Amor sem Máscaras III

Amor sem Máscaras III

por Enzo Cavalcante

Amor sem Máscaras III

Autor: Enzo Cavalcante

Capítulo 11 — O Silêncio que Grita

A noite caiu sobre a cidade como um véu pesado, tingindo as luzes de neon em borrões melancólicos. No apartamento de Gabriel, o silêncio era um intruso indesejado, preenchido apenas pelo tic-tac insistente do relógio na parede e pelo som distante do trânsito, um lamento urbano que parecia ecoar a quietude que pairava entre ele e Lucas.

Gabriel estava sentado na poltrona de couro desgastado, o olhar perdido na vastidão escura do vidro da janela. Cada reflexo que via era um fantasma de Lucas, um lembrete cruel do que havia acontecido, do que ele havia perdido. A última conversa, as palavras ditas em um tom que ele não reconhecia, a decisão implacável – tudo rodopiava em sua mente, um turbilhão de dor e arrependimento. Ele tentava, com todas as forças, desvendar a lógica por trás daquele rompimento súbito, mas as peças simplesmente não se encaixavam. Era como tentar montar um quebra-cabeça com as peças de outro jogo.

O perfume de Lucas ainda pairava no ar, sutil, mas persistente, um fantasma olfativo que o torturava. Cada canto do apartamento parecia carregar a sua marca: o livro deixado aberto na mesa de centro, a caneca de café que ele usava pela manhã, até mesmo o travesseiro no sofá onde ele costumava se aninhar para assistir a filmes. Gabriel se sentia invadido pela ausência, uma lacuna física e emocional que o sufocava.

Ele pegou o celular, os dedos hesitantes sobre a tela. A lista de contatos de Lucas era um campo minado. Tentar ligar, enviar uma mensagem… qual seria a reação? Mais silêncio? Uma rejeição fria? A incerteza era um veneno lento. Ele sabia que precisava falar, precisava entender. A raiva que sentira no momento da separação havia se transformado em uma tristeza profunda e corrosiva. Ele não conseguia aceitar. Não conseguia acreditar que tudo o que haviam construído, todas as promessas sussurradas sob a luz da lua, tivessem se esvaído em tão pouco tempo.

Gabriel levantou-se, o corpo pesado de cansaço e angústia. Caminhou até a estante de livros, seus dedos percorrendo as lombadas. Havia um ali, um exemplar de “Cem Anos de Solidão”, que Lucas havia lhe dado. Ele o pegou, sentindo o cheiro do papel, das páginas amareladas. Lembrou-se da tarde em que leram juntos, deitados na grama do parque, rindo das ironias da vida. Onde fora parar aquela leveza?

Uma lágrima solitária rolou por sua bochecha, traçando um caminho quente em sua pele fria. Ele a enxugou com a ponta dos dedos, sentindo o sal. Era uma das poucas coisas reais que restavam naquele turbilhão de incertezas. Ele sentia falta da voz de Lucas, do jeito que ele o olhava quando estava apaixonado, da maneira como seus corpos se encaixavam perfeitamente em um abraço. A dor era palpável, física, como se uma parte de si tivesse sido arrancada.

Ele se sentou na cama, o edredom ainda com o leve cheiro de Lucas. O celular vibrou em sua mão. O coração disparou. Era uma mensagem. Ele a abriu com a respiração suspensa.

“Gabriel, precisamos conversar. Pessoalmente. Amanhã. No café da esquina, às 10h. Sem plateia. Só nós.”

A mensagem era de Lucas. As palavras eram curtas, diretas, mas carregavam um peso imenso. Uma ponta de esperança, frágil como uma teia de aranha, começou a se formar em seu peito. Era um convite, uma chance. Mas a ansiedade também o consumia. O que Lucas diria? Seria para explicar, para se desculpar, ou para solidificar a decisão de quebrar tudo?

Gabriel passou o resto da noite em claro, alternando entre a esperança nervosa e o medo paralisante. Ele ensaiou possíveis conversas em sua mente, tentou antecipar as palavras de Lucas, mas sua imaginação era um labirinto sem saída. Ele sabia que precisava ir. Precisava enfrentar o que quer que Lucas tivesse a dizer. A incerteza era insuportável.

O sol nasceu tímidamente na manhã seguinte, pintando o céu com tons de laranja e rosa, um espetáculo que Gabriel, em seu estado de espírito, mal conseguia apreciar. Ele se vestiu mecanicamente, escolhendo roupas que não o fizessem sentir-se excessivamente chamativo ou desleixado. O café da esquina era o lugar deles, um refúgio secreto onde costumavam se encontrar antes que a vida se complicasse.

Ao chegar, Gabriel avistou Lucas sentado em uma mesa no canto, a cabeça baixa, mexendo em um sachê de açúcar. Ele parecia mais magro, com olheiras profundas sob os olhos. Havia uma aura de cansaço ao seu redor, uma fragilidade que Gabriel nunca vira antes. A visão apertou seu peito. Mesmo no meio da dor, o amor por ele ainda era um instinto profundo e inabalável.

Respirando fundo, Gabriel se aproximou. “Lucas.”

Lucas ergueu a cabeça, seus olhos encontrando os de Gabriel. Havia uma mistura de alívio e apreensão em seu olhar. “Gabriel. Obrigado por vir.” Sua voz era rouca, hesitante.

Gabriel sentou-se na cadeira em frente a ele, o silêncio voltando a se instalar entre eles, agora carregado de uma tensão quase palpável. O garçom se aproximou para anotar os pedidos, um alívio temporário para a situação desconfortável. Gabriel pediu um café preto, sem açúcar. Lucas pediu o mesmo.

Quando o garçom se afastou, Lucas finalmente falou, a voz baixa, quase um sussurro. “Eu… eu não sabia como te dizer isso por mensagem. Ou por telefone. Precisei te ver.” Ele olhou para as próprias mãos, a angústia visível em cada linha de seu corpo. “Gabriel, eu cometi um erro. Um erro terrível.”

As palavras de Lucas atingiram Gabriel como um soco no estômago. Ele tentou manter a compostura, mas seu corpo reagiu involuntariamente. Ele inclinou-se para frente, o olhar fixo em Lucas, esperando a continuação.

“Eu fui… covarde,” Lucas continuou, sua voz embargada. “As coisas estavam ficando complicadas, a pressão, as expectativas… eu me senti sufocado. E em vez de conversar com você, de lutarmos juntos, eu fugi. Eu me fechei. E tomei a pior decisão da minha vida.”

Gabriel ouvia, o coração batendo descompassado em seu peito. A confissão de Lucas era um bálsamo para a sua alma ferida, mas a dor da separação ainda era uma ferida aberta. Ele precisava entender o que havia motivado aquela fuga.

“Mas o que exatamente te sufocou, Lucas?” Gabriel perguntou, sua voz firme, mas cheia de dor. “Eu pensei que éramos um time. Que poderíamos enfrentar qualquer coisa juntos.”

Lucas suspirou, um som carregado de arrependimento. “E éramos. E somos. O problema não era você, Gabriel. O problema era eu. Eu estava com medo. Medo de não ser bom o suficiente, medo de decepcionar você, medo de que essa intensidade toda entre nós fosse demais para mim. Eu sou mais frágil do que eu aparento.”

As lágrimas começaram a se formar nos olhos de Lucas, e Gabriel sentiu um nó na garganta. Ver Lucas assim, tão vulnerável, era doloroso.

“Eu me forcei a acreditar que era o certo a fazer,” Lucas confessou, finalmente erguendo os olhos para encarar Gabriel. As lágrimas agora rolavam livremente por seu rosto. “Eu pensei que te dar espaço, que me afastar, me daria tempo para me encontrar. Mas cada dia longe de você era um tormento. Cada lembrança era uma facada. Eu percebi que o meu maior medo não era te decepcionar, mas sim viver uma vida sem você.”

Um silêncio pesado pairou entre eles, apenas quebrado pelo som suave das xícaras de café sendo colocadas na mesa. Gabriel sentiu uma mistura de emoções conflitantes: a dor da perda, a raiva pela forma como tudo aconteceu, mas também um raio de esperança, um alívio imenso por saber que o amor de Lucas ainda existia.

“Lucas,” Gabriel começou, sua voz suave, mas firme. “Você me machucou. Muito. A forma como você agiu… me deixou sem chão. Eu não entendi nada.”

Lucas assentiu, suas lágrimas ainda caindo. “Eu sei. E me arrependo profundamente de cada segundo. Eu não mereço seu perdão, Gabriel. Mas eu precisava te dizer isso. Precisava que você soubesse que eu errei. Que eu te amo mais do que tudo. E que eu estou disposto a fazer tudo para reconquistar sua confiança, para reconstruir o que eu destruí.”

Gabriel observou Lucas, a sinceridade em seus olhos, a dor em sua voz. Ele sabia que a jornada seria longa e difícil. A confiança, uma vez quebrada, era difícil de restaurar. Mas ali, naquele café barulhento, em meio a tantas outras conversas, algo novo começava a se formar. Não era um perdão instantâneo, mas um convite para tentar novamente.

“Eu preciso de tempo, Lucas,” Gabriel disse, sua voz um pouco mais firme agora. “Tempo para processar tudo isso. Tempo para entender se eu posso acreditar em você novamente.”

Lucas assentiu, um pequeno e triste sorriso brincando em seus lábios. “Eu entendo. E eu vou te dar todo o tempo do mundo. Eu vou esperar. Eu vou provar para você que o meu amor é real. Que o que nós temos é real.”

Eles ficaram ali, olhando um para o outro, o silêncio agora um pouco menos pesado, mas ainda carregado de incertezas. O café esfriava em suas xícaras, testemunha silenciosa do recomeço, ou talvez, do fim de uma era. A conversa, por mais dolorosa que tivesse sido, abriu uma porta. Uma porta estreita, ainda cheia de sombras, mas uma porta. E Gabriel, pela primeira vez em muito tempo, sentiu um leve, mas inegável, sopro de esperança. O silêncio que gritava em seu apartamento havia sido substituído pelo barulho da vida real, e pela promessa, ainda frágil, de um futuro.

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