A Colônia Marciana 40

Capítulo 22 — A Sombra do Conselho e as Lições do Passado

por Alexandre Figueiredo

Capítulo 22 — A Sombra do Conselho e as Lições do Passado

O Comandante Silva era um homem de poucas palavras e muitos gestos firmes. Sua presença no laboratório destruído era como um trovão silencioso, abafando o burburinho de pânico e apreensão que começava a se instalar entre os cientistas. Seus olhos escuros, acostumados a perscrutar o horizonte marciano em busca de perigos, agora examinavam os destroços com uma intensidade gélida. Helena, ainda com o curativo improvisado na têmpora e o corpo dolorido, foi convocada para prestar seu depoimento. Marco estava ao seu lado, um escudo silencioso contra a tempestade iminente.

“Doutora Helena Silva,” a voz de Silva era baixa, mas ressoava com autoridade inquestionável. “Explique-me o que aconteceu. Detalhadamente. Cada segundo.”

Helena respirou fundo, tentando reorganizar os fragmentos de sua memória. A explosão, o pânico, a leitura anômala… “Comandante, nós estávamos prestes a iniciar os testes de estabilização do gerador. Tudo estava dentro dos parâmetros. De repente, uma sobrecarga energética… um pico que não consta em nenhum dos nossos modelos. Foi… foi como se algo externo tivesse atacado o sistema.”

Silva ergueu uma sobrancelha. “Externo? Doutora, estamos em Marte. O que poderia atacar nosso sistema de dentro do laboratório?”

“Eu não sei, Comandante. Mas a assinatura energética desse pico… é desconhecida. Não é um erro de equipamento, não é um erro de cálculo. Foi deliberado.”

A palavra pairou no ar, pesada e perigosa. Deliberado. Silva cruzou os braços, seu olhar fixo em Helena. “Deliberado. Isso implica sabotagem. E sabotagem, Doutora, é traição à colônia.”

Marco interveio suavemente. “Comandante, a Doutora Helena é uma das fundadoras desta colônia. Ela dedicou sua vida a este projeto. Se houve sabotagem, ela é uma das maiores vítimas.”

Silva lançou um olhar penetrante para Marco, avaliando suas palavras, mas sem ceder. Ele sabia que Helena era essencial, mas a segurança da Colônia 40 era sua responsabilidade primordial. “Eu não duvido da lealdade da Doutora. Mas as evidências apontam para um ato intencional. E precisamos descobrir quem. O Conselho já foi informado. Haverá uma investigação completa.”

A menção ao Conselho fez um arrepio percorrer Helena. O Conselho de Anciãos, um grupo de colonos veteranos que detinham grande influência, sempre fora um obstáculo sutil para os projetos mais ambiciosos. Liderados pelo severo Elias Thorne, eles viam a expansão e o uso de novas tecnologias com desconfiança, temendo os riscos que poderiam desestabilizar a frágil ordem da colônia. Thorne, em particular, sempre expressou suas ressalvas sobre a velocidade com que Helena e sua equipe avançavam.

“A investigação será liderada por mim, Comandante”, disse uma voz calma, mas firme, que emanava da porta do laboratório. Elias Thorne adentrou o local, sua figura alta e esguia envolta em um uniforme sóbrio. Seus olhos, azuis e penetrantes, analisavam a cena com uma frieza calculada. “E eu não tolerarei falhas ou omissões. A segurança da Colônia 40 é a minha prioridade.”

O olhar de Thorne pousou em Helena, e por um instante, ela sentiu um peso opressor. “Doutora Helena. Mais uma vez, um de seus projetos causa mais problemas do que soluções. Onde estão seus protocolos de segurança desta vez?”

Helena sentiu a raiva borbulhar, mas a manteve sob controle. “Senhor Thorne, como eu expliquei ao Comandante Silva, este foi um evento anômalo. Um pico de energia desconhecido.”

Thorne deu um passo à frente, o som de seus sapatos no chão metálico ecoando no silêncio tenso. “Anômalo. Palavra conveniente para encobrir incompetência, não acha? Sempre correndo para o futuro, Doutora. Sem pensar nas lições do passado. Lembra-se do que aconteceu com a primeira tentativa de extração de água? Quantas vidas foram perdidas por excesso de confiança?”

A menção ao desastre do passado atingiu Helena como um golpe físico. Ela se lembrava bem. Sua própria mãe, uma das geólogas pioneiras, havia sido uma das vítimas daquele projeto mal planejado, apressado pelo desejo de prosperar rapidamente. Aquele trauma moldou sua abordagem à ciência, tornando-a meticulosa, quase obsessiva com a segurança.

“Com licença, Senhor Thorne, mas eu nunca subestimei os riscos”, Helena respondeu, sua voz mais firme agora. “E as lições do passado me ensinam a não desconsiderar nada, nem mesmo o inexplicável. Essa anomalia não é um erro meu. É um mistério, e eu vou desvendá-lo.”

“Mistério ou sabotagem, ambos são ameaças que precisam ser controladas”, Thorne retrucou, sua voz gélida. “Por enquanto, o projeto do gerador está suspenso. E você, Doutora, estará sob vigilância. Não podemos nos dar ao luxo de mais ‘anomalias’.”

A insinuação era clara. Thorne a via como uma ameaça, uma peça instável no xadrez da colônia. Marco deu um passo à frente, sua mão pousando em seu braço, um gesto de apoio e proteção.

“Senhor Thorne”, Marco disse, sua voz calma, mas com uma nota de desafio. “A Doutora Helena é uma das mentes mais brilhantes que temos. Suspender o projeto agora, sem entender o que aconteceu, é um erro estratégico. E ela não é uma ameaça, é a chave para a solução.”

Silva observou a interação com atenção. Ele sabia que Thorne tinha influência, mas também sabia que Helena era vital para a colônia. “O projeto está suspenso, Thorne. Mas a investigação da Doutora Helena continuará, sob minha supervisão. E se ela descobrir algo, eu quero saber imediatamente.”

Thorne deu um leve aceno de cabeça, um sorriso quase imperceptível em seus lábios. “Como desejar, Comandante. Mas não se iluda. As sombras do passado e do presente podem ser mais perigosas do que qualquer falha tecnológica.” Ele olhou para Helena uma última vez. “Espero que você não se perca em suas próprias obsessões, Doutora. Marte não perdoa a imprudência.”

Enquanto Thorne se afastava, deixando um rastro de frieza em seu rastro, Helena sentiu o peso da vigilância sobre seus ombros. Ela não estava apenas lutando contra um sabotador desconhecido; ela estava lutando contra a desconfiança daqueles que deveriam ser seus aliados. O Conselho, com sua visão retrógrada e sua sede de controle, era um inimigo tão perigoso quanto qualquer agente externo.

Mais tarde, no seu pequeno alojamento, Helena revisava os dados fragmentados da anomalia em seu terminal pessoal. Marco estava ali, preparando um chá forte para ela. O silêncio entre eles era confortável, preenchido pela compreensão mútua.

“Ele não acredita em mim”, Helena murmurou, seus dedos traçando os gráficos complexos na tela.

“Ele acredita em si mesmo, Helena. E no poder. Thorne vê tudo como um jogo de controle. E você, com sua busca pela verdade, é uma variável que ele não consegue prever. Isso o assusta.”

“Assustá-lo é o menor dos meus problemas. O problema é que ele pode estar certo. E se eu estiver errada? E se eu estiver cega pela minha própria ambição?”

Marco se sentou ao lado dela, puxando-a para perto. “Você não está. Eu vi o seu trabalho, Helena. A sua dedicação. E eu vi a sua dor quando o laboratório explodiu. Você não tem nada a provar para Thorne. Apenas para si mesma. E para todos nós, que acreditamos em você.” Ele beijou sua testa. “Não deixe que a sombra do passado ou a desconfiança do Conselho te impeçam de encontrar a verdade. As lições que aprendemos com os erros não devem nos paralisar. Devem nos tornar mais fortes.”

Helena aninhou-se em seus braços, sentindo o calor reconfortante. Ela sabia que ele estava certo. A tragédia de sua mãe era uma cicatriz, não um grilhão. Ela precisava honrar sua memória não se encolhendo diante do perigo, mas enfrentando-o com a mesma coragem e inteligência que sua mãe sempre exibiu.

A anomalia energética. Thorne e o Conselho. O passado que se recusava a morrer. A Colônia 40 estava em um ponto de virada. E Helena sabia que a verdade, como o ar rarefeito de Marte, seria difícil de respirar, mas essencial para a sobrevivência. A investigação estava apenas começando, e as sombras do deserto vermelho escondiam segredos mais profundos do que ela imaginava.

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