Corações Unidos III
Capítulo 10 — O Legado de Davi e a Fuga Imprevista
por Enzo Cavalcante
Capítulo 10 — O Legado de Davi e a Fuga Imprevista
A noite anterior deixara marcas profundas. A adrenalina do confronto com Armando Vasconcelos ainda pulsava nas veias de Miguel e Rafael, mas, acima de tudo, pairava a esperança. O diário de Davi, aquele tesouro inesperado, era a prova de que eles não estavam desarmados. As anotações detalhadas sobre as atividades ilícitas de Armando na Vasconcelos Motors eram a munição que eles precisavam.
"Não podemos demorar", Miguel disse, enquanto preparava um café forte. O sol já estava alto, e o Vale Escondido parecia ter retomado sua serenidade habitual, mas para eles, a paz era apenas uma ilusência momentânea. "Armando sabe que estamos aqui. Ele vai voltar, e na próxima vez, ele não virá sozinho."
Rafael concordou, sua expressão séria. Ele estava debruçado sobre o diário de Davi, comparando anotações, traçando conexões. "Eu preciso ter certeza de que tenho tudo. Davi foi muito cuidadoso. Ele sabia que Armando era astuto. As informações estão codificadas, mas eu consigo decifrá-las."
Ele olhou para Miguel, seus olhos azuis brilhando com uma mistura de determinação e apreensão. "Ele não vai desistir, Miguel. Ele vê você como a razão de tudo ter desmoronado. E ele vê a mim como a prova viva de sua falha."
Miguel se aproximou de Rafael, colocando a mão em seu ombro. "Nós vamos enfrentar isso juntos. Como sempre." Ele sorriu, um sorriso terno que fez o coração de Rafael acelerar. "O legado de Davi é poderoso. Ele nos deu uma arma. Agora, precisamos usá-la."
A ideia de expor Armando era tentadora, mas perigosa. Eles precisavam de provas sólidas, de um plano bem executado. Uma ida à cidade, a busca por um advogado confiável, talvez até mesmo a imprensa. Mas o risco de serem interceptados por Armando era imenso.
Enquanto discutiam as possibilidades, um barulho distante chamou a atenção deles. Um som agudo, como o de um alarme de carro.
"O que é isso?", Miguel perguntou, olhando para a janela.
Rafael se levantou rapidamente, indo até o portão da propriedade. Ele podia ver, na estrada de terra que levava à casa, outro veículo se aproximando. Desta vez, não era o carro luxuoso de Armando. Era um utilitário preto, discreto, mas com uma presença intimidadora.
"Não sei quem é", Rafael disse, a voz tensa. "Mas não parece ser alguém que veio nos visitar pacificamente."
Miguel se juntou a ele. A figura que desceu do veículo era alta e robusta, vestindo um uniforme escuro. Ele não parecia um motorista perdido. Havia algo profissional, quase militar, em seus movimentos. E então, o homem fez um gesto com a mão, e mais dois homens desceram do mesmo veículo, todos com a mesma aparência séria e profissional.
"Isso não é bom", Rafael murmurou. "Parece que Armando mandou seguranças. Ou pior."
O homem de uniforme se aproximou do portão, sem hesitar. Ele olhou para Rafael e Miguel, seu rosto impassível.
"Sr. Rafael Vasconcelos?", ele perguntou, a voz grave.
"Sim", Rafael respondeu, cautelosamente.
"Meu nome é Silva. Recebemos ordens para escoltá-lo de volta para a cidade. Seu pai, Sr. Armando Vasconcelos, deseja sua presença imediata." A frieza na voz de Silva não deixava espaço para negociação.
"Meu pai não tem o direito de me obrigar a ir a lugar nenhum", Rafael retrucou, o tom desafiador.
Silva deu um passo à frente, um leve sorriso de escárnio em seus lábios. "Temos ordens estritas, Sr. Vasconcelos. E ele não aceita um 'não' como resposta. Quanto ao seu amigo...", ele lançou um olhar frio para Miguel, "...ele não precisa se preocupar. Ele pode ficar aqui. Ou ir embora. A escolha é dele."
A ameaça velada era clara. Armando não queria Miguel com Rafael.
Miguel sentiu um aperto no peito. A ideia de ser separado de Rafael, especialmente agora, era insuportável.
"Eu vou com ele", Miguel declarou, dando um passo à frente.
Silva riu secamente. "Isso não está nos planos, amigo. Apenas o Sr. Vasconcelos está sendo 'convidado'."
"Eu não vou a lugar nenhum sem ele", Miguel repetiu, firme.
Rafael colocou a mão no braço de Miguel, apertando-o. "Miguel, talvez seja melhor... se você ficar. Eu me resolvo com meu pai. E depois, eu volto. Ou mandarei você para um lugar seguro."
Miguel olhou nos olhos de Rafael, vendo a preocupação, mas também a necessidade de protegê-lo. Mas ele sabia que não poderia simplesmente deixá-lo.
"Não, Rafael", Miguel disse, a voz suave, mas resoluta. "Eu não vou te deixar. Não importa o que Armando queira."
Silva observou a cena com um olhar calculista. Ele sabia que a resistência era inútil. Sua missão era clara: levar Rafael.
"Muito bem", disse Silva, com um suspiro de impaciência. "Mas que fique claro. Apenas o Sr. Vasconcelos vem conosco. Se você tentar se intrometer, as consequências serão desagradáveis."
Rafael olhou para Miguel, um misto de gratidão e angústia em seu rosto. Ele sabia que a situação era perigosa, mas a lealdade de Miguel era algo que ele não podia ignorar.
"Eu vou com você", Rafael disse a Silva. "Mas meu amigo também vem. Ou nenhum de nós vai."
Silva fez uma pausa, considerando a proposta. A ordem era clara: trazer Rafael. E se isso significasse lidar com um acompanhante indesejado, que assim seja.
"Que assim seja", disse Silva, com um aceno de cabeça. "Mas você ficará sob nossa supervisão constante. E qualquer tentativa de fuga ou desobediência... bem, você sabe as consequências."
Miguel sentiu um alívio momentâneo. Ele estaria com Rafael. Mas o perigo era real. Eles estavam indo diretamente para o covil do lobo.
Enquanto se preparavam para partir, Rafael pegou o diário de Davi e o escondeu em sua mochila. Ele sabia que, mesmo sob vigilância, ele precisaria ter aquilo.
Eles entraram no SUV preto, com Silva e seus homens os seguindo de perto. O Vale Escondido, que havia sido seu refúgio, desaparecia na distância, engolido pela neblina da manhã. Miguel sentiu uma pontada de tristeza, mas também uma determinação renovada. Eles não estavam fugindo, estavam indo para o confronto. O legado de Davi os impulsionava.
A viagem foi tensa e silenciosa. Silva e seus homens raramente falavam, e quando o faziam, era em termos frios e diretos. Miguel e Rafael trocavam olhares discretos, buscando conforto e força um no outro. A separação que Armando tanto desejava não aconteceria.
Ao chegarem à mansão Vasconcelos, o luxo opressivo os atingiu como um golpe. O mármore frio, os quadros caros, a grandiosidade que escondia um império de segredos e manipulação. Armando os esperava na sala principal, sentado em uma poltrona de couro, um copo de uísque na mão. Havia um sorriso vitorioso em seus lábios.
"Rafael, meu filho. Que bom que você veio. E você também, Miguel", disse Armando, seus olhos fixos em Miguel com um brilho de desprezo. "Pensei que você tivesse mais bom senso do que vir se meter em meus assuntos."
"Eu vim porque Rafael precisa de mim", Miguel respondeu, mantendo a voz firme.
Armando riu, um som cruel. "Ele precisa de disciplina. Precisa de um lembrete de quem está no controle." Ele se virou para Rafael. "Você acha que pode desafiar a mim? A família Vasconcelos? Você tem um diário patético que seu pai idiota deixou para trás. Acha que isso vai mudar alguma coisa?"
Rafael deu um passo à frente, o diário seguro em sua mochila. "Isso vai mudar tudo, pai. As pessoas vão saber quem você realmente é."
Armando se levantou, o rosto contraído de fúria. "Você não tem ideia do poder que eu controlo! Você não tem ideia do que está arriscando!" Ele olhou para Miguel. "E você. O garoto de rua. Acha que pode desafiar um império? Você não é nada. E se não se afastar de meu filho, você vai desaparecer. Sem rastros."
O olhar de Armando era de puro ódio. Miguel sentiu um arrepio, mas não cedeu. Ele olhou para Rafael, vendo a mesma determinação em seus olhos. O legado de Davi não era apenas um diário; era a coragem de lutar pelo que é certo, pelo amor que foi negado.
De repente, Silva interveio. "Sr. Vasconcelos, talvez seja melhor levarmos o Sr. Vasconcelos para o seu quarto. E o Sr. Miguel para um lugar mais... seguro." A sugestão de 'seguro' era claramente uma ameaça.
Rafael olhou para Miguel, um pedido silencioso em seus olhos. Miguel assentiu, um gesto de apoio inabalável. Eles estavam juntos nessa.
"Não", Miguel disse, dando um passo à frente. "Eu não vou a lugar nenhum sem Rafael. E Rafael não vai ficar aqui, sob o seu controle."
Armando rugiu de raiva. "Você vai me desobedecer, garoto? Na minha própria casa?"
Nesse exato momento, a porta principal se abriu, e um homem com terno escuro e uma expressão séria entrou. Era um advogado, com uma pasta na mão.
"Sr. Armando Vasconcelos?", o advogado perguntou. "Recebi uma solicitação urgente. Meu nome é Dr. Almeida. Fui contatado por um cliente que deseja apresentar provas de atividades fraudulentas em nome da Vasconcelos Motors. Precisarei de acesso a alguns documentos e registros."
Armando Vasconcelos ficou petrificado. Seus olhos escuros se arregalaram de choque e fúria. Ele olhou para Rafael, depois para Miguel, e então de volta para o advogado. O jogo, que ele pensou estar ganhando, parecia ter virado de ponta-cabeça. O legado de Davi, protegido por seu filho e agora revelado por um advogado, era a arma que eles precisavam.
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