O Segredo Proibido III

O Segredo Proibido III

por Davi Correia

O Segredo Proibido III

Autor: Davi Correia

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Capítulo 1 — O Retorno das Sombras

O cheiro de maresia, o sal que beija a pele e a promessa de um novo começo. Para Rafael, aquele aroma era a própria essência da liberdade. Após dois longos anos exilado em terra firme, longe do azul infinito que tanto amava, ele pisou no cais de Angra dos Reis com uma sensação agridoce. A cidade que guardava suas memórias mais preciosas, e também as mais doloridas, agora se abria como um livro de capa gasta, suas páginas repletas de fantasmas que teimavam em não se apagar.

O sol da manhã, ainda tímido, pintava o céu com tons de rosa e laranja, refletindo nas águas calmas da baía. Os barcos de pesca, ancorados em filas ordenadas, pareciam adormecidos, esperando o despertar do dia para levar seus tripulantes em busca do sustento. Rafael sentiu um aperto no peito. Cada detalhe, cada detalhe minúsculo, o transportava de volta. De volta àquele verão incandescente, àquele toque que incendiava sua alma, àquele olhar que o desarmava.

Seus passos eram firmes, porém lentos, como se cada metro percorrido fosse uma batalha contra a inércia do tempo. A mala pesava em sua mão, mas o peso maior residia em seu coração. Ele viera para resolver pendências, para colocar um ponto final em uma história que, em sua mente, havia sido abruptamente interrompida. Mas o que ele não esperava era que as pendências fossem tão vivas, tão presentes, que o passado o esperasse de braços abertos, ou talvez de punhos cerrados.

Ao longe, avistou a silhueta familiar da casa de sua família, com suas paredes brancas descascadas pelo tempo e o telhado de telhas vermelhas, um refúgio que ele havia deixado para trás em busca de uma vida que parecia mais promissora longe dali. Mas a vida, em sua infinita e cruel sabedoria, tinha outros planos. O chamado para retornar não era apenas profissional; era uma necessidade existencial, um grito mudo de sua alma que ecoava pelas ondas.

Enquanto caminhava pela rua de paralelepípedos, o burburinho da cidade começava a tomar forma. Pescadores arrastando suas redes, comerciantes abrindo suas lojas, crianças correndo em direção à escola. E então, ele o viu. Parado na esquina da praça principal, em frente à velha igreja, estava ele. Lindo, impecável, como se o tempo tivesse esquecido de tocá-lo.

Leonardo.

O nome ressoou em sua mente como um trovão. O mesmo cabelo escuro e desalinhado que ele adorava bagunçar com os dedos. Os mesmos olhos verdes, profundos como o oceano em seus dias mais sombrios, que o encaravam com uma mistura de surpresa e… o quê mais? Raiva? Indiferença?

Rafael sentiu o ar faltar em seus pulmões. Dois anos. Dois anos de silêncio, de cartas não enviadas, de ligações evitadas. E ali estava Leonardo, a materialização de todas as suas inseguranças e de todo o amor que ele jamais ousara admitir em voz alta.

Leonardo, por sua vez, parecia ter congelado no tempo. A expressão em seu rosto era um misto de incredulidade e algo mais sutil, algo que Rafael não conseguia decifrar. Por um instante, o mundo ao redor deixou de existir. Apenas os dois, separados por poucos metros, mas por um abismo de sentimentos não resolvidos.

Rafael deu um passo à frente, hesitante. O coração martelava em seu peito, um tambor descompassado. Ele sabia que deveria ter se preparado para isso, mas a realidade era infinitamente mais avassaladora do que qualquer cenário que ele pudesse ter imaginado.

"Leo?", a voz de Rafael saiu rouca, um sussurro que mal se ouvia acima do barulho da cidade.

Leonardo piscou, como se despertasse de um transe. Seus lábios se curvaram em um sorriso irônico, um sorriso que Rafael conhecia bem, um sorriso que precedia tempestades.

"Rafael. Que surpresa. Pensei que tivesse esquecido o caminho de volta para casa." A voz de Leonardo era fria, polida, como o gelo que se formava em seu interior.

A ironia cortou Rafael como uma faca. Ele sentiu um nó na garganta, a vontade de explicar, de pedir desculpas, de gritar o quanto sentiu sua falta, tudo lutando contra a barragem de orgulho e dor que ele havia construído.

"Eu… precisei resolver algumas coisas." Rafael tentou manter a compostura, mas suas mãos tremiam levemente.

"Coisas? Ou pessoas?" Leonardo deu um passo à frente, seu olhar fixo no de Rafael. A intensidade do seu olhar era palpável, quase física. Era como ser desnudado por dentro. "Imagino que em São Paulo as 'coisas' são mais… interessantes."

A farpa na voz de Leonardo era inconfundível. Rafael sentiu uma pontada de dor. Ele sabia que sua partida havia sido um golpe para Leonardo, mas ele não teve escolha. Ou melhor, ele acreditou que não teve.

"Não fale do que você não sabe, Leo." A voz de Rafael endureceu.

"Ah, eu sei o suficiente, Rafael. Sei que você sumiu sem deixar rastro. Sei que você me deixou aqui, esperando, enquanto vivia sua vida em outro lugar. E agora você volta, como se nada tivesse acontecido." Leonardo deu uma risada seca. "Engraçado, não é? O cara que jurou que eu era o único, que o amor dele era eterno, some no ar."

As palavras de Leonardo cravaram-se em Rafael como espinhos. Ele não podia negar a verdade em suas acusações. Havia sido covarde. Havia sido fraco. Mas a dor que sentia agora, ao ver a mágoa nos olhos de Leonardo, era ainda maior do que a que ele causara.

"Eu… eu sinto muito, Leo. De verdade. Eu não sabia como te explicar tudo na época. Eu estava confuso, assustado." Rafael sentiu a voz embargar. As lágrimas ameaçavam cair, e ele lutou para contê-las. Ele não podia se dar ao luxo de chorar na frente de Leonardo. Não ainda.

Leonardo o observou por um longo instante, o silêncio pesado pairando entre eles. A raiva em seus olhos parecia ceder um pouco, dando lugar a uma melancolia profunda.

"Assustado? Rafael, você era o meu mundo. E você jogou tudo fora por medo? Que tipo de amor é esse que se desfaz com um pouco de vento?"

"Não foi um pouco de vento, Leo! Foi um furacão!" Rafael finalmente levantou a voz, a frustração e a dor explodindo. "Você não entende o que eu passei, o que eu tive que enfrentar!"

"E você acha que eu não enfrentei nada? Acha que foi fácil para mim ficar aqui, vendo você ir, sabendo que você poderia estar com outra pessoa, vivendo uma vida que eu não podia te oferecer?" A voz de Leonardo tremia, a máscara de frieza começando a ruir.

E então, a verdade, a mais pura e crua das verdades, escapou dos lábios de Rafael, num suspiro desesperado.

"Eu fui para São Paulo por sua causa, Leo! Para tentar ser quem você precisava que eu fosse! Para tentar encontrar uma saída para o nosso futuro! Mas o que eu encontrei lá… foi algo que me fez perceber que eu nunca poderia te dar a vida que você merecia, Leo. E isso… isso me quebrou."

Leonardo o olhava, a respiração suspensa. A confissão de Rafael pairava no ar, uma bomba que explodiu a quietude da manhã. As palavras, tão longas e tão não ditas, finalmente encontraram seu caminho.

"O quê… o quê você quer dizer com isso, Rafael?" Leonardo perguntou, a voz embargada pela emoção.

Rafael fechou os olhos por um instante, reunindo a coragem que lhe restava. Quando os abriu, seu olhar era de pura entrega.

"Quero dizer que eu te amo, Leonardo. Amo como nunca amei ninguém. E o meu medo, o meu desespero, era de te machucar mais do que já te machuquei. De não ser suficiente. De te condenar a uma vida que não te faria feliz."

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O sol da manhã, agora mais forte, banhava a praça em luz, mas para Rafael, tudo parecia envolto em uma névoa de incertezas. Leonardo o encarava, o rosto pálido, os olhos arregalados. Ele não disse nada. Apenas ficou ali, imóvel, a personificação da tempestade que se formava no horizonte.

Rafael sabia que havia aberto uma porta, mas não tinha ideia do que encontraria do outro lado. Ele havia jogado suas cartas, revelado seu segredo mais profundo. Agora, tudo o que podia fazer era esperar, e enfrentar as consequências, sejam elas quais fossem. O retorno às sombras havia começado, e ele não tinha mais para onde correr.

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