O Viajante do Tempo II
Capítulo 2 — A Sombra da Chronos Corp.
por Danilo Rocha
Capítulo 2 — A Sombra da Chronos Corp.
O amanhecer em São Paulo, em 2042, era um espetáculo resignado. As nuvens de poluição bloqueavam a maior parte da luz solar, transformando o céu em um véu opaco e acinzentado. Elara observava a cidade se despertar de sua janela, o apartamento modesto que Elias havia arranjado para ela. Era um refúgio, um lugar onde ela podia ser apenas Elara, a mulher assombrada por um passado alterado, e não a heroína relutante de uma luta que ela mesma havia iniciado.
Elias chegou pontualmente às 08h00, como sempre. Seu rosto estava mais sério do que o habitual, a preocupação gravada em cada linha de expressão. Ele trouxe um café forte, escuro como a noite, e um cronograma detalhado da inauguração da Chronos Corp.
"A segurança vai estar em seu nível máximo", Elias disse, sua voz baixa e tensa. "Toda a elite corporativa e governamental estará presente. É a vitrine perfeita para eles exibirem seu 'progresso'."
"E uma oportunidade de ouro para nós", Elara respondeu, pegando a xícara de café. O calor reconfortante se espalhou por suas mãos. "Você conseguiu os códigos de acesso para a rede interna?"
"Sim. Através de um contato antigo. Mas os sistemas de segurança evoluíram desde a época de Liam. Eles usam inteligência artificial adaptativa. Assim que detectarem qualquer anomalia, eles mudam as defesas em tempo real." Elias abriu um tablet, exibindo um diagrama complexo do prédio. "Nosso ponto de entrada será o duto de ventilação principal, no terceiro subsolo. De lá, você terá que navegar pelos corredores até o servidor central."
Elara estudou o diagrama, seu cérebro absorvendo cada detalhe. Ela conhecia a estrutura do prédio. Liam a havia levado lá inúmeras vezes em sua linha do tempo original, descrevendo cada corredor, cada laboratório, como se fosse sua própria casa. Agora, esses corredores eram inimigos potenciais.
"O tempo é o nosso inimigo mais implacável", disse Elara, a preocupação em sua voz espelhando a de Elias. "Quanto tempo teremos antes que eles percebam?"
"Não mais que dez minutos. Se tudo correr como planejado. Se não…" Elias parou, evitando o olhar dela. "Se não, você terá que sair de lá. Não posso correr o risco de você ser capturada."
A captura não era uma opção. Para Elara, era pior que a morte. Seria ser trancada, interrogada, ter seus conhecimentos explorados para fins que ela abominava. Seria a perda de qualquer esperança de restaurar o passado.
"Eu vou conseguir, Elias. Você sabe que eu vou." Ela o olhou, um fogo nos olhos que ele conhecia bem. A determinação de quem não tem nada a perder, exceto o mundo.
Às 14h00, o céu pairava sobre São Paulo como uma mortalha. Elara, vestida com um uniforme discreto de técnico de manutenção, infiltrou-se na área de serviço do complexo da Chronos Corp. O burburinho da festa de inauguração ecoava de longe, um contraste gritante com o silêncio tenso que a cercava. Elias, monitorando remotamente de um van estacionada a alguns quarteirões de distância, guiava-a através de comunicadores disfarçados.
"O acesso ao duto está à sua frente, à direita. Cuidado com os sensores de movimento." A voz de Elias era um sussurro constante em seu ouvido.
Elara moveu-se com agilidade, seus movimentos precisos e silenciosos. Ela abriu a grade do duto com uma ferramenta especializada, o metal rangendo levemente. Respirou fundo, o ar úmido e empoeirado preenchendo seus pulmões. Era hora de mergulhar na escuridão.
O interior do duto era claustrofóbico, um labirinto de metal e cabos. A cada movimento, Elara sentia a poeira se agitar, os ruídos sutis amplificados pela sua própria ansiedade. Ela rastejou por horas, guiada apenas pelas instruções de Elias e pelo mapa mental que ela possuía. A sombra da Chronos Corp. pairava sobre ela, uma presença opressora.
"Elara, a segurança detectou uma irregularidade no terceiro subsolo. Eles estão enviando uma patrulha." A voz de Elias estava tensa.
O coração de Elara acelerou. Ela ainda estava longe do servidor central. "Quanto tempo eu tenho?"
"Não muito. Eles vão isolar a área. Você precisa se mover mais rápido. O servidor está no setor Gama, sala 314."
Elara acelerou o passo, ignorando o arranhão nos joelhos e a dor nos ombros. Cada segundo era precioso. Ela imaginou Liam, sua paixão, o homem que acreditava na busca pela verdade acima de tudo. Ele nunca teria permitido que a Chronos Corp. controlasse sua invenção. Ele teria lutado. E ela lutaria por ele.
Chegou a uma bifurcação, o diagrama de Elias mostrando dois caminhos possíveis. "Elias, qual?"
"Um momento… A inteligência artificial está se adaptando. Os caminhos estão mudando. Um deles está sendo monitorado." A voz de Elias estava cheia de frustração. "Use seu instinto, Elara. Você conhece esse lugar."
Elara fechou os olhos por um instante, tentando sentir a energia do lugar. Ela se lembrou de uma conversa com Liam, sobre a energia residual que certas áreas do prédio emitiam. Uma delas…
"O caminho da esquerda", ela disse com convicção. "Sinto algo diferente ali."
"Confio em você. Vá!"
Elara tomou o caminho da esquerda, o coração batendo descompassado. Ela podia ouvir o som de passos se aproximando no duto atrás dela. A patrulha.
Ela alcançou uma saída do duto, abrindo a grade com cuidado. Estava em um corredor de serviço pouco iluminado, a poucos metros da sala 314. O som abafado da festa era audível agora. O cheiro de luxo e poder.
"Elias, estou a caminho da sala 314. A patrulha está logo atrás de mim."
"Eu vejo. Eles estão se aproximando. Você tem menos de três minutos antes de eles isolarem a sala. Eu vou tentar desativar os sensores de curto alcance, mas será temporário."
Elara correu pelo corredor, a sala 314 à vista. Era uma porta de segurança pesada, sem janelas. Ela inseriu um dispositivo de acesso que Elias lhe dera. A luz verde piscou.
"Acesso concedido", disse Elias. "Entre rápido!"
Elara empurrou a porta e entrou. Era uma sala escura, repleta de servidores zunindo. O ar estava frio. No centro, um terminal principal. Ela se conectou ao seu próprio dispositivo, sentindo a rede da Chronos Corp. se abrir diante dela.
"Elias, estou dentro. Iniciando a busca pelos arquivos de Liam."
"Você tem dois minutos e meio. A patrulha está no corredor. Eles vão tentar forçar a porta."
Elara navegou pela interface complexa, seu coração martelando contra suas costelas. Ela procurou pelos códigos de projeto que Liam havia usado, pelos nomes de arquivo que ele costumava usar. A sombra da Chronos Corp. parecia se materializar na porta, os sons de impacto se tornando mais altos.
"Encontrei!", ela exclamou, sua voz cheia de um misto de alívio e triunfo. Uma pasta criptografada com o nome "Projeto Aurora". Os arquivos originais. As provas.
"Baixando os dados", disse Elias. "Você tem que sair daí, Elara. Agora!"
A porta tremeu violentamente. Os guardas estavam tentando arrombá-la. Elara desconectou seu dispositivo, salvando os dados. Ela precisava sair. Mas para onde?
"Elias, a saída pelo duto está bloqueada. Eles devem ter previsto."
"Eu sei. O plano B. A saída de emergência, no final do corredor. Você terá que lutar para chegar lá. Eu vou criar uma distração."
Um estrondo ecoou pela rede. As luzes do corredor piscaram.
"O que você fez?", Elara perguntou, apreensiva.
"Apenas um pequeno 'incêndio' eletrônico para chamar a atenção. Agora vá! Corra!"
Elara correu para fora da sala do servidor, os guardas entrando no local enquanto ela saía. Ela evitou um deles, deslizando pelo corredor. Sirenes começaram a soar por todo o prédio. Ela podia ouvir os gritos dos guardas, a confusão.
Ela alcançou a porta de emergência no final do corredor. Era pesada, mas a adrenalina a impulsionava. Ela a abriu e desceu pelas escadas de serviço, o som da perseguição crescendo atrás dela. Ela podia sentir a presença da Chronos Corp. se fechando sobre ela, mas agora ela tinha as provas. Ela tinha a esperança.
No terceiro subsolo, ela se esgueirou pelos dutos novamente, o som da perseguição diminuindo. Elias a guiou para fora do complexo através de uma saída de serviço secundária, longe dos olhares curiosos. O carro elétrico preto a esperava, silencioso e discreto, como sempre.
Ao entrar no carro, Elara olhou para trás, para o monólito imponente da Chronos Corp. A sombra da corporação parecia se estender, mas agora, com os arquivos de Liam em mãos, a escuridão não parecia tão avassaladora.
"Conseguimos, Elias", disse Elara, sua voz rouca de exaustão e triunfo.
Elias assentiu, seus olhos brilhando com uma nova esperança. "Sim, Elara. Conseguimos. Agora, temos a verdade. E com a verdade, podemos começar a lutar de verdade."
O carro se afastou na noite, deixando para trás o brilho opressor da Chronos Corp. O eco de um amanhã esquecido estava um passo mais perto de ser restaurado. A sombra havia sido confrontada, e a luz da verdade, por mais frágil que fosse, começava a brilhar.