O Rival Amado II
O Rival Amado II
por Davi Correia
O Rival Amado II
Capítulo 1 — A Sombra do Passado em Copacabana
O sol carioca beijava a pele de Léo com a mesma intensidade que o vento salgado açoitando as ondas na praia de Copacabana lhe trazia lembranças. A areia fina grudava em seus pés, um lembrete constante da terra que ele tanto amava, mas que, ultimamente, parecia cúmplice de um silêncio ensurdecedor. O barulho das gaivotas, o burburinho das famílias, o riso das crianças – tudo se misturava em uma sinfonia que, para Léo, soava dissonante. Ele buscava o refúgio de um quiosque modesto, onde o cheiro de mate gelado e pão de queijo era um bálsamo familiar. Sentou-se em um dos bancos de madeira desgastada, o olhar perdido no horizonte azul, tentando, em vão, afastar a imagem que insistia em assombrá-lo.
Era ele. Sempre ele. Arthur. O nome ecoava em sua mente como um sino fúnebre, um fantasma que se recusava a ser exorcizado. Léo fechou os olhos com força, a testa franzida em uma dor que ia além da saudade. Era a dor da traição, da perda, da esperança esfacelada. Há dois anos, o mundo de Léo desabara. Ele e Arthur, um amor construído sob o céu estrelado do Rio de Janeiro, um amor que parecia tão sólido quanto o Pão de Açúcar, tinha se desfeito como castelo de areia na maré alta. A briga, as palavras duras ditas no calor do momento, o silêncio que se seguiu – Léo se lembrava de cada detalhe com uma precisão cruel. E a pior parte, a que lhe rasgava a alma, era a certeza de que ele mesmo, com sua teimosia e orgulho ferido, tinha empurrado Arthur para longe.
"Um mate gelado, por favor", disse Léo ao vendedor, a voz um pouco rouca. O homem, um senhor de pele curtida pelo sol e sorriso acolhedor, assentiu com a cabeça, sem desviar os olhos do movimento da praia. A rotina, pensou Léo, era o único antídoto que ele tinha encontrado para a melancolia que o consumia. Acordar cedo, correr na praia, trabalhar em seu ateliê de arte no Leblon, voltar para casa, e assim sucessivamente. Uma existência meticulosamente planejada para evitar qualquer atrito com o passado. Mas o Rio, com sua beleza avassaladora e seu ritmo contagiante, era um convite constante à memória. Cada esquina, cada aroma, cada som parecia sussurrar o nome de Arthur.
O celular vibrou no bolso, tirando-o de seus devaneios. Era Helena, sua amiga e sócia no ateliê. "Léo, o cliente da exposição em São Paulo ligou de novo. Ele quer a confirmação das datas até amanhã. Temos que decidir sobre as molduras." Léo suspirou. A exposição era uma oportunidade de ouro, um passo importante para o ateliê. Mas, ultimamente, qualquer decisão parecia um fardo pesado demais.
"Ok, Helena. Eu passo aí em uma hora. Só preciso de mais um pouco de ar", respondeu ele, a voz tentando soar o mais normal possível. Desligou o telefone e voltou a encarar o mar. A verdade era que o ateliê, que antes era seu refúgio e sua paixão, agora parecia apenas mais um lembrete de tudo o que ele havia construído e quase perdido. E o medo de perder de novo, de ver tudo desmoronar novamente, era um fantasma que o acompanhava a cada pincelada.
A brisa marítima trouxe consigo um perfume sutil, diferente do sal e do bronzeador. Um perfume floral, envolvente, que fez o coração de Léo dar um salto doloroso. Ele levantou a cabeça, os olhos vasculhando a multidão que passeava pela orla. E então ele o viu.
Arthur.
Ele estava conversando com um grupo de pessoas, rindo, a luz do sol realçando o brilho de seus cabelos castanhos. Parecia tão radiante quanto Léo se lembrava, talvez até mais. O mesmo sorriso que um dia iluminara o rosto de Léo, agora, parecia destinado a outros. Um nó se formou na garganta de Léo, a respiração engatando em seu peito. Era como ser atingido por um raio, um choque elétrico que paralisou seus sentidos. Ele não esperava encontrá-lo ali, na sua praia, no seu refúgio. O encontro era tão improvável quanto o próprio reencontro.
Arthur era o renomado arquiteto que Léo conheceu em uma noite chuvosa em um bar na Lapa. A conexão fora imediata, avassaladora. Eles se perderam um no outro, nas conversas profundas sobre arte, música, vida. Arthur tinha uma paixão pela arquitetura que rivalizava com a de Léo pela pintura. Eles compartilhavam o amor pela beleza, pela estética, pela capacidade de transformar o ordinário em extraordinário. Léo se lembrava das noites em que Arthur o levava para ver projetos inacabados, onde ele explicava, com os olhos brilhando, a alma por trás de cada concreto e aço. E Léo, por sua vez, o presenteava com telas vibrantes, com a explosão de cores que capturava a essência de suas emoções.
A vida deles, antes de se despedaçar, era uma obra de arte em progresso. Dividiam um apartamento com vista para o Cristo Redentor, o cheiro de tinta fresca se misturando ao aroma de café pela manhã. Eram os donos de uma felicidade que, Léo agora percebia, ele havia subestimado, levado como garantida.
Arthur se virou, e por um instante fugaz, seus olhos se cruzaram. Léo sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele olhar, um misto de surpresa e algo que Léo não soube decifrar – talvez um lampejo de reconhecimento, talvez um rastro de dor contida – foi suficiente para acelerar seu coração em um ritmo frenético. Arthur desviou o olhar rapidamente, voltando a atenção para seus acompanhantes, mas a imagem daquele breve encontro ficou gravada na retina de Léo como um fotograma de um filme antigo.
Léo se levantou abruptamente, o copo de mate esquecido em sua mão. Ele não podia ficar ali. Não podia arriscar outro olhar, outra palavra, outro confronto com o passado que ele tanto tentava enterrar. A praia, que antes era um alento, agora se tornara um palco de reencontros indesejados. Ele precisava de distância. Precisava de um lugar onde o ar não trouxesse o perfume dele.
Com passos rápidos e firmes, Léo se afastou do quiosque, misturando-se à multidão. Cada passo era uma tentativa de fugir, mas cada passo parecia, ironicamente, levá-lo mais perto do mesmo abismo. A sombra de Arthur pairava sobre ele, densa e opressora. Ele sentia o peso daquele reencontro como se fosse um fardo físico, esmagando seus ombros.
Chegou ao seu carro, um velho Fusca azul que ele insistia em manter em funcionamento, mais por apego sentimental do que por praticidade. Entrou e fechou a porta com um baque surdo, o som ecoando em seu peito. A chave girou na ignição, o motor ganhando vida com um ronco familiar. Ele acelerou, deixando para trás a beleza sedutora de Copacabana, mas sabendo que, para Arthur, ele não tinha deixado nada para trás. A imagem de Arthur riendo com outras pessoas, o breve e intenso contato visual, eram sementes plantadas em um terreno fértil de saudade e arrependimento. O caminho de volta para o ateliê seria longo, e Léo sabia que a jornada para lidar com a presença de Arthur em sua vida, agora, estava apenas começando.