Corações Unidos III
Corações Unidos III
por Enzo Cavalcante
Corações Unidos III
Autor: Enzo Cavalcante
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Capítulo 16 — A Cicatriz da Alma e o Abraço Que Cura
A noite havia caído como um véu pesado sobre a cidade, mas dentro do apartamento de Gael, a tempestade ainda rugia. O ar estava denso, carregado com a eletricidade crua de sentimentos expostos, de verdades gritadas no silêncio. Lucas, com o rosto ainda marcado pela incredulidade e pela dor, olhava para Gael com uma mistura de mágoa e desespero. As palavras ditas por Cássio, o tio de Gael, ecoavam na mente de Lucas como ecos de um pesadelo que ele pensava ter deixado para trás. A revelação de que Gael sabia de tudo, de que havia acobertado a verdade por tanto tempo, era um golpe mais profundo do que qualquer ameaça externa.
"Você... você sabia?" A voz de Lucas soou embargada, um fio de esperança quebrando-se a cada sílaba. Seus olhos, antes tão cheios de amor e confiança, agora refletiam uma ferida aberta. Ele se sentia traído, não por Cássio, mas por Gael. O homem que ele amava, que jurou protegê-lo, que se tornou seu porto seguro, havia guardado em seu peito a mesma escuridão que quase o consumiu.
Gael sentiu o peso do olhar de Lucas como um soco no estômago. Cada acusação silenciosa em seus olhos era um prego cravado em sua consciência. Ele tentou alcançar Lucas, mas seu corpo parecia preso por correntes invisíveis, o medo de piorar as coisas o paralisando. As palavras de Cássio, lançadas com a frieza de quem se deleita com a desgraça alheia, haviam desnudado não apenas os segredos do passado, mas também as vulnerabilidades de Gael.
"Lucas, por favor..." Gael finalmente conseguiu articular, a voz rouca de emoção. "Não é como você pensa. Eu... eu não sabia como te contar. O medo me consumiu."
"Medo?" Lucas riu, uma risada amarga e sem alegria. "Você teve medo de quê, Gael? De que eu te odiasse? De que eu fugisse? Pois saiba que é exatamente isso que eu sinto agora! Medo de você! Medo de nunca ter conhecido o verdadeiro Gael!"
Cada palavra de Lucas era uma facada. Gael sentiu a própria alma se despedaçar. Ele sabia que merecia aquela dor, mas vê-la refletida nos olhos de Lucas era insuportável. Ele se lembrou de como Cássio o manipulou, sussurrando inverdades, plantando sementes de dúvida em seu coração, alimentando seu medo de perder Lucas. Ele era jovem na época, assustado com a intensidade dos sentimentos que Lucas despertava nele, assustado com as consequências que a verdade poderia trazer para ambos. Mas isso não era desculpa.
"Eu estava tentando te proteger," Gael sussurrou, a voz trêmula. "Proteger você da dor que eu via nos seus olhos, da tristeza que te consumia. Cássio me disse que a verdade te destruiria. Que você nunca se perdoaria."
"E você acreditou nele?" Lucas ergueu uma sobrancelha, a descrença tomando conta de sua feição. "Você acreditou que eu era tão fraco? Que eu não seria capaz de lidar com a minha própria história? Você me subestimou, Gael. Mais do que qualquer um."
A verdade nua e crua das palavras de Lucas o atingiu com força. Ele não apenas guardou um segredo, mas negou a Lucas a força que ele possuía. Negou a Lucas o direito de enfrentar seu passado, de se curar. A culpa o corroía. Ele se aproximou de Lucas, estendendo a mão hesitante.
"Lucas, eu sei que errei. Errei feio. Mas eu te amo. Amo mais do que a minha própria vida. E esse amor me fez cego, me fez covarde. Eu sinto muito. Sinto muito por ter te feito duvidar de mim, por ter te feito sentir sozinho nesse labirinto de segredos."
Lucas olhou para a mão de Gael, para o tremor nos seus dedos, para a angústia em seus olhos. Por um instante, ele viu o Gael que ele conheceu, o homem que o amava incondicionalmente. Mas a cicatriz da traição ainda ardia em seu peito. Ele recuou, o corpo tenso.
"Amor não se constrói com mentiras, Gael," Lucas disse, a voz firme, mas tingida de tristeza. "E você me mentiu. Todos os dias. Cada vez que você olhava nos meus olhos e não dizia nada, era uma mentira."
Gael sentiu as lágrimas quentes escorrerem pelo seu rosto. Ele não tentou mais segurá-las. Eram o reflexo da sua dor, do seu arrependimento. Ele sabia que precisava dar espaço a Lucas, dar a ele o tempo que ele precisava para processar tudo. Mas a ideia de perdê-lo era insuportável.
"Eu não espero que você me perdoe agora," Gael disse, a voz embargada pelas lágrimas. "Mas saiba que eu nunca deixei de te amar. E nunca deixarei. Se você precisar de espaço, eu darei. Mas por favor, não me deixe ir. Não me jogue fora por causa de um erro."
Lucas olhou para Gael, para o homem que ele amava desmoronando diante dele. Ele viu a sinceridade em seus olhos, a dor genuína que o consumia. A raiva que o impulsionava começou a ceder espaço para a compaixão, para o amor que ainda pulsava forte em seu peito. Era difícil, tão difícil. A confiança estava abalada, mas o amor era um fio forte, tecido com anos de cumplicidade e paixão.
Ele deu um passo à frente, a hesitação ainda presente, mas a decisão tomando forma. Ele estendeu a mão, não para tocar Gael, mas para indicar o sofá.
"Eu preciso pensar, Gael," Lucas disse, a voz mais calma agora. "Eu preciso entender. E você precisa me dar as respostas que eu mereço."
Gael assentiu, o coração apertado, mas com uma fagulha de esperança reacendida. Ele seguiu Lucas até o sofá, sentando-se a uma distância segura, mas presente. O silêncio que se instalou entre eles era diferente do silêncio de antes. Não era mais carregado de segredos e acusações, mas de uma fragilidade esperançosa, de uma promessa de reconciliação. Gael sabia que o caminho seria longo e árduo, mas ele estava disposto a trilhá-lo, passo a passo, para reconquistar a confiança de Lucas. Ele estendeu a mão mais uma vez, desta vez sem hesitação, e tocou o braço de Lucas. Lucas não se afastou. Foi um pequeno gesto, mas para Gael, era o abraço que curava a cicatriz em sua alma, a promessa de que o amor, mesmo ferido, poderia encontrar um novo caminho para florescer. A noite ainda era escura, mas no coração de Gael, uma pequena luz começava a brilhar.