Cap. 12 / 25

O Rival Amado II

Capítulo 12 — O Espelho da Alma e a Cicatriz do Desejo

por Davi Correia

Capítulo 12 — O Espelho da Alma e a Cicatriz do Desejo

A noite havia cedido lugar a um amanhecer tímido, tingindo o céu de tons pastel que mal conseguiam penetrar a névoa persistente que pairava sobre a cidade. Na galeria de arte, o silêncio era preenchido apenas pelo gotejar das últimas gotas de chuva dos beirais e pelo murmúrio suave do ar condicionado. Lucas e Isabella estavam sentados em sofás opostos, separados por uma distância que, apesar de curta, parecia um abismo. A intensidade da noite anterior ainda pairava no ar, uma eletricidade residual que os deixava tensos e vulneráveis.

O beijo, que havia começado como um vulcão em erupção, terminou em um suspiro rouco, em um silêncio carregado de emoções não resolvidas. Cada um se afastou para o seu lado, como se a proximidade física fosse um perigo iminente. A luz fraca do amanhecer revelava as marcas da noite em seus rostos: olheiras profundas, a pele ligeiramente inchada e o olhar carregado de uma incerteza palpável.

"Eu...", Isabella começou, a voz ainda embargada pela emoção, hesitando em encontrar as palavras. Ela olhava para as próprias mãos, incapaz de encarar Lucas. A sensação do toque dele, a memória do beijo, ainda a percorriam, mas agora misturadas a uma onda de dúvida e medo. Teria sido um erro? Uma recaída em velhos padrões?

Lucas observava Isabella, a angústia apertando seu peito. Ele via nela o reflexo de sua própria confusão. A noite havia sido um turbilhão de paixão e desabafo, mas o amanhecer trazia a dura realidade de suas questões pendentes. "Eu também não sei por onde começar, Isabella", ele respondeu, a voz baixa e rouca. "Eu só sei que... aquela noite não foi uma mentira."

"Não foi?", ela repetiu, finalmente erguendo o olhar para encará-lo. Havia uma vulnerabilidade crua em seus olhos azuis, um convite silencioso para que ele explicasse. "Você disse que me amava. Que me amou com a minha saudade, com a minha dor. Mas, Lucas, essa dor... ela é uma parte de mim. Uma parte que eu não sei se consigo superar. Uma parte que eu sinto que me prende a ele."

Ele assentiu lentamente, compreendendo a profundidade de suas palavras. A sombra de Daniel pairava entre eles, um fantasma que Lucas, apesar de seus esforços, não conseguia dissipar completamente. "Eu sei. E eu nunca te pediria para esquecer. Apenas para me deixar amar você, com toda a sua história. Para que, juntos, possamos construir algo novo, sem apagar o passado, mas sem deixar que ele nos defina."

"Mas como?", Isabella perguntou, a voz carregada de desespero. "Como eu posso te amar completamente, Lucas, quando uma parte de mim ainda busca algo que não existe mais? Quando eu ainda sinto a falta dele em momentos que eu deveria estar sentindo você?" A confissão saiu em um sopro, a verdade crua de sua luta interna.

Lucas se levantou e caminhou lentamente até ela. Sentou-se ao seu lado, mas mantendo uma distância respeitosa. Ele estendeu a mão, hesitando antes de tocar o braço dela. Isabella não se afastou. O toque dele era suave, gentil, um contraste com a intensidade da noite anterior.

"Isabella", ele disse, sua voz calma e firme, mas repleta de compaixão. "A saudade de Daniel não vai desaparecer. E eu entendo isso. O que eu sinto por você não é um desejo de substituí-lo, mas sim de construir um novo amor, um amor que floresça ao lado das suas memórias, e não sobre elas. Um amor que te traga alegria, que te faça sentir viva de novo, sem esquecer quem você foi ou quem você amou."

Ele olhou para ela, seus olhos escuros buscando os dela. "Eu sei que te machuquei. Que minhas ações foram, por vezes, egoístas e impacientes. Eu estava com medo de te perder. Com medo de que a sombra de Daniel fosse grande demais para o meu amor. Mas a noite passada me mostrou que o que eu sinto por você é mais forte do que esse medo."

Isabella sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo com o toque dele. A sinceridade em seus olhos era inegável. Ela podia ver a batalha interna dele, a angústia que ele sentia em não ser o suficiente. "Mas e se eu não for suficiente para você, Lucas? E se eu nunca conseguir te dar o que você precisa? E se essa saudade for uma cicatriz que nunca vai desaparecer?"

"Ninguém é perfeito, Isabella", Lucas respondeu, apertando suavemente seu braço. "E eu não estou buscando a perfeição. Estou buscando a verdade. A verdade do que sentimos um pelo outro. As cicatrizes, bem... as cicatrizes contam histórias. E a sua história, com Daniel, é uma parte importante de quem você é. Eu não quero apagá-la, quero adicionar novos capítulos a ela. Capítulos que escrevamos juntos."

Ele deslizou a mão para cima, acariciando o rosto dela, o polegar traçando a linha de sua mandíbula. "Seu desejo por ele é uma parte de você. E o meu desejo por você... ele existe. E eu não quero que você sinta culpa por isso. Eu quero que você sinta que é amada, que é desejada, que é vista por quem você é, com todas as suas complexidades."

As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Isabella, mas desta vez, não eram de raiva ou de mágoa. Eram lágrimas de alívio, de confusão, de um amor que ela ainda lutava para entender. Ela se inclinou levemente para o toque dele, fechando os olhos por um instante.

"Eu... eu não sei se consigo, Lucas", ela sussurrou, a voz embargada. "Eu não quero te magoar de novo. E não quero me magoar mais."

"Então vamos tentar juntos", Lucas disse, a voz carregada de promessa. "Vamos dar um passo de cada vez. Sem pressa, sem cobranças. Apenas... nos permitir sentir. Se você sentir que precisa de espaço, me diga. Se eu sentir que estou te pressionando, me diga. A comunicação, Isabella, vai ser a nossa ferramenta principal agora."

Ele a encarou, a intensidade em seu olhar era como um espelho, refletindo a alma dela. "O que eu senti na noite passada... foi uma liberação. Uma forma de dizer tudo o que eu estava guardando. E eu não me arrependo disso. Eu me arrependo apenas de não ter dito antes, de ter deixado que as coisas chegassem a esse ponto."

Isabella respirou fundo, o cheiro suave do perfume de Lucas misturado ao aroma de café fresco que ela havia preparado mais cedo. Era um aroma que a acalmava, que a fazia sentir segura. Ela olhou para ele, para os olhos que a viam de verdade, para o homem que, apesar de seus erros, parecia genuinamente querer amá-la.

"Eu preciso de tempo", ela disse, a voz ainda trêmula. "Tempo para processar tudo. Tempo para entender meus próprios sentimentos."

"E você terá esse tempo", Lucas respondeu, sua mão ainda sobre o rosto dela. "Mas saiba que eu estarei aqui. Esperando. Sem pressionar, apenas... presente. Se você decidir que este é um caminho que vale a pena explorar, eu estarei com você. E se decidir que não é, eu vou respeitar. Mas não quero que essa seja uma decisão tomada no calor da emoção ou no frio do medo."

Ele deu um leve aperto em seu braço. "Sua arte, Isabella, é uma prova da sua intensidade, da sua paixão. E eu me apaixonei por essa intensidade. Eu amo a forma como você vê o mundo, como você expressa suas emoções. Mesmo quando elas me machucam."

Ela sorriu timidamente, um sorriso que mal tocava seus lábios, mas que iluminou seus olhos. Era um vislumbre da mulher vibrante que Lucas amava.

"Eu não quero mais ser uma sombra, Lucas", ela confessou. "Eu quero ser... eu. Completa. E se isso significa ter que lidar com a minha saudade e, ao mesmo tempo, tentar amar você, então eu preciso tentar."

"Então vamos tentar", ele repetiu, um sorriso genuíno começando a iluminar seu rosto. "Juntos."

Ele se inclinou novamente, mas desta vez, o beijo foi diferente. Mais suave, mais terno. Um beijo de promessa, de esperança. Isabella respondeu com a mesma delicadeza, sentindo a tensão diminuir, substituída por uma calma incerta, mas reconfortante. O espelho da alma dela refletia agora uma nova possibilidade, a cicatriz do desejo ainda presente, mas talvez, apenas talvez, pronta para cicatrizar e dar lugar a um novo tipo de amor.

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