A Colônia Marciana 40
Capítulo 24 — A Descoberta em Hélio e a Dívida de Sangue
por Alexandre Figueiredo
Capítulo 24 — A Descoberta em Hélio e a Dívida de Sangue
O peso das descobertas de Lena Petrova era esmagador. A ideia de que Elias Thorne, um dos pilares da Colônia 40, um homem que proclamava a segurança e a estabilidade acima de tudo, pudesse ser o arquiteto da sabotagem era quase impossível de aceitar. No entanto, as evidências eram perturbadoras: um backdoor na rede, monitoramento secreto do projeto do gerador e uma transmissão codificada para um terminal externo de uso exclusivo do Conselho, enviada horas antes da explosão.
Helena sentiu a urgência de provar a culpabilidade de Thorne. A colônia precisava saber, precisava se livrar dessa ameaça interna antes que ela pudesse causar mais danos. Mas como confrontar um homem com tanto poder e influência sem provas concretas? A transmissão codificada era a chave, mas decifrá-la parecia uma tarefa impossível.
“Marco, eu não posso simplesmente acusá-lo”, Helena disse, sua voz embargada pela frustração, enquanto revisava os dados que Lena havia compartilhado. Eles estavam em uma área isolada dos domos de pesquisa, um laboratório menor dedicado à análise de amostras geológicas. O cheiro de minerais e gases nobres preenchia o ar.
Marco segurou suas mãos, seus olhos transmitindo a mesma preocupação que ela sentia. “Eu sei, Helena. Mas Lena está trabalhando nisso. Ela é a melhor que temos. E nós não estamos sozinhos nessa. Se Thorne estiver planejando algo contra a colônia, outros membros do Conselho, pessoas que ainda acreditam na visão original, podem se juntar a nós se tiverem a verdade.”
“Mas a verdade pode vir tarde demais. A escassez de energia está aumentando. As pessoas estão ficando impacientes. Thorne está se alimentando disso”, Helena falou, o olhar perdido na tela. “Ele quer que a colônia volte a ser dependente da Terra, que o controle retorne às mãos dele e dos conservadores.”
“Ele tem medo do que a nossa independência pode significar”, Marco concordou. “Medo do progresso, Helena. É sempre assim quando há uma mudança drástica. Pessoas como Thorne se agarram ao que conhecem.”
De repente, um dos cientistas do laboratório, um homem chamado Dr. Aris Thorne, sobrinho distante de Elias, entrou na sala, com o rosto pálido e suando frio. Aris era um geólogo brilhante, especializado em extração de recursos minerais, mas sempre pareceu um pouco deslocado entre os membros mais assertivos de sua família.
“Doutora Helena, Comandante Marco”, Aris disse, sua voz trêmula. “Eu… eu preciso de ajuda. Eu estava revisando os dados de uma nova perfuração em Hélio. Uma área que o Conselho aprovou recentemente para exploração.”
Helena e Marco trocaram olhares. Elias Thorne sempre foi inflexível sobre a exploração de Hélio, uma das luas de Marte, um lugar conhecido por suas condições extremas e pela dificuldade de acesso.
“O que há em Hélio, Aris?”, Helena perguntou, a curiosidade científica superando a apreensão.
“Eu encontrei algo… incomum. Uma assinatura energética. Muito fraca, mas distinta. E ela se correlaciona com os dados que você me mostrou da anomalia no gerador, Doutora Helena. Quase idêntica, mas em uma escala muito menor.” Aris mostrou os dados em seu terminal.
Helena se aproximou, seus olhos arregalados. Era verdade. Uma assinatura semelhante, um eco distante da energia que quase destruiu o laboratório principal. “Mas como? Hélio está a milhões de quilômetros daqui. E por que o Conselho aprovou essa exploração agora?”
Marco ponderou. “Se Thorne estava monitorando nosso projeto, ele sabia que precisaríamos de uma fonte de energia confiável para futuras expansões, talvez até para bases em Hélio. E se ele encontrou uma forma de gerar essa energia… ou de extrair algo que possa gerar essa energia… Ele não quer que ninguém mais saiba.”
“Ele está testando algo em Hélio”, Helena concluiu, a peça final do quebra-cabeça se encaixando. “Ele não sabotou nosso gerador por medo. Ele sabotou porque ele tem sua própria fonte, ou está desenvolvendo uma. E ele não quer concorrência. Ele quer o monopólio.”
Aris olhou para os dois, o medo em seus olhos se intensificando. “Mas… o que isso significa? O que ele está fazendo lá?”
“Significa que o Conselho, sob a liderança de Elias Thorne, está mentindo para todos nós”, Marco disse, sua voz carregada de raiva contida. “Eles estão arriscando a segurança da colônia para um ganho pessoal.”
Helena sentiu um nó na garganta. Uma dívida de sangue. Sua mãe, perdida em um projeto de extração de água falho, impulsionado pela ganância e pela falta de cautela. Agora, Elias Thorne, um homem que representava tudo o que ela lutava contra, estava repetindo os mesmos erros, mas de forma ainda mais perigosa.
“Precisamos ir a Hélio”, Helena decidiu, sua voz firme e determinada. “Precisamos ver com nossos próprios olhos. Se Thorne está usando Hélio para seus próprios fins, ele não pode continuar a fazê-lo sem que saibamos.”
Marco assentiu. “Eu vou organizar uma nave. Discretamente. Não podemos deixar que Thorne saiba que estamos investigando Hélio também.”
Aris, tremendo, falou: “Eu posso ajudar. Eu tenho os dados completos das sondas de Hélio. E eu conheço os protocolos de comunicação da área. Posso ajudar a mascarar nossa presença.”
A decisão estava tomada. A busca pela verdade os levaria agora a um dos locais mais hostis do sistema solar. Se Thorne estava envolvido, ele teria que responder por isso. Helena sabia que era perigoso. A assinatura energética encontrada em Hélio era um eco do poder destrutivo que ela havia testemunhado de perto. Mas o desejo de justiça, a necessidade de proteger a colônia de um inimigo interno, era mais forte do que o medo.
Enquanto se preparavam para a viagem, Helena não conseguia parar de pensar em sua mãe. A tragédia que a havia levado, a busca incessante por recursos que a custou a vida. E agora, Elias Thorne, repetindo a mesma história, mas com um propósito muito mais sombrio. A colônia foi construída sobre sonhos de um futuro melhor, de independência e prosperidade. Mas o caminho para esse futuro estava pavimentado com os ossos dos que ousaram sonhar e foram esmagados pela ganância e pelo poder.
A viagem para Hélio seria arriscada. Mas para Helena, era mais do que uma investigação. Era uma forma de honrar a memória de sua mãe, de garantir que suas vidas não tivessem sido perdidas em vão. A dívida de sangue precisava ser paga, e a verdade, custasse o que custasse, seria revelada. Marte e suas luas guardavam segredos sombrios, e Helena estava determinada a desenterrá-los, mesmo que isso significasse enfrentar a escuridão mais profunda.