, ela precisava acessar o conteúdo da memória quântica. O dispositivo era pequeno, e Elias Thorne, o do presente, não saberia que ela o possuía. Se ela conseguisse encontrar a caixa de música, poderia transferir os dados.
Mas como chegar lá? Voltar no tempo era arriscado. Ela precisava de uma maneira de acessar a caixa de música no presente. Elias Thorne, o do passado, havia dito que a melodia continha o mapa. O que isso significava exatamente?
Ana Paula se lembrou de uma antiga biblioteca da Chronos Corp., um local dedicado à preservação de artefatos históricos e científicos. Talvez lá ela pudesse encontrar uma versão antiga da caixa de música, ou pelo menos informações sobre ela.
Com o endereço da casa de seus pais em mãos, e a melodia de “Tempo Perdido” ecoando em sua mente, Ana Paula traçou um plano. Ela usaria o conhecimento que Elias, o eco do futuro, lhe dera. Ela não podia enfrentar Elias Thorne diretamente, mas podia usar a própria Chronos Corp. contra ele.
Ela acessou os registros de viagens temporais da Chronos Corp., procurando por qualquer anomalia que pudesse ter passado despercebida. E ela encontrou. Um registro de uma breve e não autorizada viagem temporal para 1985, realizada por Elias Thorne, o jovem. A data exata correspondia ao dia em que ela e seus pais desapareceram. Ele esteve lá. Ele esteve envolvido.
Mas havia algo mais. Um pequeno arquivo anexo a esse registro, criptografado e inacessível para a maioria dos funcionários. Ana Paula usou suas habilidades para decifrá-lo. Era um vídeo. Um vídeo de Elias Thorne, o jovem, conversando com Dr. Aris.
“Você tem certeza de que isso vai funcionar?”, perguntou o jovem Elias, sua voz tensa.
“Absolutamente”, respondeu Aris, um brilho sinistro em seus olhos. “Com a memória quântica escondida e o mapa temporal na melodia, apenas Ana Paula poderá encontrar a verdade. Ela é a única que pode expor nossos segredos. E se ela falhar, o tempo se curará. A história será reescrita como desejamos.”
Ana Paula sentiu um nó na garganta. Seus pais não haviam desaparecido por acaso. Elias e Aris haviam manipulado os eventos, plantado a semente da verdade em sua própria vida, na esperança de que ela, e apenas ela, pudesse desenterrá-la. Era um plano diabólico, projetado para garantir que a Chronos Corp. permanecesse intocada, mesmo diante da exposição.
Ela precisava agir rápido. Elias Thorne, o do presente, estaria ciente de sua busca. Ele a subestimara. Ele achava que ela estava fugindo, mas ela estava planejando seu contra-ataque.
Ana Paula sabia que não podia simplesmente fugir com a caixa de metal. Precisava apresentar a prova de forma irrefutável. E para isso, ela precisava da memória quântica.
Ela decidiu arriscar. Usando um acesso remoto seguro, ela programou a Éter para uma breve incursão temporal. Não para 1985, mas para alguns dias antes de sua própria fuga. Um momento onde ela sabia que Elias Thorne, o do presente, estaria ocupado com outra tarefa. Era um risco, mas o único jeito de obter a caixa de música.
Com o dispositivo de rastreamento ativado, ela se materializou em sua antiga casa, um lugar que agora parecia estranhamente familiar e ao mesmo tempo assustador. O ar estava carregado de memórias, de um passado que ela mal podia reconhecer. Ela se dirigiu diretamente ao quarto de brinquedos, um cômodo que ela raramente usava, mas que Elias sabia que ela ainda guardava.
Lá estava ela, a caixa de música, em um canto empoeirado. A bailarina de porcelana estava intacta, um pequeno fantasma de sua infância. Ana Paula pegou a caixa e a abriu. A melodia suave de “Tempo Perdido” preencheu o silêncio, um lamento doce e pungente.
Ao mesmo tempo, ela sentiu uma vibração no dispositivo de rastreamento em seu pulso. O mapa temporal estava sendo ativado. Uma série de coordenadas apareceu em sua tela, um caminho que a levaria a um local secreto, escondido nas profundezas da Chronos Corp. Era lá que Elias Thorne, o jovem, havia escondido a memória quântica.
Com a caixa de música em mãos e o mapa temporal em sua mente, Ana Paula retornou ao presente, de volta à Chronos Corp. Elias a esperava, furioso, mas ela estava pronta.
“Você acha que pode brincar comigo, Ana Paula?”, ele rosnou, seus olhos brilhando com raiva.
“Eu não estou brincando, Elias”, Ana Paula respondeu, sua voz firme e clara. “Estou acabando com você.”
Ela ativou o dispositivo de rastreamento, que projetou o mapa temporal no ar. “Eu sei onde a memória quântica está escondida. E eu sei que você a deixou lá, em um último ato de desespero, para que eu pudesse encontrá-la.”
O rosto de Elias se contorceu em choque. Ele não esperava que ela tivesse chegado tão longe.
“Isso é impossível!”, ele gritou.
“Nada é impossível quando se tem a verdade ao seu lado”, disse Ana Paula. Ela então colocou a caixa de música em uma plataforma de transferência de dados, ativando a transferência da memória quântica. A melodia de “Tempo Perdido” começou a tocar novamente, um hino à esperança e à redenção.
Enquanto os dados eram transferidos, Ana Paula se virou para Elias Thorne. “Você pode ter manipulado o tempo, Elias, mas não pode apagar a verdade. E eu vou garantir que todos saibam o que você e o Dr. Aris fizeram.”
O confronto final estava prestes a acontecer. Ana Paula, armada com a verdade e a melodia de um passado esquecido, estava pronta para desvendar os segredos da Chronos Corp. e trazer justiça àqueles que haviam sido vítimas do tempo. A batalha pela alma do futuro estava prestes a começar, e a melodia do passado seria sua arma mais poderosa.