Amor sem Máscaras III

Capítulo 12 — As Cicatrizes do Passado

por Enzo Cavalcante

Capítulo 12 — As Cicatrizes do Passado

O ar no estúdio de arte de Matheus parecia impregnado de uma tensão quase palpável, uma mistura de tinta fresca, terebintina e a melancolia persistente de uma noite de insônia. A luz fraca da manhã lutava para penetrar pelas janelas empoeiradas, lançando longas sombras sobre as telas espalhadas pelo chão e as esculturas inacabadas que pareciam observar o tumulto silencioso.

Matheus estava em pé diante de um cavalete, um pincel em uma mão, uma paleta de cores na outra. Seus olhos, porém, estavam fixos não na tela em branco à sua frente, mas em uma fotografia antiga, presa com fita adesiva em um canto do espelho. Era ele, mais jovem, ao lado de seu pai, um sorriso radiante em seus rostos. Um sorriso que parecia pertencer a outra vida.

A imagem o puxava de volta, para um tempo antes das acusações, antes das perdas, antes do abismo que se abriu entre ele e sua família. A revelação de que seu pai estava envolvido em esquemas de lavagem de dinheiro, culminando em sua prisão e na subsequente ruína financeira da família, era uma ferida que nunca cicatrizou completamente. Ele se sentia traído, enganado. E, o pior de tudo, sentia-se envergonhado.

Ele largou o pincel com um suspiro pesado. A arte, que antes era seu refúgio, agora parecia um espelho distorcido de sua própria dor. Cada traço, cada cor, parecia evocar memórias dolorosas. Ele sentia falta da aprovação de seu pai, de seus conselhos, mesmo que agora soubesse que tudo era uma fachada.

O telefone tocou, estridente, quebrando a quietude. Matheus hesitou por um momento antes de atender.

“Alô?”

“Matheus? Sou eu, Sofia.” A voz de sua irmã, embora mais calma, carregava um tom de urgência.

“Sofia. O que houve?” Matheus perguntou, o tom de voz já prenunciando um problema.

“É a mãe. Ela… ela teve uma queda. Está no hospital. Nada grave, graças a Deus, mas ela está muito abalada. Ela me pediu para te ligar.”

O coração de Matheus afundou. Sua mãe. A mulher que sempre foi seu porto seguro, que tentou manter a família unida após a queda do pai. Ela nunca o perdoou completamente por ter se afastado após a prisão, por não ter aceitado as explicações confusas e as desculpas esfarrapadas de seu pai.

“Onde ela está?” Matheus perguntou, já pegando as chaves do carro.

“No Hospital Santa Maria. Ela está no quarto 302.”

“Estou a caminho.”

A viagem para o hospital foi tensa. Matheus dirigia em silêncio, a mente cheia de preocupações. Ele não falava com a mãe com frequência, e cada conversa era carregada de uma frieza sutil, um reflexo da dor que os separava. Ele sabia que ela o culpara, em parte, por ter se distanciado do pai, por ter recusado a defesa dele, por ter se recusado a acreditar nas desculpas que ela, com sua lealdade cega, aceitava.

Ao chegar ao Hospital Santa Maria, um edifício imponente e ligeiramente antiquado, Matheus sentiu um arrepio. O cheiro de desinfetante e a atmosfera de apreensão eram familiares e perturbadores. Ele perguntou na recepção e seguiu as indicações para o terceiro andar.

Quando abriu a porta do quarto 302, encontrou sua mãe sentada na cama, com o braço enfaixado e uma expressão de cansaço no rosto. Sofia estava ao lado dela, consolando-a. Ao ver Matheus, os olhos de sua mãe se arregalaram ligeiramente, um misto de surpresa e algo que ele não conseguia decifrar.

“Matheus,” ela disse, a voz fraca.

“Mãe,” ele respondeu, aproximando-se com cautela. “Sofia me ligou. Como você está?”

“Estou bem. Um susto, só.” Ela evitou o contato visual direto, focando em um ponto indefinido na parede.

Sofia se afastou, dando espaço para que eles pudessem conversar. “Eu vou pegar um café, volto logo.”

Assim que Sofia saiu, um silêncio desconfortável se instalou. Matheus sentou-se na cadeira ao lado da cama. Ele sabia que aquele era um momento delicado, uma oportunidade de tentar reconectar.

“Mãe, eu sinto muito pelo que aconteceu,” ele começou, a voz suave. “Pelo seu braço, e… por tudo.”

Ela finalmente olhou para ele, seus olhos marejados. “Você deveria ter estado aqui, Matheus. Com a gente. Com seu pai.”

A acusação, embora velada, doeu. “Mãe, você sabe por que eu me afastei. Eu não podia mais viver naquela mentira. Eu não podia acreditar nele depois de tudo o que ele fez.”

“Ele era seu pai!” a voz dela se elevou um pouco, carregada de mágoa. “Ele errou, sim, mas ele te amava. E você o abandonou.”

“Eu não o abandonei, mãe. Eu me protegi. Eu protegi a mim mesmo. E eu precisei de tempo para curar isso.”

“E quem curou minhas feridas, Matheus? Quem ficou aqui segurando a barra enquanto você se escondia em seu mundo de arte?” A voz dela tremia de emoção.

Matheus sentiu um aperto no peito. Ele sabia que ela tinha razão. Ela havia suportado o peso da vergonha, da prisão do marido, da ruína financeira, tudo isso enquanto ele se refugiava em seu mundo.

“Eu sei, mãe. E eu sinto muito por isso. Eu fui egoísta. Eu estava tão focado na minha dor que não vi a sua.” Ele estendeu a mão e tocou a dela, que estava apoiada sobre o cobertor. “Eu sinto sua falta. Sinto falta de como éramos antes.”

A mãe hesitou por um momento, seus olhos fixos na mão dele sobre a sua. Lentamente, ela apertou os dedos dele. “Eu também sinto sua falta, meu filho. Mas essa dor… essa traição… é difícil de esquecer.”

“Eu sei que é. E eu nunca vou pedir para você esquecer. Mas talvez… talvez possamos encontrar um jeito de seguir em frente. Juntos.”

Naquele momento, Sofia voltou com os cafés, interrompendo a conversa. Mas algo havia mudado. Uma rachadura na muralha de ressentimento que os separava.

Nos dias seguintes, Matheus fez questão de visitar a mãe todos os dias. Ele a ajudava com pequenas tarefas, conversava sobre seu trabalho, sobre suas novas criações. Ele evitou o assunto do pai, focando em reconstruir a ponte entre eles.

Uma tarde, enquanto ele estava arrumando algumas coisas no quarto dela, sua mãe o chamou.

“Matheus.”

Ele se virou. Ela estava sentada, olhando para ele com uma expressão pensativa.

“Eu tenho pensado muito no que você disse. Sobre seguir em frente. E… talvez você tenha razão.” Ela respirou fundo. “Eu fui teimosa. Eu me agarrei à raiva, à dor, e isso não me fez bem. Eu nunca te perdoei por se afastar, mas a verdade é que eu também me senti abandonada.”

Matheus aproximou-se, sentando-se na beira da cama. “Nós ambos nos sentimos abandonados, mãe. Mas isso não precisa ser o fim.”

“Eu sei.” Ela fez uma pausa, o olhar perdido. “Seu pai… ele era um homem complicado. Ele cometeu erros terríveis. Mas ele também tinha seus bons momentos. Ele amava a gente, do jeito dele. Talvez ele só não soubesse amar melhor.”

Matheus assentiu, sentindo uma leveza que não sentia há anos. Era um começo. Um começo doloroso, cheio de cicatrizes, mas um começo.

“E você, Matheus,” ela continuou, seus olhos fixos nos dele. “Você é um artista talentoso. Não deixe que o que aconteceu com seu pai defina você. Você tem seu próprio caminho.”

Naquele momento, algo dentro de Matheus se soltou. Ele sentiu um alívio imenso, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. A necessidade de provar algo para si mesmo, de se distanciar da sombra do pai, começou a diminuir.

“Eu estou trabalhando em uma nova série de esculturas,” Matheus disse, um leve sorriso surgindo em seus lábios. “Elas são inspiradas em… em resiliência. Em como as coisas que nos machucam podem nos moldar, mas não nos quebrar.”

Sua mãe sorriu, um sorriso genuíno e caloroso. “Eu adoraria ver isso, Matheus. Quando estiver pronto, quero que você me mostre.”

Matheus sentiu uma onda de gratidão invadir seu peito. Ele sabia que a reconciliação completa seria um processo longo, cheio de altos e baixos. As cicatrizes do passado estavam ali, profundas, mas talvez, apenas talvez, elas pudessem começar a se curar. Ele olhou para sua mãe, para o sorriso dela, e sentiu que, pela primeira vez em muito tempo, ele não estava mais sozinho naquela luta. A arte, antes um refúgio solitário, agora se tornava um caminho para reconectar, para curar, para construir algo novo sobre as cinzas do passado.

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